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terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Dylan Dog

Setembro de 1991, mês em que completei 16 anos. Lá estava eu, um adolescente já declarado fã de filmes de terror, desses que visitavam locadoras como se fosse um ritual sagrado. Ao passar por uma banca, notei uma revista com a capa destacando, em letras bem visíveis, "Jack, o Estripador".
Naquela época, o nome carregava um significado pessoal. Em 1991, apenas dois anos haviam se passado desde que assisti a um Globo Repórter transmitido em comemoração ao centenário dos crimes do assassino londrino, ocorrido em 1889 — um programa que, por sinal, me impressionou mais do que seria esperado para alguém da minha idade. 

Como qualquer adolescente comum da época em que o gênero estava no auge, eu nutria um interesse bastante saudável — ou não — por histórias de terror. O VHS havia dominado os lares, as locadoras proliferavam nos bairros e uma capa atraente era suficiente para prometer noites de insônia. O terror era barato, fácil de encontrar e estava em todo lugar, e eu estava totalmente imerso nisso.

Adquiri a revista. O nome era Dylan Dog. Era em preto e branco, o que, a princípio, não me entusiasmou muito — parecia muito antigo para alguém habituado às cores vibrantes das capas de vídeo e dos gibis americanos. Fui atraído principalmente pelo tema, não pelo personagem em si, sobre o qual eu não tinha a menor ideia do que se tratava. Não tinha ideia de quem Dylan Dog era, de onde vinha ou por que estava se envolvendo com Jack, o Estripador. Porém, algo ali prometia um tipo diferente de horror — e isso, aos 16 anos, já era mais do que o bastante.

Foi amor à primeira vista. Ou à primeira leitura — que assim seja. Eu esperava adquirir uma narrativa ambientada na Londres de Jack, o Estripador, mas acabei encontrando o Detetive dos Pesadelos, na segunda edição do personagem publicada no Brasil. A primeira, referente a agosto, já não estava disponível. Naquele período, quando uma nova edição chegava, as anteriores simplesmente sumiam da banca, como se nunca tivessem estado lá. 

Passadas algumas semanas, foi lançada a terceira edição, agora com um lobisomem na capa, evidenciando que não se tratava de um incidente isolado. Dylan Dog não estava apenas de passagem; ele tinha vindo para se estabelecer na minha vida (ao contrário das bancas na época).

Como já mencionei — e provavelmente farei isso novamente —, filmes de terror foram uma das minhas  paixões durante a adolescência. Uma paixão que vinha se desenvolvendo desde o final da infância, mas que, no início dos anos 1990, já estava em seu auge. Era a época em que tudo favorecia: VHS, locadoras de bairro, capas chamativas, sessões proibidas para menores e uma sensação constante de que o terror era um território a ser explorado.

Nesse cenário, Dylan Dog surgia como o chamariz perfeito para os quadrinhos da Bonelli. . Mistério, horror, assassinos históricos, monstros clássicos — tudo embalado num formato que parecia feito sob medida para alguém como eu. Não se tratava apenas de mais um gibi de terror; era uma espécie de síntese daquele fascínio juvenil, agora expresso em páginas em preto e branco que, de forma curiosa, começaram a fazer todo o sentido. Já compartilhei minha experiência com a Bonelli anteriormente nestelink.

Se o terror por um lado ja me atraía , o texto de Tiziano Sclavi parecia distinto de tudo que eu já havia conhecido. Não recordava exatamente os filmes que assistia nas locadoras, nem as revistas clássicas de terror que circulavam por aqui, como os contos da Cripta. Havia algo ali que ia além do susto fácil, da estrutura previsível e do prazer imediato do medo. Atualmente, com um conhecimento mais aprofundado sobre o horror italiano, sou capaz de reconhecer influências, ecos e referências. Naquele momento, no entanto, aquilo me parecia apenas novo — e, para mim, totalmente inédito.

Sclavi não é genial por ter inventado a roda, mas por saber exatamente como reuni-la com tantas outras. Ele sintetiza uma variedade de influências literárias, cinematográficas e culturais e as transforma em algo profundamente autoral. E, como bons italianos, os Gialli são a principal referência. Dylan Dog não parecia uma cópia de nada em particular; parecia um universo próprio, peculiar, ora melancólico, ora irônico, geralmente mais inclinado a causar desconforto do que medo.

Continuei adquirindo as edições mensalmente até que, em determinado momento, vivi uma dessas pequenas conquistas pessoais que só fazem sentido para quem cresceu frequentando bancas e sebos: encontrei, enfim, a tão cobiçada edição número 1. Aconteceu em um sebo de Bauru. Ah, os sebos de antigamente — quando o valor de uma revista nova na banca permitia facilmente comprar três ou quatro usadas, e a busca fazia parte da experiência. Não se tratava apenas de comprar; envolvia garimpar, folhear, negociar e sair com a sensação de ter conquistado algo.

É a partir dessa trajetória pessoal que esta matéria se organiza. Neste ponto, o objetivo é explorar as edições de Dylan Dog lançadas no Brasil até o momento, uma trajetória caracterizada por várias editoras, interrupções e retornos nem sempre muito divulgados. A publicação do personagem por aqui sempre foi irregular, embora isso não constitua exatamente um problema narrativo: para a Bonelli, a ordem cronológica nunca foi uma prioridade, e isso raramente afeta a leitura. Em contrapartida, torna mais difícil para aqueles que apreciam acompanhar as fases, evoluções e mudanças de tom — que são, de fato, uma parte essencial da complexidade do personagem.

QUEM AFINAL É DYLAN DOG ?

Como mencionado anteriormente, Dylan Dog é o Detetive do Pesadelo. As histórias do personagem têm início em 1986, quando foi criado por Tiziano Sclavi para a Bonelli. A trama se passa em uma Londres que pode nunca ter existido, mas que serve como um cenário ideal para fantasmas, neuroses e chá frio.

Como muitos personagens da Bonelli, sua aparência é baseada em um ator real, o inglês Rupert Everett, que, na época, se destacava em algumas produções europeias, incluindo as italianas.

