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domingo, 22 de fevereiro de 2026

Nausicaä do Vale do Vento


O objetivo desta matéria é abordar rapidamente Nausicaä. Antes disso, farei um breve resumo da trajetória de Hayao Miyazaki na carreira, sem entrar em muitos detalhes. Não se trata de um texto que analisa minuciosamente cada aspecto da carreira do diretor, mas sim de oferecer ao leitor um contexto.

Hayao Miyazaki e o Studio Ghibli sempre foram sinônimo de qualidade, atraindo até mesmo aqueles que não eram fãs de animações japonesas. Apesar de já ser um diretor reconhecido e de ter diversos filmes lançados no Brasil, por muito tempo ele foi considerado um nome cult por aqui — admirado e respeitado, mas ainda limitado a um público mais restrito.

 Sua entrada definitiva no grande público brasileiro ocorreu com a estreia de A Viagem de Chihiro. O filme ganhou o Oscar de Melhor Animação — sendo a primeira produção que não é falada em inglês a conquistar essa categoria — e também recebeu o prêmio principal do Festival de Berlim em 2002, que foi compartilhado com Domingo Sangrento, de Paul Greengrass, diretor que, a partir desse momento, também ampliou sua presença em Hollywood. Foi então que Miyazaki deixou de ser apenas uma descoberta de cineasta e passou a transitar com desenvoltura no mainstream. 

Miyazaki começou sua trajetória dirigindo animes e também atuando como autor de quadrinhos. Em 1979, lançou seu primeiro longa-metragem, Lupin III: O Castelo de Cagliostro. O filme não foi um grande sucesso de bilheteira na época, mas destacou o talento do diretor e ajudou a firmar seu nome no setor.
 
A partir de 1982, quando já contava com 45 anos — portanto, distante da figura do jovem prodígio — Miyazaki deu início a uma nova fase. O editor Toshio Suzuki, que já o reconhecia por O Castelo de Cagliostro e pela série Conan, o Garoto do Futuro, o convidou para iniciar a produção de Nausicaä do Vale do Vento.
 
A própria protagonista tem o nome que remete à jovem princesa feácia de A Odisseia, de Homero, que encontra Ulisses depois do naufrágio na ilha de Esqueria.  Nausicaä, filha do rei Alcínoo e da rainha Arete, representa a hospitalidade, a nobreza e um amor jovem quase platônico, que se assemelha à deusa Ártemis. No entanto, Miyazaki combina essa referência clássica com aspectos do folclore japonês, incluindo características de uma princesa que está em sintonia com a natureza e os insetos.

Com evidente influência visual na obra de Moebius, a Nausicaä de Miyazaki tem a missão de defender o Vale do Vento em meio a uma guerra entre clãs e à crescente ameaça do Mar Podre — uma floresta tóxica que libera gases mortais e habita insetos gigantes, avançando lentamente e arrasando cidades em seu percurso. A fricção entre a devastação ambiental e o conflito humano, que permeia toda a obra do diretor, já estava presente de forma clara.
 
Esse aspecto ecológico, que hoje é amplamente debatido, sempre foi uma característica distintiva do trabalho de Miyazaki. A proteção da natureza, o conflito entre a sociedade e o meio ambiente, a condenação das guerras e das estruturas econômicas que as sustentam, juntamente com a presença de personagens femininas robustas e multifacetadas, constituem um conjunto de temas que perpassa toda a sua obra cinematográfica.

Miyazaki não deixou de fazer animação durante a criação do mangá e, em 1984, lançou a adaptação animada de Nausicaä, que abrange os dois primeiros capítulos que haviam sido publicados até aquele momento. O longa seria sua primeira grande animação, definindo uma estética e uma visão de mundo que seriam exploradas ao longo dos anos.  Em 1985, um ano após a estreia, foram fundados os estúdios Ghibli.

A série de quadrinhos, por outro lado, foi mais lenta e ambiciosa, terminando somente em 1994, doze anos após seu início. O mangá ampliou o universo do filme, explorando em profundidade conflitos, personagens e questões filosóficas que a animação apenas mencionava.

No Brasil, a Conrad foi responsável pela publicação, mas parou após cinco volumes, deixando dois para finalizar a série.  Isso causou um certo desconforto entre os detentores dos direitos japoneses — conhecidos por serem bastante exigentes em relação às suas obras — o que dificultou novas tentativas de publicação por vários anos. Foi só recentemente que a JBC conseguiu dar continuidade ao projeto e finalizar a série completa em sete volumes, em um formato simples, capa cartão, sem muitos elementos gráficos. Uma opção discreta, que valoriza o conteúdo e não encarece a obra de forma desnecessária — embora, sejamos francos, Nausicaä merecesse mais requinte do que muitos outros títulos que atualmente recebem esse tipo de tratamento.

Grandes autores tendem a trazer, de obra em obra, certos temas que parecem persegui-los, obsessões pessoais.  No cinema de Martin Scorsese, a culpa e a religiosidade católica permeiam suas criações. No trabalho de Hitchcock, o medo e a paranoia se manifestam em enredos meticulosamente elaborados. No cinema de Truffaut, a paixão pelo próprio ofício e pela juventude inquieta nunca são ausentes. Elas não precisam de publicidade — são marcas que falam por si mesmas.

A situação com Miyazaki é semelhante. Durante toda a sua carreira, surgem repetidamente protagonistas femininas poderosas, que lideram histórias que desafiam o papel passivo que costuma ser atribuído às heroínas. Retorna também a dicotomia entre humanidade e natureza, bem como a inquietação ecológica que permeia universos arrasados pela guerra, pela ganância e pelo progresso desmedido da tecnologia. Em Nausicaä, esses aspectos já estão bem definidos: uma jovem que não lidera com poder, mas com compaixão, e um mundo machucado que precisa de mais entendimento do que vitória. Ali está traçada a espinha temática que acompanhará Miyazaki pelos próximos filmes.

Ler ou ver Nausicaä agora não é só descobrir uma fase embrionária do caminho de Miyazaki, mas conviver com uma obra que continua viva, pulsante, contemporânea. Quer seja nos quadrinhos — que são mais amplos e profundos — quer na animação, que é mais concisa e direta, estamos diante de uma história que ainda se conecta a temas ecológicos, políticos e humanos que nos afetam até hoje. Se você quer entender o que torna Miyazaki um autor, Nausicaä não é uma obra antiga ou uma parte insignificante de sua filmografia: é fundamental, é a origem, e deve ser explorada com a paciência e o cuidado que sempre exigiu.

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