Imagine uma manchete que aparece em todos os sites: crianças sendo assassinadas a cada dia, com fotos de seus rostos, nomes e suas histórias, sua infância feliz sendo abruptamente interrompidas. A reação seria imediata. Hashtags, avatares em preto e branco, discursos ardentes em prol da infância. O mundo — sempre tão observador, tão preocupado, tão eticamente preparado — se juntaria em um fluxo imparável de revolta. No fim das contas, estamos na era da informação completa. Não há nada que escape. Nada mais é ignorado.
Com a internet nas mãos e a verdade a apenas um clique de distância, um massacre assim não duraria uma semana, certo? As pessoas estão se tornando mais conscientes, mais críticas e cada vez menos suscetíveis à manipulação. Particularmente quando recebem, de maneira didática e simplificada, áudios de dois minutos e cartões coloridos que detalham precisamente quem são os vilões e quem são os heróis.
Porque, em essência, todos buscam apenas “proteger nossas crianças”. Quem estaria disposto a se opor? Todas as pessoas estão “contra o abuso sexual de menores”. Quem teria a audácia de contradizer? Dessa forma, cria-se uma moral que seleciona: de um lado, aqueles que se dizem defensores da virtude; do outro, uma imagem exagerada de decadência moral. Não se discute — classifica-se. Não se debate — teme-se. O medo, quando bem apresentado, se espalha rapidamente.
É impressionante como o fantasma vermelho continua a perturbar jantares e conversas em grupos de WhatsApp com a mesma força de antigamente. O comunismo parece estar sempre à espreita, prestes a invadir supermercados e confiscar panelas — mesmo quando o recente histórico demonstra bancos lucrando, um mercado aquecido e políticas econômicas distantes de qualquer revolução proletária. Entretanto, o pânico gera mais envolvimento do que a sutileza.
Estamos interconectados, informados, capacitados e — por que não? — empoderados (ainda que a palavra soe quase como um palavrão para alguns, talvez os mesmos que convenientemente faltaram à aula quando o assunto era interpretação de texto). Nunca foi tão simples obter informações, comparar fontes e entender contextos. Mesmo assim, talvez seja mais fácil lidar com versões resumidas, certezas absolutas e adversários claramente identificados. A realidade é intricada; o card compartilhável, não. Quando se trata de complexidade e slogan, o slogan geralmente sai por cima.
Então, os números aparecem. Sempre aparecem. Arranjados, passíveis de verificação, com formato adequado para serem representados em um gráfico e suficientemente neutros para não exigirem quietude.
O UNICEF estima que, durante certas fases do conflito entre outubro de 2023 e meados de 2025, aproximadamente 28 crianças palestinas foram mortas a cada dia em Gaza — uma sala de aula inteira eliminada a cada dia. De acordo com outras estimativas internacionais, fundamentadas em dados oficiais e relatórios de organizações humanitárias, mais de 18 500 crianças foram mortas nesse período. A Save the Children menciona que pelo menos 20.000 crianças morreram ao longo de quase 23 meses de guerra, o que equivale a cerca de uma criança por hora.São informações acessíveis ao público. Estão à disposição. É possível consultá-los. Partilhados. Comentados.
Mas números, por definição, não têm rosto.
É precisamente a fotografia — o enquadramento literal da imagem, o que recebe uma moldura, um destaque, o que se aproxima — que muda tudo.
Quando a violência se dirige a certos alvos, a cobertura muda de forma. Ele elabora títulos como: “Quem eram os funcionários da embaixada de Israel mortos em Washington” ou “Criança de 10 anos, dois rabinos, um sobrevivente do Holocausto: quem são as vítimas de ataque a tiros na Austrália”. Existem nomes. Existem fotos. Existem biografias. Há um detalhado processo de reconstrução de trajetórias que foram interrompidas. A tragédia adquire identidade, lembranças e individualidade.