Dylan, ex-policial e alcoólatra em recuperação — ou, pelo menos, em constante esforço — deixa a corporação principalmente devido ao álcool e começa a ganhar a vida investigando fenômenos paranormais. Reside em Londres, na Craven Road, número 7, local que aparenta existir apenas para corroborar a noção de que nada ali é realmente comum. Seu carro é um fusca simpático com a sugestiva placa DY666. Por último, Divide o espaço com Groucho, seu assistente de humor incessante, cuja aparência é inspirada no comediante Groucho Marx. Ele é encarregado de comentar o horror alheio com piadas de gosto questionável e timing impecável. 

Uma das piadas constantes da história é que Groucho sempre aparece e oferece a Dylan uma arma nos momentos em que ele mais necessita.

Além disso, mantém uma atitude abertamente hostil em relação à tecnologia moderna, optando por métodos antigos, como discos de vinil, máquinas de escrever e qualquer coisa que demande mais esforço do que eficiência. Ainda que as etapas mais recentes da série apresentem recursos tecnológicos, estes aparecem como concessões relutantes, aceitas mais por cansaço do que por convicção — um aspecto da personalidade que ajuda a entender por que Dylan parece sempre emocionalmente acessível, mesmo sem demonstrar disposição para aprender com as experiências.

Em quase todas as histórias, Dylan acaba se envolvendo romanticamente com alguma cliente, o que leva à conclusão de que a Londres da série é povoada por mulheres incrivelmente cativantes. É importante ressaltar que isso não o torna um canalha machista: Dylan não conquista, ele se rende. Apaixona-se com a mesma facilidade com que inicia um novo relacionamento, sempre de maneira genuína. Seu único infortúnio é de natureza narrativa: essas mulheres raramente retornam na edição seguinte, permitindo que ele se apaixone novamente, como se o problema nunca tivesse sido dele. Como resultado, há uma sequência quase estatística de relacionamentos amorosos. Levando em conta que a série já passou de 300 edições na Itália, é justo dizer que Dylan Dog pode ser um dos maiores — se não o maior — “pegador” da história dos quadrinhos, mesmo que raramente saia dessas relações sem feridas emocionais ou de outra natureza.

O time é completado pelo inspetor Bloch, antigo superior de Dylan na Scotland Yard e figura paterna devido às circunstâncias. Apesar de não levar a sério o trabalho do antigo pupilo, Bloch acaba cedendo sempre que se depara com casos que não se encaixam nos relatórios oficiais. Isso resulta, invariavelmente, na convocação de Dylan para resolver o inexplicável e, de quebra, evitar mais um aperto burocrático.

A primeira história já mostra Dylan atuando como detetive do pesadelo, completamente eficiente em meio ao caos. No entanto, seu passado como policial e suas dificuldades com o álcool são gradualmente revelados, quase de forma cautelosa, nas edições subsequentes, assim como outros aspectos de sua vida pessoal — como sua mãe — que aparecem conforme o tema em questão permite ou demanda. Não existe uma edição original que disponha tudo de maneira cronológica: o passado de Dylan surge de forma dispersa, por vezes contraditória, como se ele mesmo preferisse não ter todas as informações concentradas em um único local.

Embora alguns personagens apareçam, desapareçam e retornem em certas histórias, o núcleo da série continua sendo o mesmo — o que nos conduz diretamente ao estilo das narrativas. A natureza não linear do personagem proporciona total liberdade aos escritores: Dylan Dog pode morrer, enlouquecer ou ter um desfecho definitivo em uma trama e, mesmo assim, na edição seguinte, ele está de volta em seu estúdio, concentrado em montar um navio dentro de uma garrafa.

Trata-se de um projeto, a propósito, fadado ao fracasso. Dylan nunca termina, pois Groucho sempre o interrompe, dizendo que há um cliente aguardando. O ciclo se repete com a serenidade de quem incorpora o absurdo à rotina — um gesto cotidiano que ilustra a lógica interna da série: o horror pode ser definitivo, mas o expediente recomeça na edição seguinte.

Dylan Dog alcançou sucesso editorial instantaneamente. Em 1987, foi realizado na Itália um festival de terror em homenagem ao personagem, o Dylan Dog Horror Fest. O evento, que teve quatro edições, recebeu importantes nomes do cinema de horror, como Bruce Campbell e Robert Englund. Dylan Dog, no auge de sua popularidade, chegou a vender mais do que Tex e Tutto Tex juntos. Essa afirmação não é exagero nem entusiasmo de fã: é uma declaração do próprio Tiziano Sclavi em Almanacco del Terrore, um dos diversos especiais lançados ao longo da trajetória da série.

Além da edição regular, Dylan Dog começou a ter várias edições paralelas. Dentre elas, o Speciale, publicação anual que continua sendo lançada na Itália e já conta com 38 edições — incluindo Il pianeta dei morti, que será discutido posteriormente, como parte dessa coleção. Também foram publicados o Almanacco della Paura, com 24 edições na Itália, e o Dylan Dog Gigante, que teve 22 edições italianas e foi descontinuado em 2013.

Mais adiante, quando abordarmos especificamente os lançamentos brasileiros e a correspondência com as edições italianas originais, discutiremos esses títulos, suas características editoriais e a maneira como foram publicados no Brasil, incluindo as variações na numeração, periodicidade e critérios de seleção.

EIS O BRASIL


A Editora Record apresentou Dylan Dog ao público brasileiro em 1991, cinco anos após sua criação, em uma série que teve duração inferior a um ano. As 11 primeiras edições do original italiano foram traduzidas. No entanto, a breve duração não deve ser interpretada como um fracasso editorial do personagem.

O ano de 1991 foi especialmente difícil para o mercado editorial brasileiro, durante o auge da crise econômica causada pelo Plano Collor. As revistas chegavam às bancas com preços já defasados pela inflação, como se tivessem sofrido um pequeno atraso administrativo antes de serem disponibilizadas para leitura. Todas as séries publicadas pela Record na época foram canceladas — algumas antes, outras depois — em meio a uma retração generalizada do setor, que se assemelhou mais a uma evacuação ordenada do que a uma resposta direta do público.

Não existem dados exatos de vendas disponíveis, mas é importante ressaltar que era um período em que 30 mil cópias vendidas já poderiam ser consideradas um fracasso editorial. Atualmente, esse mesmo número seria considerado um sucesso estrondoso, merecedor de discursos e congratulações, especialmente em um mercado onde muitas editoras operam com tiragens abaixo de 3 mil exemplares — um luxo quase obsceno para os padrões atuais, tratado com a reverência que antes era reservada apenas aos grandes best-sellers.

