Ainda não decidi qual é a minha ideia de Céu — e talvez nunca decida. Mas se me fosse dado sonhar, por ora, ele viria em preto e branco. Não por nostalgia, mas por estética: aquele contraste absoluto entre luz e sombra que só existe nos filmes antigos. Um mundo onde a verdade é dita com olhares, e não com frases longas demais.
Imagino-me chegando ali, um tanto perdido, talvez tropeçando na minha própria reverência. Quem me receberia? Ainda não sei — talvez Anita Ekberg, descalça na Fontana di Trevi, estendendo a mão molhada e sussurrando algo dublado em italiano. Ou Gene Tierney, com seus olhos que parecem guardar um segredo triste, mas não urgente.No fundo do salão — um clube esfumaçado que existe entre as décadas de 40 e 50 — Humphrey Bogart segura um copo de bourbon como se segurasse o próprio tempo. Dashiell Hammett acena, meio irônico, como quem diz “demorou, mas chegou”. Eu sorrio. Fred MacMurray se junta a nós com aquele ar casual de quem já vendeu apólices demais para confiar em finais felizes. As luzes se apagam, não como prelúdio ao mistério, mas porque até o paraíso sabe a hora certa de criar um bom clima.
O ambiente vai se transformando, como num raccord bem feito: o glamour se derrama aos poucos, feito champanhe em taça larga. Lana Turner encosta no balcão. Rita Hayworth desliza as mãos enluvadas com uma confiança contida, como quem sabe que o mistério está nos detalhes que quase não se mostram. Mary Pickford conversa com Ingrid Bergman num idioma que não é deste mundo — talvez sueco, talvez celestial.
Brando está lá também, encostado no piano, de camisa branca amarrotada. Mas não é a sua presença que me desequilibra. São os olhos dela: Audrey Hepburn, num vestido preto que desafia a gravidade e a lógica. Ela me olha como se esperasse por mim desde Bonequinha de Luxo. E aceita a dança. A música muda o ritmo — clichê dos bons — e de repente só existimos nós, como Richard Beymer e Natalie Wood na beira do ginásio.
Mas quem sabe o Céu também pode ser colorido. Um technicolor saturado como num musical de verão. Franja na testa, lápis nos olhos, a revolução estampada em minissaias. Uma Swinging London feita de vozes finas e passos firmes: Vanessa Redgrave, Sarah Miles, Jane Birkin, Brigitte Bardot. Talvez, quem sabe... mas não me convence ainda. O preto e branco soa mais seguro, mais imortal.No fim, o Céu talvez não seja lugar algum. Talvez seja projeção. Um rolo de filme que nunca se rebobina, um salão onde ninguém envelhece, uma trilha sonora que não cansa. Um lugar mutável como o cinema — que muda a cada nova sessão, mas continua sendo, acima de tudo, o mesmo refúgio escuro onde sentamos em silêncio esperando que alguma coisa nos salve.
De qualquer forma, seria o Céu.




Nenhum comentário:
Postar um comentário