Naquela época, o nome carregava um significado pessoal. Em 1991, apenas dois anos haviam se passado desde que assisti a um Globo Repórter transmitido em comemoração ao centenário dos crimes do assassino londrino, ocorrido em 1889 — um programa que, por sinal, me impressionou mais do que seria esperado para alguém da minha idade.
Como qualquer adolescente comum da época em que o gênero estava no auge, eu nutria um interesse bastante saudável — ou não — por histórias de terror. O VHS havia dominado os lares, as locadoras proliferavam nos bairros e uma capa atraente era suficiente para prometer noites de insônia. O terror era barato, fácil de encontrar e estava em todo lugar, e eu estava totalmente imerso nisso.
Adquiri a revista. O nome era Dylan Dog. Era em preto e branco, o que, a princípio, não me entusiasmou muito — parecia muito antigo para alguém habituado às cores vibrantes das capas de vídeo e dos gibis americanos. Fui atraído principalmente pelo tema, não pelo personagem em si, sobre o qual eu não tinha a menor ideia do que se tratava. Não tinha ideia de quem Dylan Dog era, de onde vinha ou por que estava se envolvendo com Jack, o Estripador. Porém, algo ali prometia um tipo diferente de horror — e isso, aos 16 anos, já era mais do que o bastante.
Foi amor à primeira vista. Ou à primeira leitura — que assim seja. Eu esperava adquirir uma narrativa ambientada na Londres de Jack, o Estripador, mas acabei encontrando o Detetive dos Pesadelos, na segunda edição do personagem publicada no Brasil. A primeira, referente a agosto, já não estava disponível. Naquele período, quando uma nova edição chegava, as anteriores simplesmente sumiam da banca, como se nunca tivessem estado lá.
Passadas algumas semanas, foi lançada a terceira edição, agora com um lobisomem na capa, evidenciando que não se tratava de um incidente isolado. Dylan Dog não estava apenas de passagem; ele tinha vindo para se estabelecer na minha vida (ao contrário das bancas na época).
Como já mencionei — e provavelmente farei isso novamente —, filmes de terror foram uma das minhas paixões durante a adolescência. Uma paixão que vinha se desenvolvendo desde o final da infância, mas que, no início dos anos 1990, já estava em seu auge. Era a época em que tudo favorecia: VHS, locadoras de bairro, capas chamativas, sessões proibidas para menores e uma sensação constante de que o terror era um território a ser explorado.
Nesse cenário, Dylan Dog surgia como o chamariz perfeito para os quadrinhos da Bonelli. . Mistério, horror, assassinos históricos, monstros clássicos — tudo embalado num formato que parecia feito sob medida para alguém como eu. Não se tratava apenas de mais um gibi de terror; era uma espécie de síntese daquele fascínio juvenil, agora expresso em páginas em preto e branco que, de forma curiosa, começaram a fazer todo o sentido. Já compartilhei minha experiência com a Bonelli anteriormente nestelink.
Se o terror por um lado ja me atraía , o texto de Tiziano Sclavi parecia distinto de tudo que eu já havia conhecido. Não recordava exatamente os filmes que assistia nas locadoras, nem as revistas clássicas de terror que circulavam por aqui, como os contos da Cripta. Havia algo ali que ia além do susto fácil, da estrutura previsível e do prazer imediato do medo. Atualmente, com um conhecimento mais aprofundado sobre o horror italiano, sou capaz de reconhecer influências, ecos e referências. Naquele momento, no entanto, aquilo me parecia apenas novo — e, para mim, totalmente inédito.
Sclavi não é genial por ter inventado a roda, mas por saber exatamente como reuni-la com tantas outras. Ele sintetiza uma variedade de influências literárias, cinematográficas e culturais e as transforma em algo profundamente autoral. E, como bons italianos, os Gialli são a principal referência. Dylan Dog não parecia uma cópia de nada em particular; parecia um universo próprio, peculiar, ora melancólico, ora irônico, geralmente mais inclinado a causar desconforto do que medo.
Continuei adquirindo as edições mensalmente até que, em determinado momento, vivi uma dessas pequenas conquistas pessoais que só fazem sentido para quem cresceu frequentando bancas e sebos: encontrei, enfim, a tão cobiçada edição número 1. Aconteceu em um sebo de Bauru. Ah, os sebos de antigamente — quando o valor de uma revista nova na banca permitia facilmente comprar três ou quatro usadas, e a busca fazia parte da experiência. Não se tratava apenas de comprar; envolvia garimpar, folhear, negociar e sair com a sensação de ter conquistado algo.