Em janeiro de 1992, enquanto a série regular ainda estava sendo publicada, a Record lançou nas bancas uma edição especial de Dylan Dog e Martin Mystère, apresentando o primeiro crossover entre os dois personagens da Bonelli. A história "Ultima fermata: l’incubo" (Última Parada: Pesadelo) é considerada leitura essencial e causa estranheza o fato de ainda não ter sido republicada por nenhuma editora — um mistério menor, porém totalmente compatível com o universo do personagem.

Depois de encerrar a série, a Record lançou em 1993, de forma discreta e no formato de revista, a edição especial Incubus. Embora pareça um spin-off, essa edição faz parte da série regular italiana. Trata-se de uma edição rara, aparentemente de tiragem limitada, que teve pouca repercussão e uma distribuição igualmente discreta no período. Anos depois, a Mythos a republicou — novamente sem grande anúncio — no número 35 da série regular que ainda mantém em catálogo. Como se Incubus estivesse condenado a existir sempre em tom baixo, quase pedindo desculpas por estar ali, o título da história não aparece na capa, pois é um relato curto dividido com “O ultimo uomo della Terra” (O Último Homem da Terra).

Em 2016, Incubus recebeu uma edição pirata, publicada pelo fanzine Replicoide, que tinha como objetivo "replicar" edições mais cults e de difícil acesso. Esse ato editorial, ilegal mas compreensível, foi realizado com a seriedade quase institucional de quem acredita estar realizando um serviço público.

Ainda em 1993, a Editora Globo, que estava em fase de experimentação e buscando diversificar seus títulos de quadrinhos, lançou o especial Fumetti, outra edição rara no formato magazine. A publicação reunia histórias curtas coloridas de Tex, Martin Mystère, Mister No, Nathan Never, Nick Raider e, naturalmente, Dylan Dog.

Para o Detetive do Pesadelo, foi lançada "O inquilino do terceiro andar", uma narrativa que foi publicada pela primeira vez na Itália na revista Comic Art e que estabelece uma conexão direta com O Inquilino, filme de Roman Polanski — um clássico do cinema que, assim como a história em quadrinhos, aborda a paranoia de maneira totalmente funcional.

Esse especial Fumetti marcou o fim da presença de Dylan Dog no mercado brasileiro durante a década de 1990, apesar de ainda haver sete anos até o final do século XX. Durante esse período, o personagem ficou ausente, como se ninguém tivesse percebido sua existência.


Avançamos agora para outubro de 2001, período em que a Editora Conrad reintroduziu Dylan Dog ao Brasil. Trata-se de uma série breve, porém relevante, composta por seis importantes narrativas, desta vez sem qualquer compromisso com a sequência cronológica. A serie Dylan Dog da Conrad incluía  alguns momentos significativos do personagem, como “Johnny Freak”, “Morgana”, “Memórias do Invisível”, “Depois da Meia-Noite”, “O Retorno do Monstro” e “Os Mortos-Vivos”. As duas últimas já haviam sido publicadas anteriormente pela Record. Mais tarde, a editora reuniu os exemplares encalhados em uma caixa contendo as seis edições.

As capas feitas por Mike Mignola, inicialmente desenvolvidas para a publicação das histórias nos Estados Unidos como introdução da série naquele mercado, foram o principal destaque dessa coleção. Levando em consideração o histórico de Hellboy com crossovers — alguns mais criativos que outros — e o fato de que a Bonelli já se aventurou recentemente em colaborações com a DC Comics, um possível encontro entre os universos de Hellboy e Dylan Dog não só seria viável, como poderia se beneficiar ao evitar o modelo convencional de super-heróis, focando mais na peculiaridade europeia do que no entusiasmo característico das convenções americanas.

Aqui, ao menos, seria um encontro que não seria constrangedor — e que, se tudo der certo, evitaria capas brilhantes e discursos heróicos excessivamente autoconfiantes.

No entanto, somente quatro meses após a Conrad concluir a série, a Mythos deu início à publicação do personagem na hoje conhecida Mythos 1a serie. Na edição inaugural, publicada em agosto de 2022, foi escolhido o número 100 da série italiana, “A História de Dylan Dog” — uma escolha digna, apesar de o título indicar algo mais introdutório do que a narrativa realmente proporciona, sendo mais adequado para leitores já conhecidos do personagem do que para novatos. A série da Mythos não foi publicada em ordem cronológica e teve 40 edições, sendo finalizada em fevereiro de 2016.

Nesse período, Dylan também participou da série Tex e os Aventureiros, que, assim como o especial Fumetti da Editora Globo, apresentava histórias curtas com personagens da Bonelli — desta vez com Zagor ocupando o lugar anteriormente destinado a Nathan Never. Cinco edições regulares e uma edição especial foram publicadas. Essa Ediçao especial apresentou o segundo encontro com Martin Mystère, intitulado "O Fim do Mundo". Essa história foi lançada originalmente em 1992 e demonstra que, no universo Bonelli, o apocalipse tende a ser frequente, mas raramente definitivo.

OUTRA PAUSA, COMO DE COSTUME


Dylan Dog ficaria esquecido no Brasil por mais 11 anos até que a Editora Lorentz decidisse reeditá-lo em três volumes na nova revista Dylan Dog. A primeira delas trouxe "Retorno ao Crepúsculo", sequência direta de "A Zona do Crepúsculo", enredo que foi publicado originalmente pela Record. Ambas foram lançadas recentemente em um encadernado de capa dura e colorido pela Panini, representando um desses raros momentos em que o passado é reorganizado de forma eficiente.

"Mater Morbi", a terceira e ultima edição publicada pela Lorentz, recebeu um prêmio no The Ghastly Awards de 2016 e foi considerada a melhor história de Dylan Dog dos últimos 20 anos. Por coincidência — ou talvez como parte da lógica errática do mercado — também foi lançada uma edição de luxo, desta vez publicada pela Mythos.


Quando parecia certo que a Lorentz prosseguiria com a série, a Mythos — que durante anos mostrou um desinteresse quase sistemático pelo personagem — decidiu, de maneira surpreendente, licenciar novamente Dylan Dog, exatamente após o êxito dessa breve retomada. O movimento provocou um leve, mas perceptível, desconforto editorial.

