"Eu era mais animador de torcida do que produtor." A frase de José Emílio Rondeau, autor do livro "Será: Os bastidores do primeiro disco da Legião Urbana", diz muito sobre a gênese de um dos álbuns mais importantes da história do rock brasileiro. Porque aquele disco de estreia não nasceu como projeto de marketing nem sob a batuta de um gênio técnico. Nasceu no grito. Na pressa. No improviso. E, sobretudo, na fé.
Rondeau era jornalista, roteirista, produtor de videoclipes e entusiasta confesso da Legião — mas não um produtor musical no sentido clássico. Ainda assim, foi ele quem assumiu a missão de traduzir para fita magnética a pulsação de uma banda que ainda aprendia a ser banda depois de duas tentativas frustradas com outros produtores experientes que não deram certo e quase puseram fim ao primeiro dia. Um trabalho que exigia mais escuta do que comando. Mais sensibilidade do que método. E um bom bocado de nervos de aço. Um trabalho que só prosseguiu porque Jorge Davidson, executivo da gravadora acreditava muito no potencial de Renato Russo e ja intervenção de Mayrton Bahia que conversou com a Banda nas vésperas de ela voltar pra Brasilia e desistir de tudo.
Antes disso, Rondeau havia se aventurado na produção do disco de estreia do Camisa de Vênus. Amizade com Marcelo Nova, papo de ônibus indo para um show do Queen no Morumbi e, pouco depois, gravação desgovernada num estúdio da RCA, com liberdade total e controle zero. “Com o Camisa, eu era amador. Com a Legião, semi-amador”, ele brinca. Mas entre os dois trabalhos havia uma diferença fundamental: a Legião não era só uma banda — era uma revolta ambulante.
A primeira demo da Legião chegou as mãos do Rendeu, que a tem até hoje e ele empolgado pediu para o amigo Jorge Davidson produzir a banda, assim que soube do contrato com a Gravadora. Mal sabia ele que as gravações já tinham se iniciados e após atritos com dois produtores o clima estava tenso com a banda botando tudo a perder. Davidson disse sim e empolgado Rondeau mal sabia onde estava se metendo.
Em Será, Rondeau reconstrói o clima de tensão, descoberta e ruído criativo que definiu as sessões do disco. Um dos pontos centrais é o papel do baixista Negrete, que entrou na banda após Renato Russo cortar os Pulsos e precisarem de alguém para assumir o Baixo, antes tocado por ele. Bonfá, acostumado a linhas secas e diretas do punk, estranhava os grooves sincopados e cheios de notas que Negrete propunha. Aliás, o baterista já revelava uma personalidade difícil e cheia de nuances — especialmente naqueles momentos em que, apesar dos 20 anos, a adolescência ainda se recusava a ir embora.O livro mostra como esse contraste acabou moldando o som do álbum. “Negrete trouxe um swing que ainda não existia na Legião”, diz Rondeau. Ele contribuiu muito, como os improvisos no final de "A Dança" que fizeram toda a diferença na música, deixando-a mais viajante, bem doida.
A função de Rondeau no estúdio era múltipla: “um palpiteiro, um animador de torcida, um psicólogo, um pai, uma mãe… tudo isso ao mesmo tempo”. Sem formação musical formal, ele confiava no ouvido treinado por anos de jornalismo cultural. Buscava, na escuta, o som que ainda não sabia nomear tecnicamente — mas que reconheceria assim que surgisse no monitor da mesa de som.
O livro também recupera a atmosfera dos bastidores com franqueza rara: o nervosismo, as decisões meio às cegas, os desentendimentos com o baterista Marcelo Bonfá. E mostra como, ainda que imperfeito, o disco captou algo puro: a urgência de um país jovem, ferido e faminto por voz. A Legião soava como uma carta escrita com sangue e assinada com esperança.Será não é apenas um livro sobre um disco. É um relato sobre um momento em que era possível acreditar que uma guitarra, uma caneta e um microfone podiam mudar tudo. Um tempo em que se fazia história tropeçando — mas sem jamais calar.