É a partir dessa trajetória pessoal que esta matéria se organiza. Neste ponto, o objetivo é explorar as edições de Dylan Dog lançadas no Brasil até o momento, uma trajetória caracterizada por várias editoras, interrupções e retornos nem sempre muito divulgados. A publicação do personagem por aqui sempre foi irregular, embora isso não constitua exatamente um problema narrativo: para a Bonelli, a ordem cronológica nunca foi uma prioridade, e isso raramente afeta a leitura. Em contrapartida, torna mais difícil para aqueles que apreciam acompanhar as fases, evoluções e mudanças de tom — que são, de fato, uma parte essencial da complexidade do personagem.
QUEM AFINAL É DYLAN DOG ?
Dylan, ex-policial e alcoólatra em recuperação — ou, pelo menos, em constante esforço — deixa a corporação principalmente devido ao álcool e começa a ganhar a vida investigando fenômenos paranormais. Reside em Londres, na Craven Road, número 7, local que aparenta existir apenas para corroborar a noção de que nada ali é realmente comum. Seu carro é um fusca simpático com a sugestiva placa DY666. Por último, Divide o espaço com Groucho, seu assistente de humor incessante, cuja aparência é inspirada no comediante Groucho Marx. Ele é encarregado de comentar o horror alheio com piadas de gosto questionável e timing impecável.
Uma das piadas constantes da história é que Groucho sempre aparece e oferece a Dylan uma arma nos momentos em que ele mais necessita.
Além disso, mantém uma atitude abertamente hostil em relação à tecnologia moderna, optando por métodos antigos, como discos de vinil, máquinas de escrever e qualquer coisa que demande mais esforço do que eficiência. Ainda que as etapas mais recentes da série apresentem recursos tecnológicos, estes aparecem como concessões relutantes, aceitas mais por cansaço do que por convicção — um aspecto da personalidade que ajuda a entender por que Dylan parece sempre emocionalmente acessível, mesmo sem demonstrar disposição para aprender com as experiências.
Em quase todas as histórias, Dylan acaba se envolvendo romanticamente com alguma cliente, o que leva à conclusão de que a Londres da série é povoada por mulheres incrivelmente cativantes. É importante ressaltar que isso não o torna um canalha machista: Dylan não conquista, ele se rende. Apaixona-se com a mesma facilidade com que inicia um novo relacionamento, sempre de maneira genuína. Seu único infortúnio é de natureza narrativa: essas mulheres raramente retornam na edição seguinte, permitindo que ele se apaixone novamente, como se o problema nunca tivesse sido dele. Como resultado, há uma sequência quase estatística de relacionamentos amorosos. Levando em conta que a série já passou de 300 edições na Itália, é justo dizer que Dylan Dog pode ser um dos maiores — se não o maior — “pegador” da história dos quadrinhos, mesmo que raramente saia dessas relações sem feridas emocionais ou de outra natureza.
O time é completado pelo inspetor Bloch, antigo superior de Dylan na Scotland Yard e figura paterna devido às circunstâncias. Apesar de não levar a sério o trabalho do antigo pupilo, Bloch acaba cedendo sempre que se depara com casos que não se encaixam nos relatórios oficiais. Isso resulta, invariavelmente, na convocação de Dylan para resolver o inexplicável e, de quebra, evitar mais um aperto burocrático.
A primeira história já mostra Dylan atuando como detetive do pesadelo, completamente eficiente em meio ao caos. No entanto, seu passado como policial e suas dificuldades com o álcool são gradualmente revelados, quase de forma cautelosa, nas edições subsequentes, assim como outros aspectos de sua vida pessoal — como sua mãe — que aparecem conforme o tema em questão permite ou demanda. Não existe uma edição original que disponha tudo de maneira cronológica: o passado de Dylan surge de forma dispersa, por vezes contraditória, como se ele mesmo preferisse não ter todas as informações concentradas em um único local.
