Para o colecionador de quadrinhos no Brasil, as séries incompletas fazem parte do cotidiano. Publicações interrompidas, linhas editoriais abandonadas, projetos que não chegam ao fim. Nas estantes, acumulam-se volumes soltos, arcos quebrados, coleções que não avançam além de determinado ponto. Eventualmente, algum desses títulos retorna de forma inesperada, mas isso ocorre mais como exceção do que como regra.
Não chega a ser uma coleção completa — afinal, Príncipe Valente segue em publicação no exterior —, mas o caso brasileiro é emblemático. Durante décadas, o personagem foi publicado de forma irregular, a conta-gotas, em iniciativas que frequentemente recomeçavam do início sem jamais avançar de maneira consistente.
O cenário mudou quando a Editora Planeta DeAgostini decidiu lançar uma coleção que reúne todos os álbuns desde a criação da série, em 1937, até 2019, adotando o critério de um álbum por ano. Tratou-se de uma operação editorial pontual, do tipo “quem comprou, comprou”, sem garantias de reimpressão ou continuidade. Ainda assim, o alcance do projeto é difícil de ignorar: trata-se da mais extensa publicação já realizada do personagem no Brasil.
A possibilidade de ver tantos álbuns de Príncipe Valente circulando no país parecia, até pouco tempo atrás, improvável. Não por falta de relevância da obra, mas pela própria lógica histórica do mercado editorial brasileiro. A coleção, nesse sentido, representa um ponto fora da curva.
Resta agora a expectativa — ainda que moderada — de que alguma editora se disponha a dar sequência ao material posterior a 2019, cobrindo o período entre 2019 e 2025. Mesmo sem seguir o mesmo formato gráfico, essa eventual continuidade teria valor documental. Afinal, ao menos a fase clássica do personagem está assegurada, e em volume muito superior ao que qualquer leitor brasileiro poderia ter projetado.
Snoopy é outro exemplo de coleção que dificilmente veremos completa no Brasil. A L&PM chegou a iniciar a publicação cronológica da série, mas o projeto perdeu fôlego: ao longo de vários anos, apenas seis volumes chegaram às livrarias antes de a iniciativa ser interrompida. Considerando a extensão da obra de Charles M. Schulz, o resultado ficou aquém do necessário para se falar em continuidade real.
Diante desse cenário, resta ao leitor brasileiro se contentar com a coleção de tiras dominicais lançada pela Planeta. Trata-se de um recorte específico, longe de abarcar a totalidade da produção, mas ainda assim relevante do ponto de vista editorial. Como ocorre com frequência nesses casos, foi uma publicação de circulação limitada, sem reposições regulares — mais um exemplo do modelo “quem comprou, comprou”. Ao menos, nesse caso, permanece disponível um conjunto consistente de material, ainda que distante da ideia de uma coleção definitiva.
Infelizmente, o mesmo não se pode dizer de The Spirit, de Will Eisner. De tempos em tempos, alguma editora se dispõe a lançar coletâneas com histórias selecionadas, geralmente bem cuidadas do ponto de vista gráfico, mas o movimento raramente avança além disso. Falta continuidade, e o personagem permanece preso a aparições esporádicas, sempre parciais.
Em termos práticos, não se trata de um projeto impossível. Algo em torno de trinta álbuns seria suficiente para cobrir a totalidade da série, desde que houvesse fôlego editorial e planejamento de médio a longo prazo — algo que, no Brasil, exige uma editora de médio porte para cima. Ainda assim, trata-se de um caso que permanece no campo da possibilidade. Apesar dos relatos recorrentes de editoras sobre as dificuldades envolvidas, The Spirit segue como uma dessas coleções que, embora improváveis, ainda não foram totalmente descartadas.
A Zarabatana publica Lucky Luke há mais de uma década em volumes que reúnem três álbuns por edição. Em vez de iniciar a coleção pelo começo da série, a editora optou por lançar o volume 4, já na fase escrita por René Goscinny, tradicionalmente considerada a mais celebrada do personagem.
O problema está no ritmo. Passados mais de dez anos, apenas quatro volumes foram publicados, cobrindo do 4 ao 7. Não há, até o momento, indicação clara de continuidade regular. Existe a expectativa de que ao menos os três primeiros volumes venham a ser lançados, completando o ciclo inicial, mas, mantida a cadência atual, essa conclusão permanece distante.