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A seguir trechos da entrevista que fiz com Jose Emilio Rondeau e que usei como base para a materia
No início da sua trajetória musical, você já trabalhava como jornalista e produzia clipes para o Fantástico. Depois, como produtor executivo da Legião, você diz no livro que “era mais um animador de torcida, palpiteiro e testemunha ocular da história do rock'n'roll brasileiro, assistindo de camarote à conjuração de tantos milagres sonoros, artísticos e musicais no decorrer de tantos milagres sonoros". Mas antes de tudo isso, você já havia produzido o primeiro disco do Camisa de Vênus.
Queria começar te perguntando justamente sobre essa experiência inicial com o Camisa: como foi trabalhar com a banda naquele momento? O seu papel foi diferente do que viria a ser com a Legião Urbana, por exemplo?
Jorge:
O que aconteceu foi o seguinte: há uma diferença crucial entre o que foi o trabalho com o Camisa de Vênus e o trabalho com a Legião. Se com o Camisa de Vênus eu era amador, com a Legião eu era semi-amador. Com o Camisa foi a primeira vez que meti a cara nesse tipo de trabalho.
E havia também uma diferença muito grande. Ao contrário da Legião — que eu só conheci pessoalmente no primeiro dia de estúdio, quando falei "bom dia" e "boa tarde" — no caso do Camisa, eu já era amigo do Marcelo Nova há um ano ou dois. A gente se conheceu num ônibus que levava jornalistas e radialistas para o show do Queen no Morumbi. Conversamos e ali ele falou: “Tenho uma banda que estou pensando em chamar de Camisa de Vênus.” E eu disse: “Nossa, que bacana! Vou querer conhecer e produzir isso depois.”
Foi um papo de ônibus, sem grandes pretensões, até que um dia encontrei com ele, e ele disse: “Olha, vai acontecer, hein! Tenho a banda, vamos gravar. Você quer produzir?” E eu disse: “Eu topo, vamos lá.”
Fui pra São Paulo com eles para gravar num estúdio da RCA, com absolutamente total liberdade — como foi o caso da Legião, mas nesse caso ainda mais, porque era totalmente descontrolado. Nem foi a gravadora que bancou, foi o empresário que eles tinham na época, o Toninho — não vou lembrar o sobrenome — que conseguiu o estúdio da RCA. Um excelente estúdio onde, pouco antes, a Gang 90 tinha gravado.
Era para a RGE, um selo que depois foi absorvido pela Som Livre. Então foi uma ultra farra. Ninguém sabia exatamente o que estava fazendo, ou como ia conseguir o som que queria. Os técnicos do estúdio eram super bacanas e ficavam digerindo e traduzindo tudo o que a gente falava com eles.
No caso da Legião já era bem diferente. Eu já tinha essa pequena experiência com o Camisa, já tinha adquirido um pouco mais de conhecimento, e sabia um pouco mais do que era requerido de um produtor. Eu era, como escrevi no livro, um palpiteiro, animador de torcida, psicólogo, pai, mãe — tudo isso ao mesmo tempo. Porque eu não tinha a formação musical de pegar um instrumento e dizer “faz isso” ou “faz aquilo”. Eu não tinha o conhecimento técnico de dizer: “Agora bota isso virado pra cá”
Eu ouvia e tentava buscar o som que queria encontrar. Então, a minha formação, meu ouvido e a minha estrada de ficar ouvindo coisas por anos, foi o que me propiciou fazer o disco da Legião com mais segurança do que no caso do Camisa de Vênus.
E, olhando em retrospecto, o que essas duas experiências te ensinaram? O que mudou na sua forma de atuar na produção musical depois delas?
