Kleber Mendonça Filho nunca escondeu seu encanto pelo cinema dos Estados Unidos e sempre teve plena liberdade para admitir as referências que o moldaram. Em Bacurau, a relação com o cinema de John Carpenter era clara — a sitiação, o faroeste contemporâneo, o gênero como ferramenta política. O filme se inicia numa longa cena com um que de Hitchcock alem do Tubarão, de Steven Spielberg, talvez o melhor exemplo de cinema construído no suspense quase que de forma mecânica, pelo ritmo, pela montagem, pelo que o filme decide sugerir em vez de mostrar.
A citação a Tubarão não é apenas uma referência estilística. Kleber usa quase como uma noção de cinema, uma expectativa de terror que o público imediatamente identifica — aquele suspense simples, meticulosamente elaborado, que o cinema comercial aprendeu a criar com grande eficácia. Em outro momento o filme faz alusão ao Trash de maneira que poderá causar estranhamento ao expectador mais casual, mas de certa forma Bacurau já antecipa nessa mescla de gêneros que o Diretor passou a adotar.
Mas Agente Secreto é um filme brasileiro, o que muda bastante a situação. Se o tubarão americano habita o império do entretenimento — um monstro exterior, irracional, que ataca por instinto —, o tubarão de verdade que aparece na história carrega algo muito mais perturbador: nele há uma perna humana, um resto, um fragmento que sugere uma violência menos evidente, mas profundamente arraigada. O terror que o cinema estrangeiro oferece é um medo estruturado, reconhecível e passível de exportação; o terror nacional é um medo sem qualquer tipo de espetáculo, ligado à eliminação de provas, à destruição de arquivos, ao que precisa desaparecer para que a ordem se mantenha operante. Temos o contraste entre um monstro criado que gera certo fascínio, enquanto um verdadeiro monstro expõe.
Essa tensão entre o fascínio do cinema e o esquecimento da história permeia todo o filme. Kleber dirige com uma narrativa clara, embora as vezes de exceda, o que abordarei mais pra frente e um ritmo de thriller, permitindo uma conversa franca com um cinema internacional que é popular e vibrante. Contudo, ele está sempre ciente de que, no Brasil, a maior incógnita não é saber “quem fez”, mas sim compreender por que raramente se chega a uma resposta. Agente Secreto é um filme de uma forma simples, mas de um conteúdo inquietante. Ele honra a tradição do cinema de gênero, mas também desafia a noção de que nossos próprios monstros agem como os monstros dos filmes americanos.
Essa combinação coloca Agente Secreto em uma posição privilegiada para replicar, nos palcos internacionais, o recente êxito de Ainda Estou Aqui. Depois de Cannes, o filme já surge com chances claras para o Globo de Ouro e o Oscar, embora por caminhos diferentes. Depois de meses de espera e expectativa alta, tanto pelas vitórias e críticas positivas em Cannes quanto por aqueles que já conhecem o cinema de Kleber Mendonça, que vai além de seus longas-metragens e inclui curtas-metragens brilhantes, Agente Secreto finalmente estreia nos cinemas brasileiros.
Ao contrário de Se Ainda Estou Aqui, que se destacava como um filme pop em sua melhor forma — emocionalmente direto, comunicativo e capaz de atingir grandes públicos sem intermediários —, Agente Secreto demanda mais do espectador comum, que pode achar que há muitos "tempos mortos" em cenas que, na verdade, exigem uma reflexão mais profunda. Ela é mais segmentada, mais conflituosa e mais orientada para a acumulação de significados do que para permitir uma identificação imediata.
Certamente, tal como ocorreu com Ainda Estou Aqui, o filme poderá enfrentar resistência e críticas por parte da direita, mas isso já não diz respeito ao cinema: trata-se do antigo dilema dos “patriotas” que odeiam a pátria. Kleber e toda uma geração foram educados com o cinema americano e se tornaram cineastas por causa dele; o que acontece é que no Brasil há pessoas que confundem cinefilia com subserviência cultural e que foram do encantamento a querer ser gringo e não conseguem enxergar o próprio país sem menosprezá-lo. E se o filme chegar ao Oscar pode preparar-se pros ataques pois ai ele vai atingir uma parcela da população que quando assiste cinema Nacional quase que se limita as comedias da Globo Filme. Um publico que certamente ira assistir ao filme procurando pelo tal "Agente Secreto" e se frustrará ao não entender por que o filme tem esse nome pois não possuem bagagem cinematográfica que a ironia exige e infelizmente nem se esforçara a entender pois só buscam o "entretenimento" fácil.
O fato é que trato desse assunto com um motivo muito particular. Expectativa alta, escrevi, sem muitos rodeios, no início de 2025, muito antes da estreia de Agente Secreto em Cannes, quando publiquei o pôster do filme. Não levou nem cinco minutos para que a resposta viesse: um comentário surgiu dizendo que o Brasil só faz filme sobre ditadura ou sobre favela. Fiquei intrigado, uma vez que o longa ainda não havia sido lançado e, naquele momento, ninguém sabia exatamente do que se tratava. Eu disse exatamente isso: que não tinha como saber qual era o tema, apenas que a história se passava nos anos 1970 e que, nesse aspecto, a ditadura provavelmente estaria presente de alguma forma — direta ou indireta —, mas que não era possível afirmar que se tratava de um filme “sobre a ditadura”.