Embora alguns personagens apareçam, desapareçam e retornem em certas histórias, o núcleo da série continua sendo o mesmo — o que nos conduz diretamente ao estilo das narrativas. A natureza não linear do personagem proporciona total liberdade aos escritores: Dylan Dog pode morrer, enlouquecer ou ter um desfecho definitivo em uma trama e, mesmo assim, na edição seguinte, ele está de volta em seu estúdio, concentrado em montar um navio dentro de uma garrafa.
Trata-se de um projeto, a propósito, fadado ao fracasso. Dylan nunca termina, pois Groucho sempre o interrompe, dizendo que há um cliente aguardando. O ciclo se repete com a serenidade de quem incorpora o absurdo à rotina — um gesto cotidiano que ilustra a lógica interna da série: o horror pode ser definitivo, mas o expediente recomeça na edição seguinte.
Além da edição regular, Dylan Dog começou a ter várias edições paralelas. Dentre elas, o Speciale, publicação anual que continua sendo lançada na Itália e já conta com 38 edições — incluindo Il pianeta dei morti, que será discutido posteriormente, como parte dessa coleção. Também foram publicados o Almanacco della Paura, com 24 edições na Itália, e o Dylan Dog Gigante, que teve 22 edições italianas e foi descontinuado em 2013.
Mais adiante, quando abordarmos especificamente os lançamentos brasileiros e a correspondência com as edições italianas originais, discutiremos esses títulos, suas características editoriais e a maneira como foram publicados no Brasil, incluindo as variações na numeração, periodicidade e critérios de seleção.
EIS O BRASIL
Aqui, ao menos, seria um encontro que não seria constrangedor — e que, se tudo der certo, evitaria capas brilhantes e discursos heróicos excessivamente autoconfiantes.
"Mater Morbi", a terceira e ultima edição publicada pela Lorentz, recebeu um prêmio no The Ghastly Awards de 2016 e foi considerada a melhor história de Dylan Dog dos últimos 20 anos. Por coincidência — ou talvez como parte da lógica errática do mercado — também foi lançada uma edição de luxo, desta vez publicada pela Mythos.
Quando parecia certo que a Lorentz prosseguiria com a série, a Mythos — que durante anos mostrou um desinteresse quase sistemático pelo personagem — decidiu, de maneira surpreendente, licenciar novamente Dylan Dog, exatamente após o êxito dessa breve retomada. O movimento provocou um leve, mas perceptível, desconforto editorial.
Curiosamente, não era a primeira vez que isso ocorria: a mesma Mythos já tinha começado a publicar o personagem em 2002, imediatamente após o término da breve passagem pela Conrad. A frequência do gesto indica menos acaso e mais um saudável senso de oportunidade. De qualquer forma, o resultado final foi positivo para o leitor brasileiro: Dylan Dog estava novamente disponível, embora sempre um pouco depois do esforço alheio.
Dylan Dog 2a Serie pela Mythos teve a primeira edição, lançada em março de 2018, trouxe a excelente “Horror Paradise”. Mais uma vez publicada fora de ordem, a série passou, a partir de determinado ponto, a priorizar histórias da chamada fase de ouro do personagem — aproximadamente as cem primeiras edições italianas — recuperando episódios inéditos desse período que não haviam sido publicados nem pela Record nem pela própria Mythos em sua primeira série.
Essa nova fase não segue periodicidade mensal e permanece em publicação até hoje, já tendo ultrapassado a edição 40. Trata-se, até o momento, da mais longa sequência de publicações ininterruptas de Dylan Dog no Brasil — um feito relevante para um personagem que, historicamente, nunca teve grande vocação para a regularidade editorial.
A NOVA SÉRIE, VERSÃO DEFINITIVA PROVISÓRIA
A literatura popular geralmente espelha a realidade de uma época e de sua sociedade, servindo como um reflexo onde se depositam medos, ansiedades e obsessões coletivas — alguns herdados, outros meticulosamente atualizados. O progresso da civilização não extinguiu esses medos primordiais; pelo contrário, gerou novas circunstâncias para que eles se manifestassem com mais facilidade. O avanço trouxe métodos de impressão mais rápidos, redes de distribuição mais eficazes e um aumento na circulação de informações. Dylan Dog acompanhou esse movimento, embora nem sempre com entusiasmo.
O terror retratado na série reflete de forma bastante evidente o contexto histórico em que foi criada. Como sempre, a política se infiltra em todos os gêneros narrativos, do drama à comédia, especialmente no horror. Quando alguém critica a presença de política nos quadrinhos, geralmente não está levantando uma questão estética, mas apenas observando que a narrativa em questão não corrobora suas próprias crenças. Em várias situações, isso se refere menos a uma leitura crítica e mais a um hábito reiterado com convicção automática.