Curiosamente, não era a primeira vez que isso ocorria: a mesma Mythos já tinha começado a publicar o personagem em 2002, imediatamente após o término da breve passagem pela Conrad. A frequência do gesto indica menos acaso e mais um saudável senso de oportunidade. De qualquer forma, o resultado final foi positivo para o leitor brasileiro: Dylan Dog estava novamente disponível, embora sempre um pouco depois do esforço alheio.

Dylan Dog 2a Serie pela Mythos teve a primeira edição, lançada em março de 2018, trouxe a excelente “Horror Paradise”. Mais uma vez publicada fora de ordem, a série passou, a partir de determinado ponto, a priorizar histórias da chamada fase de ouro do personagem — aproximadamente as cem primeiras edições italianas — recuperando episódios inéditos desse período que não haviam sido publicados nem pela Record nem pela própria Mythos em sua primeira série.

Essa nova fase não segue periodicidade mensal e permanece em publicação até hoje, já tendo ultrapassado a edição 40. Trata-se, até o momento, da mais longa sequência de publicações ininterruptas de Dylan Dog no Brasil — um feito relevante para um personagem que, historicamente, nunca teve grande vocação para a regularidade editorial.

A NOVA SÉRIE, VERSÃO DEFINITIVA PROVISÓRIA  


Simultaneamente a essa série, a Mythos lançou uma publicação adicional chamada Dylan Dog – Nova Série, ainda em 2018. Embora tenha um nome que sugira o contrário, não se trata de um título italiano inédito, mas de histórias que foram publicadas na Itália a partir do número 338, lançado em 2014. Nesta ocasião, elas estão organizadas de forma cronológica a partir desse ponto. A capa faz uma homenagem direta à famosa "Homem-Aranha Nunca Mais", da Marvel — uma referência curiosa e claramente explícita.

A escolha do título se justifica por uma razão prática. Dylan Dog passou por uma reformulação na Itália em 2014, com suas histórias incorporando aspectos mais atuais, como o uso de celulares, redes sociais e outras características da vida moderna. A partir desse ponto, as histórias começaram a indicar uma continuidade mais evidente entre elas, embora de forma sutil e não intrusiva. Em essência, tudo se mantém fiel ao padrão clássico da Bonelli: cada episódio ainda funciona de maneira autônoma, com a cronologia servindo mais como uma orientação do que como uma obrigação — uma atualização cuidadosa, realizada sem pressa e sem a intenção de alterar significativamente o que sempre funcionou.

A literatura popular geralmente espelha a realidade de uma época e de sua sociedade, servindo como um reflexo onde se depositam medos, ansiedades e obsessões coletivas — alguns herdados, outros meticulosamente atualizados. O progresso da civilização não extinguiu esses medos primordiais; pelo contrário, gerou novas circunstâncias para que eles se manifestassem com mais facilidade. O avanço trouxe métodos de impressão mais rápidos, redes de distribuição mais eficazes e um aumento na circulação de informações. Dylan Dog acompanhou esse movimento, embora nem sempre com entusiasmo.

O terror retratado na série reflete de forma bastante evidente o contexto histórico em que foi criada. Como sempre, a política se infiltra em todos os gêneros narrativos, do drama à comédia, especialmente no horror. Quando alguém critica a presença de política nos quadrinhos, geralmente não está levantando uma questão estética, mas apenas observando que a narrativa em questão não corrobora suas próprias crenças. Em várias situações, isso se refere menos a uma leitura crítica e mais a um hábito reiterado com convicção automática.

A palavra escrita sempre teve impacto, mas com a disseminação das redes sociais, essa influência alcançou proporções industriais. Pequenos textos tornaram-se adequados para que leitores não habituados à leitura se sintam completamente informados, confiantes em suas opiniões e, principalmente, dispostos a compartilhá-las. Trata-se de um fenômeno curioso — e totalmente alinhado com o universo de Dylan Dog — no qual a sensação de clareza se propaga mais rapidamente do que qualquer pesadelo tradicional.

Assim, as histórias de Dylan Dog dessa nova fase, que começou em 2014, ainda em 2025, retratam muitos dos medos mais atuais da sociedade contemporânea. A aposentadoria do velho inspetor Bloch marca o início da reformulação. Embora afastado de suas funções oficiais, ele continua presente nas histórias como uma figura respeitada, agora livre do peso da burocracia.

Tyron Carpenter, o novo inspetor-chefe da Scotland Yard, ocupará a posição que antes era do Inspetor Bloch. Cínico, racional e pouco propenso a qualquer forma de transcendência,  Carpenter vê Dylan como um charlatão incômodo e começa a se opor a ele de forma aberta, chegando até mesmo a cancelar o distintivo que o detetive ainda usava como investigador — um ato administrativo que revela mais sobre o novo comando do que sobre a eficácia do método antigo.

Também é apresentada a sargento Rania Rakim, que é assistente de Carpenter. Ela desempenha um papel incomum de moderação na nova hierarquia, sendo mais equilibrada e menos hostil do que seu superior. Entretanto, sua relação com Dylan não é totalmente neutra: existe uma tensão sutil, composta por olhares avaliativos e ironia contida, que se relaciona com o passado galanteador do protagonista. Nada é imposto de maneira explícita, mas o jogo está presente, insinuando que, mesmo em um contexto marcado pela racionalidade e ceticismo, Dylan permanece sendo Dylan — e que certos padrões, para o bem ou para o mal, persistem apesar de qualquer tentativa de reformulação.

John Ghost emerge como o principal antagonista ligado à Nova Série. Sua primeira aparição acontece no especial John Ghost, apresentado no Lucca Comics & Games 2014, e passa a fazer parte da continuidade da série regular a partir da edição 341. Ghost, um empresário de tecnologia inescrupuloso, serve como uma metáfora bastante direta — e pouco amigável — do mal moderno associado à tecnologia, ao consumo e à incessante busca por eficiência.

Como proprietário da Ghost Enterprises, ele desenvolveu o Ghost 9000, um smartphone que faz uma paródia evidente das principais plataformas dominantes do mercado. A sátira é evidente: o foco não está tanto em um aparelho, mas em um símbolo da dependência digital, da vigilância camuflada como conveniência e da conversão do cotidiano em mercadoria — tudo isso apresentado com a habitual polidez corporativa.