Em Gaza, com frequência, o formato é outro: “2 000 pessoas morreram em ataque”. Ou “bombardeio deixa centenas de mortos”. Pessoas. Centenas de pessoas. Centenas de milhares. Uma massa sem forma definida. As crianças — os mesmos 28 por dia — estão mergulhadas no total. Não vemos nomes, a mochila escolar, o uniforme, o sorriso desajeitado de uma foto de aniversário. Vemos a estatística.
Quando a morte se torna uma abstração, sentir empatia passa a ser uma escolha.
Portanto, indivíduos que estão extremamente conectados, bem-informados e convencidos de que dominam a verdade, acabam canalizando sua indignação em direção a ameaças que apenas existem em sua imaginação, fantasmas ideológicos meticulosamente alimentados, enquanto números reais continuam a aumentar — de forma silenciosa, constante e normalizada.
Os dados estão acessíveis. A diferença está no enquadramento. E, muitas vezes, a disposição de enxergar o que está diante dos olhos.
Ironicamente, se posicionam de forma automática ao lado do Estado de Israel em qualquer situação, não por uma análise geopolítica sólida, mas por uma adesão ideológica e uma interpretação religiosa do conflito que é utilizada de maneira estratégica.os mesmos que relativizam ou se recusam a se solidarizar com os judeus vítimas do Holocausto são, muitas vezes, os primeiros a declarar apoio irrestrito às ações de um governo israelense em contexto de massacre. O que parece não ser uma empatia histórica com os judeus, mas uma afinidade política do momento. Defende-se o Estado — ou, mais precisamente, um governo particular — e não os milhares de judeus que também padecem, questionam ou se opõem aos abusos de seus próprios líderes.
O paradoxo é raramente notado.
O mesmo grupo que torna um genocídio histórico algo trivial se apresenta como o defensor ferrenho de outro povo — contanto que o inimigo possa ser simplificado a uma caricatura. No contexto desse discurso, o palestino não é mais um civil, uma criança, um professor ou um médico. Classificam-no como “terrorista”. Uma identidade de grupo simplificada, prática e facilmente compartilhável como um meme.
Esse método não é recente. É parecido com o raciocínio que justifica operações violentas em favelas sob a lógica de que “lá só tem bandido”. Quando toda a população é agrupada sob um único rótulo, a individualidade se perde. Quando a individualidade se extingue, a empatia também se vai.
“A Voz de Hind Rajab”, que este ano representa a Tunísia na corrida ao Oscar de Filme Internacional, narra a história da garotinha de cinco anos que estava num carro com os tios e quatro primos quando tanques israelenses dispararam mais de 300 tiros contra o veículo, matando quase todos instantaneamente. Hind e uma prima de 15 anos, que conseguiu contatar um parente na Alemanha, eram as únicas que restaram.
O filme emerge precisamente como uma resposta à tendência de reduzir indivíduos a categorias abstratas.
O roteiro concentra-se nesses voluntários e se estrutura quase exclusivamente a partir das vozes das gravações reais — daí o título. Não existe um espetáculo de guerra. Não existem grandes cenas de batalha. Há rádio, silêncio, respiração, tensão que se acumula. Os planos fechados intensificam a sensação de aprisionamento, à medida que nos frustramos cada vez mais com a burocracia que exige a aprovação de Israel para que o resgate ocorra.
Há tempos se debate o que caracteriza um documentário. A mera presença de uma câmera é suficiente para modificar a conduta de quem está sendo filmado; o “real” passa a ser performado. No entanto, na ilha de edição, o conteúdo gravado pode ser organizado de forma a criar significados, ressaltar momentos de silêncio, gerar tensões — e, assim, influenciar a maneira como o público percebe. “A Voz de Hind Rajab” reside exatamente nessa área ambígua.