Lucky Luke, aliás, também recebeu no Brasil duas edições de uma releitura contemporânea assinada pelo artista francês Matthieu Bonhomme. Trata-se de uma abordagem mais sóbria e realista do cowboy criado por Morris, distante do humor cartunesco tradicional e mais próxima de um western crepuscular. A interpretação foi bem recebida internacionalmente e rendeu prêmios relevantes, como o Prix Saint-Michel de melhor álbum e o Prêmio do Público no Festival de Angoulême.
Os dois álbuns — O Homem que Matou Lucky Luke e Procurado — foram publicados por aqui pela Editora Trem Fantasma, em uma iniciativa pontual que, embora não dialogue diretamente com a série regular, acabou se tornando um raro complemento de prestígio dentro da bibliografia brasileira do personagem.
E, falando na Trem Fantasma, foi com entusiasmo que a editora anunciou a publicação de Corto Maltese. O personagem criado por Hugo Pratt já teve diversas passagens pelo mercado brasileiro e, ainda assim, algo aparentemente simples nunca se concretizou: a publicação integral da série original, composta por apenas doze álbuns. Trata-se de um caso exemplar de como nem sempre a dimensão da obra corresponde à dificuldade de levá-la adiante editorialmente.
A opção da Trem Fantasma, no entanto, seguiu outro caminho. A editora decidiu iniciar o projeto por quatro álbuns da reformulação recente assinada por Juan Díaz Canales e Rubén Pellejero — histórias ambientadas antes da série principal. Quando finalmente chegou ao material de Pratt, a escolha foi pela reedição de álbuns que já haviam sido publicados no Brasil em mais de uma ocasião. As histórias inéditas do autor italiano, que poderiam conferir ao projeto um peso histórico real, ficaram de fora.
O problema se agrava quando se observa a capacidade operacional da editora. Pequena, com dificuldades recorrentes para manter em dia até mesmo os lançamentos vinculados ao seu clube de assinaturas, a Trem Fantasma entregou até agora apenas três álbuns, enquanto o quarto permaneceu indefinido ao longo de todo o ano de 2025. Nesse ritmo, o risco é evidente: o projeto pode não chegar sequer ao ponto em que as histórias inéditas de Pratt entrariam em cena.
Seria lamentável. Não apenas pela interrupção de mais uma tentativa, mas porque Corto Maltese segue sendo um daqueles raros casos em que o essencial ainda permanece fora de alcance — não por falta de interesse, mas por escolhas editoriais que, uma vez mais, parecem caminhar em círculos. Tivesse ela começado pelas inéditas, mesmo diante de um fracasso em continuar ao menos teriam feito Historia.
Outra série longa que dificilmente veremos completa no Brasil é Mortadela e Salaminho. A tentativa mais recente, conduzida pela Editora Figura, optou por publicar os álbuns de forma isolada e, para agravar a equação, em edições de capa dura. O resultado é um projeto caro, fragmentado e sem perspectiva clara de abrangência. Na impossibilidade de grande continuidade poderiam ter ao menos optados por edições inéditas por aqui.
Ainda assim, é justo reconhecer o trabalho da Editora Figura. Entre seus acertos recentes, destaca-se a atenção dedicada à obra de Sergio Toppi.A editora vem conduzindo um esforço consistente para reunir boa parte de sua obra, em uma coleção que, sem alarde, já se impõe como uma das mais relevantes dedicadas a um autor europeu no país.
O projeto surpreende não apenas pela abrangência, mas também por escolhas pouco óbvias. A Figura chegou a publicar um volume inteiramente dedicado às histórias de Toppi com personagens da Bonelli — um recorte inesperado e, ao menos para muitos leitores, impensável até pouco tempo atrás. Foi um desses casos em que a edição não apenas preenche uma lacuna, mas reconfigura a percepção do autor dentro de um determinado universo editorial.
Mesmo que a coleção não venha a cobrir absolutamente toda a produção de Toppi, o conjunto já disponível é mais do que suficiente para situar sua importância e variedade temática. Em um mercado acostumado a aproximações tímidas ou fragmentárias, o que a Figura construiu até aqui representa um corpo de obra sólido, capaz de sustentar o autor para além do rótulo de “cult” e inseri-lo, com alguma justiça, no catálogo permanente do leitor brasileiro.