Embora tenha sido introduzido um novo eixo antagonista, a trama ainda segue o padrão clássico da Bonelli. John Ghost apareceu em poucas vezes nas edições brasileiras e seu smartphone em algumas edições. As narrativas ainda podem ser lidas de maneira independente, sem a necessidade de seguir uma cronologia estrita. O que se estabelece é apenas uma continuidade sutil, o bastante para amarrar alguns arcos e recorrências — algo semelhante ao funcionamento de séries como CSI ou Arquivo X: episódios independentes, mas com uma linha de fundo que recompensa o leitor mais atento, sem punir quem chega atrasado.

Em comparação com o histórico irregular do personagem no Brasil, a Nova Série teve uma duração significativa, totalizando 32 edições antes de ser encerrada pela Mythos na edição 372 do original italiano, uma história de 2017, que foi publicada no país em novembro de 2023.

Em janeiro de 2026, pouco mais de dois anos depois, a Editora Lorentz decidiu — para a surpresa moderada de todos — retomar a publicação exatamente onde a Mythos havia interrompido. O primeiro volume de Dylan Dog Nova Serie pela Lorentz apresentou duas narrativas, equivalentes às edições italianas 373 e 374. 

Essa escolha pela continuidade foi especialmente acertada: por acaso, essas primeiras histórias são excelentes para reintroduzir o personagem. Escritas há quase dez anos, mas ainda inquietantemente contemporâneas — o que diz menos sobre sua idade e mais sobre a continuidade dos temas tratados. Estão, sem dúvida, entre as melhores dessa fase e se destacam quando comparadas a histórias clássicas da era Sclavi.  E tambem não deixa de ser irônico a Lorentz que teve sua trajetória com o personagem interrompida pela Mythos, continuar justamente uma serie descontinuada por ela.

O volume 2 está em sua fase final de pré-venda no Catarse, com lançamento previsto para abril e pode ser acessado nesse link.


QUANDO TODOS VOLTAM AO MESMO PERSONAGEM



É importante destacar que essa Nova Série não foi o primeiro retorno de Lorentz ao mundo do personagem. No início de 2025, a editora lançou Dylan Dog Gigante, um volume que compila três histórias, incluindo uma curta. Essas histórias foram publicadas originalmente no mesmo formato e na edição italiana homônima de 1992.  

Além disso, a Lorentz lançou o Dylan Dog Especial, coletânea que compila as duas primeiras edições do Speciale italiano, que foram publicadas em 1987 e 1988. Como mencionado anteriormente neste artigo, o Speciale continua sendo publicado na Itália até os dias atuais, com um total de 38 edições até o momento — um exemplo raro de continuidade em um contexto pouco propenso a conclusões definitivas. O número 2 está em pré-venda no Catarse durante os momentos finais, junto com a segunda edição da nova série  e pode ser acessado nesse link.

Com consistência, a editora tem investido nas séries paralelas do personagem e, no final de 2025, lançou Almanaque do Medo, em capa dura, que reúne os dois primeiros volumes do Dylan Dog Almanacco della Paura, publicados na Itália em 1991 e 1992. Com duas longas narrativas e uma mais breve, o volume ainda traz uma série de escritos sobre o sobrenatural, incluindo um longo ensaio dedicado a Lovecraft — presença cujo nome não requer maiores apresentações e que, neste caso, figura mais como membro da casa do que como convidado especial.

E aproveitando para comentar de outra edição "perdida" do personagem no Brasil, convém não confundir esse Almanaque do Medo com outra publicação de nome semelhante.  Recuando alguns anos, em 2020, a Mythos lançou o Almanaque do Pesadelo, uma edição especial de Dylan Dog. O volume possui 192 páginas, formato Bonelli, com capa brochura em papel cartão e histórias em preto e branco. O encadernado compila oito contos curtos, todos eles originários das edições italianas do Dylan Dog Gigante — para ser mais preciso, dos números 16, 17, 18 e 19, lançados entre 2007 e 2010.  Há apenas uma ressalva em relação ao formato utilizado no Brasil: embora tenha se originado nas edições Gigante, o volume foi lançado por aqui no padrão Bonelli tradicional. Quem sabe a Lorentz lance no original futuramente se a edição Gigante chegar nesses números, o que acho particularmente difícil.


PLANETA DOS MORTOS: O APOCALIPSE COMO CONTINUIDADE  


A Panini vem publicando algumas edições especiais coloridas de personagens da Bonelli, e Dylan Dog está entre eles, agrupados sob o selo Biblioteca Dylan Dog, embora esse título não seja explicitado na capa. O primeiro desses volumes é  Killex, que reúne as histórias “Killex” e “O Retorno de Killex”, publicadas originalmente nas edições 90 (1993) e 129 (1997) da série italiana.

Posteriormente, a Mythos viria a publicar Killex no Brasil, no número 38 de sua segunda série regular, desta vez em preto e branco, no formato original. Já “O Retorno de Killex” segue inédita nesse formato por aqui, o que faz do volume da Panini não apenas uma edição alternativa, mas a única forma de acesso completo as duas historias no mercado brasileiro — ao menos por enquanto.

O segundo álbum da Biblioteca Dylan Dog é Johnny Freak, que apresenta a história consagrada em sua versão colorizada, acompanhada de sua continuação, “O Coração de Johnny”. A história original teve sua publicação em preto e branco no Brasil logo no primeiro número lançado pela Conrad, enquanto a continuação saiu posteriormente pela Mythos, no número 12 da segunda série.

O interessante dessa biblioteca é a chance de ter reunidas numa única edicoes as histórias recorrentes do personagem. Ainda que a opção pela colorização de material originalmente concebido em preto e branco não seja, pessoalmente, a mais atraente, é justo reconhecer que o grande público da Panini tende a preferir o colorido, em consonância com o senso comum contemporâneo.  Nesse sentido, a junção de narrativas interligadas por personagens e continuidade acaba por compensar a escolha estética, oferecendo ao leitor um mosaico mais coeso do que o habitual — ainda que um pouco mais vibrante do que o estritamente necessário.

O terceiro número da Biblioteca Dylan Dog reúne a clássica Zona do Crepúsculo e suas duas continuações, “Retorno ao Crepúsculo” e “Herdeiros do Crepúsculo”, formando um arco finalmente apresentado de maneira contínua. A história original foi publicada no Brasil em sua versão em preto e branco pela Record, no número 7 de sua série — assim como na edição italiana — e mais recentemente voltou a circular pela Mythos, no segundo volume do Omnibus dedicado ao personagem.