É um fato real, fundamentado em gravações verdadeiras, aproveitando a própria voz de Hind como núcleo dramático; no entanto, ao reencenar os eventos com atores e criar uma trama narrativa meticulosamente elaborada, ganha também o caráter de ficção. Não se trata de uma contradição — é uma escolha artística que admite que toda representação da realidade é mediada. O filme não se apresenta como um documento puro; ele admite que o cinema, mesmo ao se basear na realidade, reconfigura o mundo para torná-lo compreensível. É o poder do cinema.
Omar Alqam (Malhees) funciona como o alter ego do expectador: é a pressa moral, o desespero pela espera. Mahdi Aljamal (Hlehel), atuando como superior hierárquico, simboliza a dura realidade de quem está ciente de que enviar equipes de socorro pode resultar em um aumento no número de fatalidades — homens que também têm suas próprias famílias. O verdadeiro conflito dramático vai além do que acontece com Hind; trata-se da decisão impossível entre agir ou salvar outras vidas.A estrutura é simples, quase minimalista, mas é justamente essa contenção que lhe confere força. O filme se sustenta na brutalidade do que escutamos. É impossível que alguém com um mínimo de sensibilidade não se sinta tocado pela voz da menina, enquanto ela tenta entender o que está acontecendo ao seu redor. A diretora Ben Hania recorre, em diversas ocasiões, às vozes reais da equipe que participou do resgate da menina. “Às vezes, o que você não vê é mais devastador do que o que você vê” , diz a diretora em entrevista.
Todos os trabalhos anteriores de Ben Hania foram lançados nos Estados Unidos por grandes nomes da indústria, mas “A Voz de Hind Rajab” enfrentou resistência. De acordo com relatos ao Deadline, possíveis compradores se retiraram “por medo e/ou por discordarem da posição política” do longa. Outros reconheceram que o filme seria “foco de controvérsia” e poderia ofuscar lançamentos da temporada. Não se tratava de uma questão de excelência técnica — mas sim da gravidade do assunto.
E isso diz muito.
Isso porque o filme não se baseia em uma tese geopolítica abstrata. Ele restitui à criança o que facilmente poderia ser apenas um número em uma estatística. Ele força o público a ficar atento e ouvir. É quando realmente escutamos que a abstração se dissolve.
Trata-se de um filme que é tanto urgente quanto essencial. Arduo de ver. Também é complicado inserir isso em histórias reconfortantes. É possível que, por essa razão, ele esteja em risco de ser ignorado precisamente por aqueles que mais deveriam enfrentar esse tipo de situação. Num tempo de imagens de IA compartilhadas para validar identidades ideológicas e convicções morais, um filme que pede por uma empatia real chega a ser quase subversivo.
Embora eu tenha certeza de que essas mesmas pessoas não teriam a capacidade de compreender esse golpe de realidade. São indivíduos que adoram dizer palavras como "narrativas" e "Superestimado", que optam por compartilhar imagens geradas por inteligência artificial, reafirmando seu papel de “Conserva em lata”, enquanto se deixam levar pela obsessão de caçar supostos terroristas ou traficantes nas favelas, sem perceber que a crítica não se dirige à Família em si, mas à concepção de uma Família fundamentada em preconceitos e intolerância. Se a sua família é tradicional e conservadora em relação à sua fé, isso é excelente. O que se torna problemático é quando essas características que você possui servem apenas como um disfarce para a intolerância, em contraste com a verdadeira liberdade de expressão.
De fato, quando a Fé se reduz, a tolerância tende a aumentar. Talvez seja isso que precisamos. Menos crença e mais aceitação. Porque as mesmas pessoas que afirmam seguir Cristo não conseguem compreender que, ao entoar a frase “amar como Jesus Amou” e reiterar o “não julgues para não ser julgado”, essas palavras não deveriam ser apenas uma frase estampada em uma camiseta, mas sim uma verdadeira bússola moral. Lamentavelmente, é mais comum encontrar essa compreensão em ateus do que entre aqueles que se identificam de outra forma por conveniência e tradição.




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