Não poderia deixar de registrar os méritos da Editora Veneta, que finalmente vem dando a atenção devida a uma obra-prima como Love & Rockets. A série havia sido iniciada no Brasil ainda no começo dos anos 1990, pela Editora Record, mas a tentativa não avançou e acabou se perdendo como tantas outras daquele período.
Agora, o projeto ganhou novo fôlego. A Veneta consolidou a publicação com a edição primorosa da série Palomar, de Gilbert Hernandez, e avança, em seguida, sobre a obra de seu irmão, Jaime Hernandez. Trata-se de um trabalho paciente e criterioso, que respeita a natureza fragmentada e evolutiva da série e, ao mesmo tempo, constrói algo próximo de uma coleção definitiva — um raro caso em que método, continuidade e relevância artística finalmente caminham juntos no mercado brasileiro.

A Panini, por sua vez, vem realizando um trabalho consistente em frentes que, até pouco tempo atrás, pareciam improváveis no mercado brasileiro. O caso mais emblemático é A Espada Selvagem de Conan. A coleção havia sido iniciada pela Salvat, que interrompeu o projeto após quatro volumes de teste, mas foi retomada pela Panini com um plano mais ambicioso: a conclusão da fase original do personagem em dez volumes no formato omnibus — algo que, até então, poucos leitores acreditavam que chegaria a se concretizar por aqui.
Em paralelo, a Mythos deu continuidade ao material da fase Dark Horse, reunido em mais oito volumes também em formato omnibus, além de dois volumes dedicados à fase Rei Conan. Trata-se de um esforço de organização editorial que, pela primeira vez, permite ao leitor acompanhar de forma relativamente ordenada as diferentes etapas do personagem.
Outro exemplo significativo é Hellboy. Após anos sendo publicado pela própria Mythos em formatos variados e pouco uniformes, o personagem finalmente parece ter encontrado um eixo. A editora vem lançando volumes omnibus que abrangem tanto a fase principal quanto as séries derivadas. A coleção ainda não foi concluída, mas, ao contrário de tentativas anteriores, o projeto dá sinais claros de continuidade.

Ken Parker dá sinais de que, desta vez, pode chegar ao fim. A Mythos anunciou desde o início um plano de cinquenta volumes e já ultrapassou a marca dos trinta — um feito considerável, sobretudo quando se trata de uma série longa, adulta e historicamente irregular no mercado brasileiro. Diferentemente de outras tentativas, há aqui uma sensação concreta de avanço, sustentado por um público fiel.O formato escolhido, no entanto, pesa contra. As edições em capa dura são volumosas e ocupam espaço excessivo nas estantes, um fator que, a longo prazo, se torna um problema prático para o colecionador, o mesmo impasse observado na coleção de Príncipe Valente: projetos que até poderiam justificar o acabamento de luxo, mas que talvez se beneficiassem mais de volumes com maior número de páginas e menor dispersão física, favorecendo a continuidade em detrimento do impacto visual imediato.
A Mythos também vem demonstrando fôlego ao investir na publicação cronológica de Juiz Dredd na serie "Casos Completos" que a cada volume publica um ano da revista do personagem, começando por 1977, seu ano de criação que por sinal publica um ano do personagem (no caso 2099-2100 nesse primeiro volume). Trata-se de uma empreitada ambiciosa, e dificilmente chegará ao fim, dadas a extensão e a fragmentação histórica do personagem. Ainda assim, vale a lógica já conhecida do colecionador brasileiro: o que vier é lucro.

Em paralelo, a editora mantém uma segunda frente dedicada ao personagem, com coletâneas temáticas que recompilam fases diversas de Juiz Dredd. Parte desse material já havia sido publicada anteriormente em capa dura; outra parte é inédita no país. Essas edições circulam sob o selo Juiz Dredd Essencial e funcionam como um contraponto mais flexível à rigidez da cronologia — uma solução híbrida que, embora pouco elegante do ponto de vista editorial, revela uma tentativa pragmática de manter o personagem em circulação.