Todavia, ficou a sensação de que a recusa já havia sido decidida antes mesmo de começar. Antes mesmo de qualquer imagem ou cena aparecer, já era claro, em certos círculos, que haveria uma predisposição imediata para condenar o filme e já estavam criando "conteudo" para o ataque. Eu meio que avesso às redes sociais e que evito comentários de YouTube quase sempre demoro pra entender que o pensamento não é o da pessoa mas do que fazem ela pensar que é . Aquelas pessoas que adoram debater "narrativas" sem perceber o quanto são manipulados. Ou seja, não confie em quem diz "São Narrativas".
“Agente Secreto” sem dúvida dará origem a uma série inteira de vídeos de youtubers autoproclamados “críticos”, todos bastante dedicados a afirmar que o filme é “ideológico” — antes mesmo de explicar do que se trata. Depois, seguindo o protocolo habitual, assegurarão que não possuem uma visão ideológica e que realizarão uma análise “isenta”, sem se dar conta da contradição presente nessa afirmação, que, por sua natureza, já representa uma posição ideológica. A "Esquerda" também ajuda nisso já que não tenha duvidas que adotara o filme com a mesma força que a "Direita" a repelirá. Mas aqui quando uso esquerda e direita estou me referindo aos extremos que fazem barulho.
Essas mesmas pessoas foram manipuladas a afirmar, com a confiança característica de quem nunca presenciou uma exibição do cinema nacional, que o Brasil “só faz filme de favela e de ditadura”, mesmo sem ter visto nem uma fração da produção cinematográfica do país. Para essas pessoas, o cinema brasileiro só é válido como um espantalho retórico, um recurso para justificar opiniões previamente estabelecidas.
O mais irônico é que, ao contrário do que esses discursos previsíveis sugerem, “Agente Secreto” não fala sobre ditadura — fala sobre o presente. Mas, como tudo que toca as estruturas de poder, a vigilância e o controle, rapidamente será classificado como “política” por quem não quiser pensar muito a respeito, e será colocado na mesma caixinha de sempre, onde a crítica é trocada pelo incômodo e esse incômodo é logo rotulado para ser ignorado.
Num dialogo do filme, é mencionado que os culpados um dia vão pagar. A resposta que se segue não é raiva, nem ironia, mas incredulidade. O Brasil decidiu perdoar suas próprias atrocidades antes mesmo de reconhecê-las, criando assim uma nação que se dá o direito de ignorar seu passado, relativizar a ditadura e ressuscitar fantasmas ideológicos conforme suas conveniências. O comunismo ressurge como uma ameaça difusa, um barulho útil, repetido de forma surpreendentemente eficaz, depois de décadas de experiências reais que nunca confirmaram essa ilusão. Sem memória, a mentira se torna tradição.
Ambientado no final da década de 1970, quando o país se preparava para uma transição controlada, Agente Secreto mostra um momento em que a violência não desaparece, apenas se move. Existem agentes que foram oficialmente afastados, enquanto outros continuam a operar nas sombras, agora como freelancers ou assassinos informais, sendo remanescentes de um Estado que simula uma reestruturação sem assumir suas verdadeiras responsabilidades. Repressão pode deixar de se vestir com farda, mas seu modus operandi é o mesmo.
É nesse contexto que o filme traz uma das suas representações mais discretas e poderosas: o sangue. Ao longo da história, ele aparece ligado à mutilação, à violência e a um período de descarte de corpos. Em outra era, o sangue retorna com um novo significado, atrelado à preservação da vida, ao cuidado e à possibilidade de perpetuação. Não há redenção nem um fechamento simbólico satisfatório, apenas um deslocamento: o que antes representava a morte agora carrega a ideia de reparação possível — jamais completa, jamais definitiva.
Kleber Mendonça também se permite fazer uma crítica contundente à forma como o país lida com a informação. O filme, ao aludir a uma antiga farsa jornalística destinada a preencher páginas em branco, estabelece um paralelo inquietante com a contemporaneidade. Em tempos passados, era preciso inventar monstros para se vender jornais; hoje, basta repetir mentiras convenientes até que se tornem indiscutíveis. A diferença é que hoje até os mais sensatos preferem se apegar à ilusão a encarar a realidade.
Agente Secreto não é o melhor filme do Kleber. Ainda prefiro "O Som ao Redor" e "Bacurau" mas isso não é demérito nenhum dado a qualidade dos longas citados. Kleber insiste em ser prolixo demais e algumas passagens do filme deixa a sutileza de lado para dar alguma "palestrinha". Não precisava. Assim como Tarantino que se perdeu um pouco no excesso em confiança da sua genialidade necessita de um Montador que saiba controla-lo. Enquanto Sally Menke era seu braço direito, depois de sua morte não encontrou ninguém disposto a contraria-lo. Kleber tambem necessita Montadores dispostos a mostrar seus excessos. A parte entre as duas garotas ouvindo as fitas poderia ser totalmente eliminada. Só serve para explicar ao expectador o que esta acontecendo. Poderia muito bem cortar para o final sem a necessidade do dialogo delas com o Medico.
Kleber com certeza sabe que como todo grande filme político, dar explicações demais é uma forma de quebrar a tensão, mesmo que em algumas passagens ele se esquece disso. Apesar de suas falhas ainda é um grande filme, muito acima da media e que precisa ser revisto mais vezes. O publico comum com certeza não o fará mas o Cinefilo com certeza sim. O filme cresce quando ele usa o cinema de gênero e uma cinefilia ostensiva para apontar que, no Brasil, o verdadeiro horror não vem das entranhas do mar ou do cinema, mas do que uma nação se recusa a lembrar — e que, por isso mesmo, insiste em voltar. Mas quem não entende e espera pelo Agente Secreto com certeza se decepcionará.

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