“Retorno ao Crepúsculo”, por sua vez, saiu em preto e branco pela Lorentz em sua edição de estreia, enquanto “Herdeiros do Crepúsculo” permanece inédita no Brasil em sua versão original em preto e branco.

O MUNDO ACABA, A BIBLIOTECA CONTINUA  

O Quarto volume da Biblioteca Dylan Dog é praticamente uma serie dentro da Serie, Planeta dos Mortos, que dialoga diretamente com duas edições lançadas anteriormente pela Lorentz — Gigante e Especial. Trata-se de uma história distópica ambientada em um futuro possível do personagem e, como o título não faz questão alguma de disfarçar, em um mundo dominado por mortos-vivos, o que reduz consideravelmente a margem para interpretações otimistas.

O primeiro volume publicado pela Panini saiu em julho de 2024 e reúne duas histórias: uma originalmente lançada na Itália em Dylan Dog Color Fest nº 10, de 2013, e outra publicada em Dylan Dog Gigante nº 22, de 2013, que retoma e amplia a narrativa iniciada anos antes. Darei mais detalhes a seguir.

Em 2008, Alessandro Bilotta escreveu uma historia curta desenhada por Carmine di Giandomenico que saiu no numero 2 de Dylan Dog Color Fest. A historia dos intitulada "O Planeta dos Mortos"  (INEDITA AINDA AQUI NO BRASIL) e funcionava como um Epilogo da saga do nosso querido Old Man. A historia foi um sucesso e 5 anos depois foi publicada na Color Fest 2 uma especie de prequel desse Planeta dos Mortos chamado de "Adeus Grouxo", historia curta colorida que abre o encadernado da Panini.

Publicada em Dylan Dog Gigante 22 "O Planeta dos Mortos" revisita e alonga a historia publicada colorida em 2008. Desta vez em preto e branco e ainda escrita por Alessandro Bilotta mas agora com desenhos de Daniela Vetro.

Entusiasmados com o sucesso decidiram porem continuar a historia, o que nos leva ao quinto volume da Biblioteca Dylan Dog que trouxe Planeta dos Mortos Volume 2 e que obviamente dá continuidade à série, que na Itália acabou migrando para o Speciale nº 29, de 2015 com a historia "A Casa das Memorias". Se as historias anteriores eram independentes e autocontidas agora pela primeira vez concebida de forma intencional que seria uma serie continua.

As demais historias foram publicadas sequencialmente nos anos posteriores no anual Speciale  até o numero 35. Posteriormente na Italia foram compilados em 8 volumes com a saga Il planeta dei morti .

No Brasil, Planeta dos Mortos já conta com três edições publicadas, sendo que o sexto volume da Biblioteca Dylan Dog  traz  Planeta dos Mortos Volume 3 com  “O fim é o meu começo” (Speciale 30). Serão mais cinco volumes, o quarto publicando  "Inimigo Publico n. 1" , o 5 "Em nome do Filho", o 6 "“Saudações de Undead”", o 7 "A grande consolação” e o derradeiro volume 8 trazendo a ultima historia "Uma Risada vai ressuscitar vocês" junto com a historia curta que deu origem a tudo no Color Fest 2 , e como ja dito antes inédita ate o momento aqui.

Mais do que uma saga distópica, a história dialoga de forma irônica com a própria estreia de Dylan Dog: se na primeira aventura o detetive investigava um mundo ainda ameaçado pelos mortos, aqui ele se move em um cenário onde essa ameaça venceu — como se o pesadelo inicial tivesse, enfim, cumprido sua promessa.

A Panini também lançou o crossover entre Batman e Dylan Dog, onde o personagem italiano interage diretamente com o universo da DC. A trama investe na oposição entre dois estilos de investigação bem diferentes — o racionalismo total do vigilante de Gotham e o intutivo, muitas vezes falho, de Dylan — e se esforça para encaixar o horror em uma estrutura familiar ao leitor de histórias em quadrinhos de super-heróis. Assim como em outras colaborações entre a Bonelli e a DC Comics, o resultado não se destina tanto ao desenvolvimento do personagem, mas sim a um exercício de compatibilização entre estilos, servindo principalmente como uma curiosidade editorial e para apresentar o personagem Bonelliano para o grande publico da "rival" americana.

A FASE DE OURO, COM MENOS AMARELO  

Voltando à
Mythos, como já havia sido antecipado, o Dylan Dog Omnibus que vem republicando as histórias de Dylan Dog em ordem cronológica. Cada volume reúne seis histórias, e a coleção já conta com quatro edições publicadas. Trata-se, sem exagero, da melhor opção atualmente disponível para o leitor brasileiro, ao concentrar de forma organizada a chamada fase de ouro do personagem.

Mesmo para quem já possui as edições lançadas pela Record, o upgrade se justifica. As revistas originais, impressas em papel jornal, chegaram às bancas com uma qualidade gráfica apenas funcional e, com o passar do tempo, passaram a exibir aquele tom amarelado que não exatamente acrescenta atmosfera ao horror — apenas confirma a ação implacável do tempo, algo que Dylan Dog conhece bem demais.


A Mythos também publicou cinco volumes capa dura que embora não explicitado no titulo, a série é chamada de  Graphic Novel. A coleção em formato   maior estreou com “Mater Dolorosa”, continuação direta de “Mater Morbi”, história lançada anteriormente pela Lorentz. No original italiano, “Mater Dolorosa” corresponde ao número 361 da série regular e já nasce como uma obra concebida em cores.

O curioso é que, pouco depois dessa publicação em graphic novel, a Mythos lançou “Mater Dolorosa” novamente no Brasil em uma edição especial no formato italiano, mas fora da série principal — como se fosse um volume autônomo, sem grande explicação e sem ligação direta com a linha regular. Mesmo nesse formato mais compacto, a história foi mantida integralmente colorida, respeitando a concepção original da edição italiana. A decisão acaba reforçando o caráter singular da obra dentro do catálogo do personagem, ainda que sua posição editorial permaneça, no mínimo, pouco ortodoxa.