Anos atrás, a Mythos iniciou a publicação da coleção Cripta, dedicada às histórias de terror da revista americana Eerie. O projeto, no entanto, foi interrompido prematuramente, limitando-se a apenas quatro volumes. Agora, a editora decidiu retomar o material em um novo formato, apostando em edições omnibus — uma tentativa de dar sobrevida a um catálogo que sempre encontrou leitores, mas nunca conseguiu se estabilizar por aqui.
De forma semelhante, a Editora Devir chegou a publicar quatro volumes com histórias da revista Creepy. A iniciativa, porém, seguiu o mesmo destino: foi abortada antes de ganhar corpo e, até o momento, não há sinal de retomada. São exemplos quase didáticos de como o terror clássico americano continua a circular no Brasil de maneira intermitente, reaparecendo em ciclos, sempre promissor, raramente contínuo.
Voltando na Panini, há um conjunto de séries que a editora vem tratando com um grau de empenho raro no mercado brasileiro, sobretudo ao optar por uma organização cronológica minimamente coerente. É o caso de X-Men, Homem-Aranha e Demolidor. Mesmo que nem todo o percurso desses personagens venha a ser publicado, há sinais claros de que ao menos as fases fundamentais tendem a ser contempladas.
Com X-Men, esse processo já se consolidou: a editora conseguiu publicar toda a chamada fase de ouro do título, ainda que de forma fragmentada entre a coleção Definitiva, em capa dura, e os volumes das Sagas. O resultado pode não ser ideal do ponto de vista editorial, mas é completo — o que, no Brasil, não é pouco.
No caso do Demolidor, o caminho parece igualmente traçado. Com a publicação do material anterior à fase Frank Miller — que já havia saído em encadernados próprios —, tudo indica que essa etapa será incorporada às edições Definitivas. Trata-se menos de aposta e mais de reaproveitamento lógico de um catálogo que já existe.
O Quarteto Fantástico ainda está em estágio inicial, mas, se a coleção avançar até se encontrar com a fase de John Byrne — já publicada em formato omnibus —, o conjunto já pode ser considerado satisfatório. Não é o ideal, mas é o suficiente para cobrir o período mais celebrado do grupo.
Já Homem-Aranha avança de forma mais visível, impulsionado pela progressão constante da coleção Saga. Se a publicação alcançar o arco do casamento de Peter Parker — que, para muitos leitores, marca simbolicamente a morte definitiva do personagem —, o objetivo estará cumprido. Há quem defenda a fase posterior, que de fato contém boas histórias, mas não essenciais. Ainda assim, considerando que o mercado absorveu até a indefectível saga do Clone — unanimemente considerada desastrosa —, não há razão concreta para supor que o material anterior fique de fora.
Aliás, em um mercado onde até o Spawn de Todd McFarlane encontra público fiel, talvez seja prudente abandonar qualquer tentativa de previsão lógica. O histórico recente mostra que, quando vende, a qualidade costuma ser apenas um detalhe secundário.
A Panini também levou a termo a publicação da fase de Alan Moore em Monstro do Pântano, explorando o material em diferentes formatos até chegar, por fim, a quatro edições de acabamento superluxuoso. O projeto, no entanto, não passou incólume a críticas. A opção por cores modernizadas compromete parte da experiência original, diluindo a atmosfera psicodélica concebida por Moore e alterando o impacto narrativo de uma obra profundamente ligada às escolhas gráficas de seu tempo.
A editora chegou ainda a publicar um volume dedicado à fase embrionária do personagem, assinada por Len Wein e Bernie Wrightson, gesto relevante por recuperar o momento fundacional da série. Ainda assim, permanece uma lacuna evidente: o período imediatamente anterior à chegada de Moore, uma fase irregular, mas rica em experimentações, nunca foi publicada de forma integral no Brasil. Uma edição no formato Absolute cobrindo esse intervalo não apenas faria sentido editorial como teria valor histórico.
Curiosamente, a própria fase pós-Moore já foi publicada pela Panini em ocasiões anteriores e há planos de retomá-la em novos volumes de acabamento luxuoso — ainda que fora do selo Absolute, o que, nesse caso específico, talvez seja uma boa notícia. Em um mercado acostumado a reempacotar o mesmo material, a possibilidade de avançar sobre territórios inéditos segue sendo a exceção, não a regra.