A palavra escrita sempre teve impacto, mas com a disseminação das redes sociais, essa influência alcançou proporções industriais. Pequenos textos tornaram-se adequados para que leitores não habituados à leitura se sintam completamente informados, confiantes em suas opiniões e, principalmente, dispostos a compartilhá-las. Trata-se de um fenômeno curioso — e totalmente alinhado com o universo de Dylan Dog — no qual a sensação de clareza se propaga mais rapidamente do que qualquer pesadelo tradicional.
Assim, as histórias de Dylan Dog dessa nova fase, que começou em 2014, ainda em 2025, retratam muitos dos medos mais atuais da sociedade contemporânea. A aposentadoria do velho inspetor Bloch marca o início da reformulação. Embora afastado de suas funções oficiais, ele continua presente nas histórias como uma figura respeitada, agora livre do peso da burocracia.
Como proprietário da Ghost Enterprises, ele desenvolveu o Ghost 9000, um smartphone que faz uma paródia evidente das principais plataformas dominantes do mercado. A sátira é evidente: o foco não está tanto em um aparelho, mas em um símbolo da dependência digital, da vigilância camuflada como conveniência e da conversão do cotidiano em mercadoria — tudo isso apresentado com a habitual polidez corporativa.
Embora tenha sido introduzido um novo eixo antagonista, a trama ainda segue o padrão clássico da Bonelli. John Ghost apareceu em poucas vezes nas edições brasileiras e seu smartphone em algumas edições. As narrativas ainda podem ser lidas de maneira independente, sem a necessidade de seguir uma cronologia estrita. O que se estabelece é apenas uma continuidade sutil, o bastante para amarrar alguns arcos e recorrências — algo semelhante ao funcionamento de séries como CSI ou Arquivo X: episódios independentes, mas com uma linha de fundo que recompensa o leitor mais atento, sem punir quem chega atrasado.
O volume 2 está em sua fase final de pré-venda no Catarse, com lançamento previsto para abril e pode ser acessado nesse link.
QUANDO TODOS VOLTAM AO MESMO PERSONAGEM
Com consistência, a editora tem investido nas séries paralelas do personagem e, no final de 2025, lançou Almanaque do Medo, em capa dura, que reúne os dois primeiros volumes do Dylan Dog Almanacco della Paura, publicados na Itália em 1991 e 1992. Com duas longas narrativas e uma mais breve, o volume ainda traz uma série de escritos sobre o sobrenatural, incluindo um longo ensaio dedicado a Lovecraft — presença cujo nome não requer maiores apresentações e que, neste caso, figura mais como membro da casa do que como convidado especial.
PLANETA DOS MORTOS: O APOCALIPSE COMO CONTINUIDADE
A Panini vem publicando algumas edições especiais coloridas de personagens da Bonelli, e Dylan Dog está entre eles, agrupados sob o selo Biblioteca Dylan Dog, embora esse título não seja explicitado na capa. O primeiro desses volumes é Killex, que reúne as histórias “Killex” e “O Retorno de Killex”, publicadas originalmente nas edições 90 (1993) e 129 (1997) da série italiana.
Posteriormente, a Mythos viria a publicar “Killex” no Brasil, no número 38 de sua segunda série regular, desta vez em preto e branco, no formato original. Já “O Retorno de Killex” segue inédita nesse formato por aqui, o que faz do volume da Panini não apenas uma edição alternativa, mas a única forma de acesso completo as duas historias no mercado brasileiro — ao menos por enquanto.
O segundo álbum da Biblioteca Dylan Dog é Johnny Freak, que apresenta a história consagrada em sua versão colorizada, acompanhada de sua continuação, “O Coração de Johnny”. A história original teve sua publicação em preto e branco no Brasil logo no primeiro número lançado pela Conrad, enquanto a continuação saiu posteriormente pela Mythos, no número 12 da segunda série.