A segunda Graphic Novel,   “Prelúdio para Morrer”, traz nada menos que Dario Argento como roteirista. O título brasileiro faz referência direta a um dos clássicos do diretor italiano, “Prelúdio para Matar”,estabelecendo um diálogo imediato entre o horror cinematográfico e o universo de Dylan Dog. Curiosamente, o título original — “Whipping Girl”(Garota Chicoteada) — aponta de forma muito mais explícita para o conteúdo da história, centrado em práticas sadomasoquistas. O uso do BDSM em Dylan Dog surge aqui quase como uma novidade temática e cumpre dupla função: delinear a personagem Lais e empurrar o protagonista até a beira do abismo, forçando-o a encarar algo radicalmente oposto à sua natureza — a violência direta contra uma mulher.

Com arte de Corrado Roi, a história constrói um espaço onde o sadomasoquismo se converte em estética, ritual e espetáculo, observado por um público que assiste à dor como performance, protegido por máscaras de animais. Não por acaso: os animais, enquanto símbolo e presença visual, são outra das obsessões recorrentes de Argento, aqui incorporadas de forma orgânica a um universo onde desejo, culpa e horror caminham lado a lado.

O terceiro volume das Graphic Novel apresenta a inédita “Nos Confins do Tempo”publicada originalmente no número 50 da série italiana, em 1990. Embora essa edição tenha saído no original em preto e branco, a versão lançada pela Mythos neste graphic novel é colorizada. Embora a coleção regular da segunda serie tenha começado a publicar as lacunas entre as 100 primeiras historias do personagem no Brasil, a versão original em formatinho foi publicada somente nesse formato de graphic novel e deve ser publicada no original quando a coleção de Omnibus alcançar esse ponto da cronologia.

A quarta Graphic Novel traz a versão colorida de “Mater Morbi”, história publicada originalmente no número 280 da série regular italiana em 2009 e que, no Brasil, já havia saído pela Lorentz em seu terceiro número. Embora “Mater Morbi” cronologicamente anteceda “Mater Dolorosa” — que abriu a linha de Graphic Novels da Mythos — essa inversão não compromete a coleção, já que os volumes não são numerados e funcionam de forma independente

O quinto e último volume da linha de Graphic Novels trouxe “Lágrimas de Pedra”, publicada originalmente em cores no número 350 da série italiana, em 2015. A história faz parte da Nova Série, mas no Brasil acabou restrita a esse formato ampliado, sem publicação   na coleção "Nova Serie" em formato italiano.  Ao contrario do que fez com Mater Dolorosa que ganhou 2 formatos quase ao mesmo tempo. Não espere logica editorial/

Tradicionalmente publicada em preto e branco, a série Dylan Dog teve a cor reservada, na Itália, a ocasiões específicas. Os chamados números redondos — 100200250300 e 350 — foram lançados originalmente em cores, marcando momentos simbólicos da trajetória editorial do personagem. Além deles, a Bonelli também recorreu à colorização em edições comemorativas de aniversário: os números 121 (10 anos), 241 e 242 (20 anos), bem como o 361 (Mater Morbi), publicado por ocasião dos 30 anos da série. 

Mais recentemente, o número 375 também saiu originalmente colorido, celebrando o retorno de Tiziano Sclavi aos roteiros. Em todos esses casos, a cor aparece como exceção cuidadosamente planejada dentro de uma coleção que segue majoritariamente fiel ao preto e branco.

A Mythos também vem publicando alguns crossovers do personagem em edições especiais. O primeiro deles envolve Dampyr, outro personagem bonelliano ligado ao universo do sobrenatural, que já teve uma passagem relativamente breve pela própria Mythos e que hoje encontra abrigo editorial na Editora 85 — mais um exemplo da mobilidade característica desses personagens.

O especial, lançado no início de 2024, reúne as duas partes do encontro: a primeira publicada originalmente em Dylan Dog nº 371, e a continuação em Dampyr nº 209, ambas lançadas na Itália em 2017. A edição funciona como registro completo do crossover, poupando o leitor brasileiro de acompanhar a história por diferentes títulos e editoras — uma comodidade que, neste caso específico, não chega a ser desprezível.

Depois disso, a Mythos publicou o terceiro crossover entre Dylan Dog e Martin Mystère. Como ja dito anteriormente o primeiro encontro havia sido lançado ainda no início da década de 1990 pela Record; o segundo saiu pela própria Mythos, na edição especial da série Tex e os Aventureiros.

Esse novo capítulo, publicado originalmente na Itália em 2018 e lançado no Brasil no final de 2024, recebeu o título “O Abismo do Mal”. Com isso, os dois personagens acumulam três encontros publicados no Brasil, o que faz surgir a necessidade de uma edição especial que reúna esse material de forma organizada. Essa demanda se torna particularmente clara no caso do segundo crossover, hoje praticamente perdido no meio de uma publicação pouco conhecida — daquelas que a maioria dos leitores dificilmente associa, à primeira vista, a Dylan Dog ou Martin Mystère.

Um pouco antes, a Mythos já havia publicado o encontro entre Dylan Dog e Morgan Lost, personagem que habita uma realidade alternativa e futurista da nossa. Criado por Claudio ChiaverottiMorgan Lost é publicado no Brasil pela Editora 85 e já conta com oito edições, cada uma reunindo duas histórias. Na Itália, o crossover entre os dois personagens não surgiu de forma episódica, mas como uma minissérie própria, concebida pelo próprio Chiaverotti e publicada entre 2018 e 2020, com começo, meio e fim bem definidos.

No Brasil, esse material chegou de forma gradual. O primeiro volume, “Pesadelos & Assassinos Seriais”, foi lançado em setembro de 2024. Em agosto de 2025, a Mythos deu continuidade à publicação com uma segunda edição, reunindo “O Ceifador” e “Retorno à Escuridão”. Pouco depois, em outubro do mesmo ano, saiu o terceiro encontro, “Mister Fear & A Culpa é do Medo”, completando a adaptação brasileira de uma minissérie que, na origem, sempre foi pensada como tal — ainda que por aqui tenha se revelado aos poucos, quase como quem não faz questão de chamar muita atenção para si.

Ao longo de quase quatro décadas, Dylan Dog sempre retornou ao mesmo ponto de partida: o pesadelo. No primeiro número, eram os mortos-vivos; anos depois, o futuro possível de Planeta dos Mortos apenas confirmou que aquele aviso inicial não havia sido exagerado. No Brasil, a trajetória do personagem acabou espelhando esse movimento. A cada longo período de ausência, Dylan Dog parecia definitivamente enterrado nas bancas — apenas para ressurgir, como convém, em outro formato, por outra editora, com o mesmo ar melancólico de quem nunca esteve realmente em repouso.