A Editora Mino foi uma das poucas a apostar com método e persistência na publicação do trabalho autoral de Ed Brubaker. Ao longo dos anos, conseguiu colocar em catálogo praticamente toda a produção independente do autor, construindo uma bibliografia coerente e reconhecível — algo raro no mercado brasileiro, especialmente quando se trata de obras fora do circuito dos super-heróis.
Apesar de ainda manter contrato de exclusividade com Brubaker, a editora atravessa agora um período de recesso. Com seus responsáveis envolvidos em projetos ligados ao cinema, a Mino encontra-se, na prática, congelada, sem lançamentos previstos e sem horizonte claro de retomada ao longo de 2026. Trata-se de uma pausa que interrompe um dos raros esforços sistemáticos de publicação autoral no país e deixa em suspenso uma linha editorial que, até aqui, vinha funcionando com consistência.
A Pipoca & Nanquim também vem realizando um trabalho consistente de recuperação de catálogo, especialmente ao resgatar personagens que, por aqui, sempre circularam de forma fragmentada. O caso mais visível é o das Tartarugas Ninja: a editora conseguiu publicar integralmente a fase clássica e agora avança sobre o material da era IDW. Para muitos leitores, a etapa original já encerra o essencial; a fase mais recente, embora bem produzida, nem sempre desperta o mesmo apelo. Ainda assim, o projeto é conduzido com método.

Dentro desse esforço, duas outras linhas se destacam. A primeira é Tenente Blueberry, de Moebius e Jean-Michel Charlier: um western de fôlego que só não ocupa sozinho o posto de “maior série do gênero” porque existe Ken Parker — e, mesmo assim, disputa esse lugar sem constrangimento. A segunda passa por Alejandro Jodorowsky. Aproveitando uma onda de interesse pelo autor, a editora vem publicando de forma sistemática o universo de O Incal, com a coleção principal seguindo em paralelo à de Os Metabarões, agora com Os Tecnopapas, e chegando inclusive a derivados sem participação direta de Jodorowsky.
Jodorowsky, aliás, é um caso curioso no Brasil: por anos, foi mais lembrado como cineasta cult do que como roteirista de quadrinhos. De repente, virou ativo disputado — e editoras diferentes passaram a querer um “Jodorowsky” para chamar de seu, nem sempre com o mesmo critério editorial.
Voltando ao faroeste, Tex é um caso à parte no mercado brasileiro. O personagem sempre contou com uma base de leitores fiel e numerosa, e agora passa a receber uma coleção de omnibus que reúne seus primeiros anos em ordem cronológica. Não é a primeira tentativa: houve uma iniciativa anterior que apostou na fase colorida e chegou a alcançar 51 volumes — número expressivo para qualquer padrão nacional.
A nova coleção, naturalmente, não tem a pretensão de abarcar toda a trajetória do personagem, algo virtualmente inviável. Ainda assim, cobre um segmento significativo de sua produção inicial. Do ponto de vista crítico, não se trata da fase mais essencial de Tex — os trabalhos mais interessantes viriam depois. Mas o leitor texiano, fanboy por natureza, funciona segundo outra lógica. Para esse público específico, a completude e a ordem cronológica tendem a falar mais alto do que qualquer hierarquia estética.
E ainda no território do faroeste, há o retorno de A História do Oeste. A série já havia sido publicada integralmente no Brasil nos anos 1970, na coleção Epopeia Tri, e voltou a circular nos anos 1990 pela Editora Record — dessa vez de forma incompleta, interrompida no volume 47 de um total de 75. Trata-se, portanto, de um título que carrega uma tradição editorial irregular, marcada por tentativas longas e desfechos interrompidos.
Agora, a série reaparece pelas mãos da Saicã, uma editora de estrutura mínima, praticamente conduzida por uma única pessoa. Mesmo com a decisão de reunir três álbuns originais por volume — o que reduziria o projeto a algo em torno de 25 livros —, trata-se de uma aposta arriscada para um selo desse porte. O risco aumenta com as escolhas de formato: edições em capa dura, repetindo os mesmos problemas já observados em coleções como Príncipe Valente e Ken Parker, e, para completar, uma versão colorizada.
A opção pela cor, além de elevar ainda mais os custos, altera de maneira sensível a experiência visual de uma obra concebida para o preto e branco — e, pconvenhamos, não para melhor. O conjunto dessas decisões tende a afastar o público mais amplo, aquele que poderia garantir fôlego comercial à série. Em contrapartida, o fã dedicado provavelmente se entusiasma. Como em tantos outros casos, o projeto parece menos voltado à expansão do público do que à resistência de um núcleo fiel — pequeno, mas persistente.