O interessante dessa biblioteca é a chance de ter reunidas numa única edicoes as histórias recorrentes do personagem. Ainda que a opção pela colorização de material originalmente concebido em preto e branco não seja, pessoalmente, a mais atraente, é justo reconhecer que o grande público da Panini tende a preferir o colorido, em consonância com o senso comum contemporâneo. Nesse sentido, a junção de narrativas interligadas por personagens e continuidade acaba por compensar a escolha estética, oferecendo ao leitor um mosaico mais coeso do que o habitual — ainda que um pouco mais vibrante do que o estritamente necessário.
O terceiro número da Biblioteca Dylan Dog reúne a clássica “Zona do Crepúsculo” e suas duas continuações, “Retorno ao Crepúsculo” e “Herdeiros do Crepúsculo”, formando um arco finalmente apresentado de maneira contínua. A história original foi publicada no Brasil em sua versão em preto e branco pela Record, no número 7 de sua série — assim como na edição italiana — e mais recentemente voltou a circular pela Mythos, no segundo volume do Omnibus dedicado ao personagem.
“Retorno ao Crepúsculo”, por sua vez, saiu em preto e branco pela Lorentz em sua edição de estreia, enquanto “Herdeiros do Crepúsculo” permanece inédita no Brasil em sua versão original em preto e branco.
O MUNDO ACABA, A BIBLIOTECA CONTINUA
O primeiro volume publicado pela Panini saiu em julho de 2024 e reúne duas histórias: uma originalmente lançada na Itália em Dylan Dog Color Fest nº 10, de 2013, e outra publicada em Dylan Dog Gigante nº 22, de 2013, que retoma e amplia a narrativa iniciada anos antes. Darei mais detalhes a seguir.
Em 2008, Alessandro Bilotta escreveu uma historia curta desenhada por Carmine di Giandomenico que saiu no numero 2 de Dylan Dog Color Fest. A historia dos intitulada "O Planeta dos Mortos" (INEDITA AINDA AQUI NO BRASIL) e funcionava como um Epilogo da saga do nosso querido Old Man. A historia foi um sucesso e 5 anos depois foi publicada na Color Fest 2 uma especie de prequel desse Planeta dos Mortos chamado de "Adeus Grouxo", historia curta colorida que abre o encadernado da Panini.
Publicada em Dylan Dog Gigante 22 "O Planeta dos Mortos" revisita e alonga a historia publicada colorida em 2008. Desta vez em preto e branco e ainda escrita por Alessandro Bilotta mas agora com desenhos de Daniela Vetro.
Entusiasmados com o sucesso decidiram porem continuar a historia, o que nos leva ao quinto volume da Biblioteca Dylan Dog que trouxe Planeta dos Mortos Volume 2 e que obviamente dá continuidade à série, que na Itália acabou migrando para o Speciale nº 29, de 2015 com a historia "A Casa das Memorias". Se as historias anteriores eram independentes e autocontidas agora pela primeira vez concebida de forma intencional que seria uma serie continua.
As demais historias foram publicadas sequencialmente nos anos posteriores no anual Speciale até o numero 35. Posteriormente na Italia foram compilados em 8 volumes com a saga Il planeta dei morti .
No Brasil, Planeta dos Mortos já conta com três edições publicadas, sendo que o sexto volume da Biblioteca Dylan Dog traz Planeta dos Mortos Volume 3 com “O fim é o meu começo” (Speciale 30). Serão mais cinco volumes, o quarto publicando "Inimigo Publico n. 1" , o 5 "Em nome do Filho", o 6 "“Saudações de Undead”", o 7 "A grande consolação” e o derradeiro volume 8 trazendo a ultima historia "Uma Risada vai ressuscitar vocês" junto com a historia curta que deu origem a tudo no Color Fest 2 , e como ja dito antes inédita ate o momento aqui.
Mais do que uma saga distópica, a história dialoga de forma irônica com a própria estreia de Dylan Dog: se na primeira aventura o detetive investigava um mundo ainda ameaçado pelos mortos, aqui ele se move em um cenário onde essa ameaça venceu — como se o pesadelo inicial tivesse, enfim, cumprido sua promessa.