Nesse vai-e-volta editorial, o personagem atravessou séries regulares, especiais, omnibuses, graphic novels de luxo, crossovers e até o território da paródia. Como curiosidade final, a Editora Abril chegou a publicar a sátira “Dylan Mouse” em revistas da linha Mickey — e, posteriormente, reuniu essa e outras duas paródias de personagens da Bonelli em um encadernado de luxo em capa dura, encerrando a trajetória brasileira do Investigador do Pesadelo com uma piscadela inesperada.

Talvez seja esse o destino natural de Dylan Dog: morrer e voltar quantas vezes forem necessárias. Afinal, no seu universo — e curiosamente também no nosso mercado editorial — nada permanece enterrado por muito tempo.

DYLAN DOG NOS CINEMAS

Dylan Dog ganhou uma adaptação cinematográfica em 2010, dirigida pelo inexpressivo Kevin Munroe e “estrelada” pelo ainda mais inexpressivo Brandon Routh — curiosamente um ator que já havia encarnado um dos super-heróis mais conhecidos dos quadrinhos e que aqui parece cumprir a ingrata missão de provar que nem todo personagem sobrevive à travessia para o cinema. Não chega exatamente a “afundar” o personagem, mas tampouco o ajuda a boiar: o filme simplesmente passa, sem impacto, sem identidade e sem deixar rastros. 

A produção é norte-americana e teve pouca repercussão, servindo basicamente como ponto de discórdia entre fãs, divididos entre odiar o resultado ou preferir ignorá-lo por completo. Eu pertenço ao segundo grupo. Nunca assisti, apesar de manter o Blu-ray na estante — coisa típica de colecionador que já desistiu de justificar seus próprios critérios.

Uma rápida olhada no IMDb não ajuda a melhorar o cenário: não há menção a personagens fundamentais como Groucho ou o inspetor Bloch, o que costuma ser um sinal preocupante — ou, no mínimo, um indício de que alguém achou que “simplificar” era uma boa ideia. Raramente é.

Na verdade, eu nem pretendia falar desse filme. Ele só entra aqui por contraste, porque existe “Pelo Amor e pela Morte” (Dellamorte Dellamore, 1994) — e este, sim, é considerado por muitos o verdadeiro filme de Dylan Dog, mesmo sem se chamar Dylan Dog.

Baseado em um romance de Tiziano Sclavi  publicado em 1991 e inédito no Brasil (alô Editoras !) , o filme reflete com precisão a chamada “filosofia sclaviana”, tão presente nos quadrinhos. Está ali a dualidade entre amor e morte — dell’amore e della morte, um jogo de palavras que Sclavi jamais resistiria a explorar — vivida por Francesco Dellamorte de forma intensa, obsessiva e pouco prática, como convém.

Auxiliado pelo abobalhado Gnagi, que não tem absolutamente nada de Groucho (nem física, nem espiritualmente), Dellamorte é o guardião do cemitério de Buffalora, uma pequena cidade do norte da Itália onde, por razões nunca explicadas — e nem questionadas —, os mortos se levantam de suas sepulturas. Cabe a ele destruí-los. Curiosamente, Dellamorte não parece interessado em entender o fenômeno: ele simplesmente atira e ama. Nessa ordem variável, mas com igual dedicação.

A bela (e dizendo bela estou sendo muito modesto e recatado) Anna Falchi interpreta a personagem feminina sem nome  cuja função principal é complicar ainda mais a vida de Dellamorte, algo que ela faz com eficiência admirável. Bela demais para ser apenas “bela”, ela funciona como encarnação do desejo, da perda e da repetição — conceitos que o filme trata com uma seriedade quase absurda, o que só torna tudo mais eficaz.

E então há Rupert Everett. É ele quem interpreta Francesco Dellamorte, em uma escolha que não poderia ser mais acertada. Everett foi, durante anos, o modelo visual assumido para o personagem nos quadrinhos, e aqui empresta ao papel exatamente o que Dylan Dog sempre exigiu: elegância cansada, ironia contida e a sensação permanente de alguém que já entendeu o mundo — e não gostou muito do que viu.


Sem falar no Fusca do personagem que só faltou a placa DY 666. Por isso, Dellamorte Dellamore carrega, para muitos leitores e espectadores, um selo tácito de legitimidade: não é oficialmente Dylan Dog, mas é tudo o que o filme de 2010 não conseguiu ser. Um pesadelo romântico, melancólico e absurdamente coerente em sua própria lógica. Como o próprio personagem.

Talvez o cinema seja, no fim das contas, apenas mais um dos lugares onde Dylan Dog pode — ou não — existir. Quando funciona, como em Dellamorte Dellamore, não é porque respeita regras de adaptação, fidelidade ou cânone, mas porque compreende o essencial: o horror como estado de espírito, o amor como armadilha recorrente e a morte como presença cotidiana, quase burocrática. Quando falha, falha justamente por tentar explicar demais, iluminar demais, tornar “funcional” algo que sempre viveu melhor nas sombras.

Nos quadrinhos, Dylan Dog jamais precisou de coerência absoluta, continuidade rígida ou finais definitivos. Morreu, enlouqueceu, envelheceu, foi esquecido, reformulado, relançado, interrompido e retomado inúmeras vezes — na ficção e fora dela. No Brasil, sua trajetória editorial reflete essa lógica com precisão involuntária: longos silêncios, retornos inesperados, formatos distintos, promessas de estabilidade que nunca duram muito. Como o próprio personagem, Dylan Dog parece sempre à beira do desaparecimento, apenas para reaparecer em seguida, intacto em sua melancolia.


Talvez seja por isso que ele continue funcionando. Porque Dylan Dog não oferece conforto, não promete ordem e nunca sugere que os pesadelos possam ser resolvidos de forma definitiva. No máximo, investigados. Às vezes compreendidos. Raramente vencidos. E, quando tudo parece terminar — seja no cinema, nos quadrinhos ou nas bancas brasileiras — sempre resta a sensação de que aquilo não era exatamente um fim, apenas mais uma pausa incômoda entre um pesadelo e o próximo.

Afinal, no universo de Dylan Dog, nada permanece enterrado por muito tempo. Nem os mortos. Nem as histórias. Nem o próprio personagem.