Agora é preciso retomar o ponto de partida desta matéria. A proposta inicial era apenas citar, de forma rápida, algumas coleções em circulação. O texto, no entanto, ganhou corpo à medida que os exemplos se acumulavam e acabou assumindo outro papel: menos um inventário pontual e mais um retrato das idas e vindas do mercado brasileiro diante de séries longas e projetos de fôlego.
Muita coisa ficou de fora, inevitavelmente. Algumas séries porque não vieram à memória no momento, outras porque seguem trajetórias distintas das aqui discutidas. Sandman, de Neil Gaiman, por exemplo, já foi amplamente publicado no Brasil, em diferentes formatos e por diferentes editoras, a ponto de hoje não representar mais um problema de incompletude. O mesmo vale para Lucifer, série derivada que, depois de anos circulando de forma irregular, finalmente teve sua publicação integral concluída por aqui.
Resta, como contraponto mais adequado ao espírito deste texto, Livros da Magia. A minissérie original foi relançada diversas vezes, mas a série mensal — muito mais extensa e central para o universo do personagem — permanece inédita no Brasil. É um desses casos emblemáticos em que o material mais acessível circula, enquanto o núcleo da obra segue à espera de uma iniciativa que aceite o risco de ir além.
A ideia inicial era discutir o desgaste do colecionador diante de séries abandonadas — casos como Valerian, que ficou a poucos álbuns de uma conclusão editorial. O problema, no entanto, vai além da simples interrupção. Muitas editoras de médio porte demonstram uma resistência quase sistemática à ideia de publicar obras completas. No caso específico de Valerian e Blacksad, essa hesitação se manifesta de forma clara: ambas já tiveram grande parte de seu material lançada no Brasil pelo selo SESI, e as editoras evitam assumir justamente o trecho restante.
No caso de Blacksad, a situação é ainda mais evidente. A série segue em publicação no exterior e já acumula ao menos três álbuns inéditos por aqui. Ainda assim, prevalece a cautela. A leitura mais recorrente no mercado é a de que o público interessado é pequeno e altamente especializado — e que esse mesmo público dificilmente aceitaria recomprar uma coleção quase inteira por causa de duas ou três histórias adicionais, sobretudo enquanto essas edições ainda são relativamente recentes.
Há também uma expectativa tácita: esperar que o tempo passe, que as edições anteriores se tornem menos acessíveis, para então justificar uma eventual edição integral. É uma estratégia compreensível do ponto de vista comercial, mas frustrante para o leitor que acompanha essas séries há anos e convive com lacunas cada vez mais específicas.
Nesse cenário, a solução mais imediata para Valerian e Blacksad talvez não esteja nas editoras médias, com planos mais amplos e cálculos mais rígidos, mas justamente nas pequenas. Selos menores, menos preocupados com escala e mais dispostos a assumir projetos de completude, poderiam avançar onde outros recuam — ainda que isso signifique falar com um público reduzido, porém fiel.
Muita coisa ficou de fora, mas o panorama que se forma é suficientemente claro. O colecionador brasileiro convive com um mercado que avança, recua, interrompe e retoma projetos de forma errática, quase sempre guiado mais pelo cálculo imediato do que pela ideia de completude. Séries longas seguem sendo tratadas como apostas de risco, mesmo quando já demonstraram ter público, e o resultado é um acúmulo de obras quase completas — sempre a poucos volumes do fim.
Quando as coleções chegam ao término, isso costuma ocorrer por insistência, teimosia ou circunstâncias excepcionais, não por uma política editorial consistente. O leitor aprende a comemorar o mínimo: metade de uma fase, um arco fundamental, uma cronologia razoavelmente organizada. Completar uma série inteira ainda é exceção.
Talvez por isso o cenário atual, com todos os seus impasses, também revele algo positivo. Nunca se publicou tanto, nem se chegou tão perto de fechar tantas coleções importantes. Falta método, falta continuidade, mas já não falta material. Para o colecionador, resta o exercício permanente da paciência — e a consciência de que, no Brasil, terminar uma coleção continua sendo menos um direito do leitor e mais um acidente editorial.