A Panini também lançou o crossover entre Batman e Dylan Dog, onde o personagem italiano interage diretamente com o universo da DC. A trama investe na oposição entre dois estilos de investigação bem diferentes — o racionalismo total do vigilante de Gotham e o intutivo, muitas vezes falho, de Dylan — e se esforça para encaixar o horror em uma estrutura familiar ao leitor de histórias em quadrinhos de super-heróis. Assim como em outras colaborações entre a Bonelli e a DC Comics, o resultado não se destina tanto ao desenvolvimento do personagem, mas sim a um exercício de compatibilização entre estilos, servindo principalmente como uma curiosidade editorial e para apresentar o personagem Bonelliano para o grande publico da "rival" americana.Mesmo para quem já possui as edições lançadas pela Record, o upgrade se justifica. As revistas originais, impressas em papel jornal, chegaram às bancas com uma qualidade gráfica apenas funcional e, com o passar do tempo, passaram a exibir aquele tom amarelado que não exatamente acrescenta atmosfera ao horror — apenas confirma a ação implacável do tempo, algo que Dylan Dog conhece bem demais.
Com arte de Corrado Roi, a história constrói um espaço onde o sadomasoquismo se converte em estética, ritual e espetáculo, observado por um público que assiste à dor como performance, protegido por máscaras de animais. Não por acaso: os animais, enquanto símbolo e presença visual, são outra das obsessões recorrentes de Argento, aqui incorporadas de forma orgânica a um universo onde desejo, culpa e horror caminham lado a lado.
O terceiro volume das Graphic Novel apresenta a inédita “Nos Confins do Tempo”, publicada originalmente no número 50 da série italiana, em 1990. Embora essa edição tenha saído no original em preto e branco, a versão lançada pela Mythos neste graphic novel é colorizada. Embora a coleção regular da segunda serie tenha começado a publicar as lacunas entre as 100 primeiras historias do personagem no Brasil, a versão original em formatinho foi publicada somente nesse formato de graphic novel e deve ser publicada no original quando a coleção de Omnibus alcançar esse ponto da cronologia.
A quarta Graphic Novel traz a versão colorida de “Mater Morbi”, história publicada originalmente no número 280 da série regular italiana em 2009 e que, no Brasil, já havia saído pela Lorentz em seu terceiro número. Embora “Mater Morbi” cronologicamente anteceda “Mater Dolorosa” — que abriu a linha de Graphic Novels da Mythos — essa inversão não compromete a coleção, já que os volumes não são numerados e funcionam de forma independente
O quinto e último volume da linha de Graphic Novels trouxe “Lágrimas de Pedra”, publicada originalmente em cores no número 350 da série italiana, em 2015. A história faz parte da Nova Série, mas no Brasil acabou restrita a esse formato ampliado, sem publicação na coleção "Nova Serie" em formato italiano. Ao contrario do que fez com Mater Dolorosa que ganhou 2 formatos quase ao mesmo tempo. Não espere logica editorial/
Tradicionalmente publicada em preto e branco, a série Dylan Dog teve a cor reservada, na Itália, a ocasiões específicas. Os chamados números redondos — 100, 200, 250, 300 e 350 — foram lançados originalmente em cores, marcando momentos simbólicos da trajetória editorial do personagem. Além deles, a Bonelli também recorreu à colorização em edições comemorativas de aniversário: os números 121 (10 anos), 241 e 242 (20 anos), bem como o 361 (Mater Morbi), publicado por ocasião dos 30 anos da série.
Mais recentemente, o número 375 também saiu originalmente colorido, celebrando o retorno de Tiziano Sclavi aos roteiros. Em todos esses casos, a cor aparece como exceção cuidadosamente planejada dentro de uma coleção que segue majoritariamente fiel ao preto e branco.
A Mythos também vem publicando alguns crossovers do personagem em edições especiais. O primeiro deles envolve Dampyr, outro personagem bonelliano ligado ao universo do sobrenatural, que já teve uma passagem relativamente breve pela própria Mythos e que hoje encontra abrigo editorial na Editora 85 — mais um exemplo da mobilidade característica desses personagens.O especial, lançado no início de 2024, reúne as duas partes do encontro: a primeira publicada originalmente em Dylan Dog nº 371, e a continuação em Dampyr nº 209, ambas lançadas na Itália em 2017. A edição funciona como registro completo do crossover, poupando o leitor brasileiro de acompanhar a história por diferentes títulos e editoras — uma comodidade que, neste caso específico, não chega a ser desprezível.
Depois disso, a Mythos publicou o terceiro crossover entre Dylan Dog e Martin Mystère. Como ja dito anteriormente o primeiro encontro havia sido lançado ainda no início da década de 1990 pela Record; o segundo saiu pela própria Mythos, na edição especial da série Tex e os Aventureiros.