Depois eu fiz só mais outros dois: o primeiro disco dos Picassos Falsos e o primeiro disco solo da May East, que era do Gang 90 — por coincidência. Depois eu me mudei para os Estados Unidos e não trabalhei mais com produção de discos. Fiquei mais concentrado na área jornalística.
Você comentou muito sobre as tensões na relação com o Marcelo Bonfá, especialmente nos bastidores da Legião.
O próprio Bonfá já mencionou que ele e o baixista Negrete eram amigos, mas não exatamente entrosados musicalmente — segundo ele, os grooves e andamentos do Negrete não se alinhavam à sua escola rítmica, com uso mais intenso de notas, o que dificultava uma 'cozinha' mais coesa.
Queria te ouvir mais sobre isso: qual era sua visão sobre o papel do Negrete naquela formação inicial?
Como você sabe, quando eu cheguei, o Negrete já estava lá. Quando conheci a Legião, era um trio — e quando cheguei, já era um quarteto. A contribuição dele para aquele disco da Legião foi primorosa, foi um trabalho muito melódico.
Ele era um cara que trazia referências muito diferentes das da Legião como um todo. Referências adicionais ao que eles já ouviam. Mas, ao mesmo tempo, um cara como o Dado adorava Chic, o Nile Rodgers. E o Negrete acrescentou um groove que não existia ainda na Legião, um sincopado que não estava lá.
O desentendimento com o Bonfá foi algo que eu não vi acontecer. Foi algo que o Bonfá me contou depois, quando conversei com ele para fazer o livro. Então eu não vi esse embate entre eles.
A própria Fernanda diz no livro que ela acreditava que a entrada do Negrete foi importantíssima para transformar a Legião numa banda maior do que já era. Ele trouxe ingredientes rítmicos, um swing que ainda não existia — e aquilo fez a maior diferença, especialmente naquele momento no estúdio onde eles passaram a gravar. Eles aprenderam a ser uma Legião que antes não eram.
Aproveitando para tirar uma dúvida de bastidor: em “Ainda É Cedo”, sabemos que foi o Renato quem gravou o baixo por não conseguir extrair o clima que queria com o Negrete. Mas na versão reggae da mesma faixa, quem toca o baixo é o próprio Negrete? Acredito que sim, até porque não foi falando mas pergunto porque a sonoridade ali parece destoar bastante do estilo dele no restante do disco, mais contida.
Foi o Negrete tocando, sim. Inclusive o Negrete foi um cara que ajudou a “entortar” um pouco algumas músicas como “A Dança”. Ele começou a fazer improvisos no final da música, e a gente ficava mexendo no Ecoflex para dar intervalos diferentes de ecos e efeitos. Esses improvisos fizeram toda a diferença na música, deixando-a mais viajante, bem doida.
Após sua experiência dirigindo o longa “1972”, que marcou sua estreia na direção de ficção no cinema, gostaria de saber: você tem planos de voltar a dirigir filmes?
Como foi, para você, a transição da linguagem dos videoclipes para o formato de um longa-metragem?
Foi a coisa mais difícil que eu já fiz na vida, disparado: fazer um filme. Porque, se você usar videoclipe como ponto de partida, é como fazer uma corrida de 100 metros; já fazer um longa-metragem é como uma ultramaratona. É algo que exige de você uma concentração, uma força de vontade, uma energia — um nível de energia muito constante. Realmente, é algo muito difícil de fazer.
Naturalmente tive planos e desejos de fazer outros filmes — e por pouco não aconteceu um outro, que era um filme policial, totalmente diferente da comédia romântica que foi “1972”. Mas a vida foi seguindo, outras oportunidades não surgiram. E, ironicamente, hoje em dia sou sócio de um estúdio de animação e computação gráfica. Um de nossos trabalhos é desenvolver um longa de animação — ou seja, aquilo que aconteceu lá atrás, em 2001 ou 2002, quando o filme ficou pronto... agora, quase 30 anos depois, a coisa pode acontecer de novo.







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