Esse novo capítulo, publicado originalmente na Itália em 2018 e lançado no Brasil no final de 2024, recebeu o título “O Abismo do Mal”. Com isso, os dois personagens acumulam três encontros publicados no Brasil, o que faz surgir a necessidade de uma edição especial que reúna esse material de forma organizada. Essa demanda se torna particularmente clara no caso do segundo crossover, hoje praticamente perdido no meio de uma publicação pouco conhecida — daquelas que a maioria dos leitores dificilmente associa, à primeira vista, a Dylan Dog ou Martin Mystère.
Um pouco antes, a Mythos já havia publicado o encontro entre Dylan Dog e Morgan Lost, personagem que habita uma realidade alternativa e futurista da nossa. Criado por Claudio Chiaverotti, Morgan Lost é publicado no Brasil pela Editora 85 e já conta com oito edições, cada uma reunindo duas histórias. Na Itália, o crossover entre os dois personagens não surgiu de forma episódica, mas como uma minissérie própria, concebida pelo próprio Chiaverotti e publicada entre 2018 e 2020, com começo, meio e fim bem definidos.No Brasil, esse material chegou de forma gradual. O primeiro volume, “Pesadelos & Assassinos Seriais”, foi lançado em setembro de 2024. Em agosto de 2025, a Mythos deu continuidade à publicação com uma segunda edição, reunindo “O Ceifador” e “Retorno à Escuridão”. Pouco depois, em outubro do mesmo ano, saiu o terceiro encontro, “Mister Fear & A Culpa é do Medo”, completando a adaptação brasileira de uma minissérie que, na origem, sempre foi pensada como tal — ainda que por aqui tenha se revelado aos poucos, quase como quem não faz questão de chamar muita atenção para si.
Ao longo de quase quatro décadas, Dylan Dog sempre retornou ao mesmo ponto de partida: o pesadelo. No primeiro número, eram os mortos-vivos; anos depois, o futuro possível de Planeta dos Mortos apenas confirmou que aquele aviso inicial não havia sido exagerado. No Brasil, a trajetória do personagem acabou espelhando esse movimento. A cada longo período de ausência, Dylan Dog parecia definitivamente enterrado nas bancas — apenas para ressurgir, como convém, em outro formato, por outra editora, com o mesmo ar melancólico de quem nunca esteve realmente em repouso.
Nesse vai-e-volta editorial, o personagem atravessou séries regulares, especiais, omnibuses, graphic novels de luxo, crossovers e até o território da paródia. Como curiosidade final, a Editora Abril chegou a publicar a sátira “Dylan Mouse” em revistas da linha Mickey — e, posteriormente, reuniu essa e outras duas paródias de personagens da Bonelli em um encadernado de luxo em capa dura, encerrando a trajetória brasileira do Investigador do Pesadelo com uma piscadela inesperada.Talvez seja esse o destino natural de Dylan Dog: morrer e voltar quantas vezes forem necessárias. Afinal, no seu universo — e curiosamente também no nosso mercado editorial — nada permanece enterrado por muito tempo.
DYLAN DOG NOS CINEMAS
Dylan Dog ganhou uma adaptação cinematográfica em 2010, dirigida pelo inexpressivo Kevin Munroe e “estrelada” pelo ainda mais inexpressivo Brandon Routh — curiosamente um ator que já havia encarnado um dos super-heróis mais conhecidos dos quadrinhos e que aqui parece cumprir a ingrata missão de provar que nem todo personagem sobrevive à travessia para o cinema. Não chega exatamente a “afundar” o personagem, mas tampouco o ajuda a boiar: o filme simplesmente passa, sem impacto, sem identidade e sem deixar rastros.
A produção é norte-americana e teve pouca repercussão, servindo basicamente como ponto de discórdia entre fãs, divididos entre odiar o resultado ou preferir ignorá-lo por completo. Eu pertenço ao segundo grupo. Nunca assisti, apesar de manter o Blu-ray na estante — coisa típica de colecionador que já desistiu de justificar seus próprios critérios.
Uma rápida olhada no IMDb não ajuda a melhorar o cenário: não há menção a personagens fundamentais como Groucho ou o inspetor Bloch, o que costuma ser um sinal preocupante — ou, no mínimo, um indício de que alguém achou que “simplificar” era uma boa ideia. Raramente é.
Na verdade, eu nem pretendia falar desse filme. Ele só entra aqui por contraste, porque existe “Pelo Amor e pela Morte” (Dellamorte Dellamore, 1994) — e este, sim, é considerado por muitos o verdadeiro filme de Dylan Dog, mesmo sem se chamar Dylan Dog.Baseado em um romance de Tiziano Sclavi publicado em 1991 e inédito no Brasil (alô Editoras !) , o filme reflete com precisão a chamada “filosofia sclaviana”, tão presente nos quadrinhos. Está ali a dualidade entre amor e morte — dell’amore e della morte, um jogo de palavras que Sclavi jamais resistiria a explorar — vivida por Francesco Dellamorte de forma intensa, obsessiva e pouco prática, como convém.
Auxiliado pelo abobalhado Gnagi, que não tem absolutamente nada de Groucho (nem física, nem espiritualmente), Dellamorte é o guardião do cemitério de Buffalora, uma pequena cidade do norte da Itália onde, por razões nunca explicadas — e nem questionadas —, os mortos se levantam de suas sepulturas. Cabe a ele destruí-los. Curiosamente, Dellamorte não parece interessado em entender o fenômeno: ele simplesmente atira e ama. Nessa ordem variável, mas com igual dedicação.
A bela (e dizendo bela estou sendo muito modesto e recatado) Anna Falchi interpreta a personagem feminina sem nome cuja função principal é complicar ainda mais a vida de Dellamorte, algo que ela faz com eficiência admirável. Bela demais para ser apenas “bela”, ela funciona como encarnação do desejo, da perda e da repetição — conceitos que o filme trata com uma seriedade quase absurda, o que só torna tudo mais eficaz.
E então há Rupert Everett. É ele quem interpreta Francesco Dellamorte, em uma escolha que não poderia ser mais acertada. Everett foi, durante anos, o modelo visual assumido para o personagem nos quadrinhos, e aqui empresta ao papel exatamente o que Dylan Dog sempre exigiu: elegância cansada, ironia contida e a sensação permanente de alguém que já entendeu o mundo — e não gostou muito do que viu.
Sem falar no Fusca do personagem que só faltou a placa DY 666. Por isso, Dellamorte Dellamore carrega, para muitos leitores e espectadores, um selo tácito de legitimidade: não é oficialmente Dylan Dog, mas é tudo o que o filme de 2010 não conseguiu ser. Um pesadelo romântico, melancólico e absurdamente coerente em sua própria lógica. Como o próprio personagem.
Talvez o cinema seja, no fim das contas, apenas mais um dos lugares onde Dylan Dog pode — ou não — existir. Quando funciona, como em Dellamorte Dellamore, não é porque respeita regras de adaptação, fidelidade ou cânone, mas porque compreende o essencial: o horror como estado de espírito, o amor como armadilha recorrente e a morte como presença cotidiana, quase burocrática. Quando falha, falha justamente por tentar explicar demais, iluminar demais, tornar “funcional” algo que sempre viveu melhor nas sombras.
Nos quadrinhos, Dylan Dog jamais precisou de coerência absoluta, continuidade rígida ou finais definitivos. Morreu, enlouqueceu, envelheceu, foi esquecido, reformulado, relançado, interrompido e retomado inúmeras vezes — na ficção e fora dela. No Brasil, sua trajetória editorial reflete essa lógica com precisão involuntária: longos silêncios, retornos inesperados, formatos distintos, promessas de estabilidade que nunca duram muito. Como o próprio personagem, Dylan Dog parece sempre à beira do desaparecimento, apenas para reaparecer em seguida, intacto em sua melancolia.
Talvez seja por isso que ele continue funcionando. Porque Dylan Dog não oferece conforto, não promete ordem e nunca sugere que os pesadelos possam ser resolvidos de forma definitiva. No máximo, investigados. Às vezes compreendidos. Raramente vencidos. E, quando tudo parece terminar — seja no cinema, nos quadrinhos ou nas bancas brasileiras — sempre resta a sensação de que aquilo não era exatamente um fim, apenas mais uma pausa incômoda entre um pesadelo e o próximo.
Afinal, no universo de Dylan Dog, nada permanece enterrado por muito tempo. Nem os mortos. Nem as histórias. Nem o próprio personagem.






























