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segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Guerra Nas Estrelas - O Despertar da Força (O Melhor Capitulo da Saga ?)

  CONTEXTO

 
  A estreia do novo capítulo da saga Guerra nas Estrelas nos cinemas reacendeu uma velha polarização entre o entusiasmo nostálgico dos fãs e a crítica quanto à repetição de fórmulas consagradas. Curiosamente, aquilo que o longa tem de mais eficiente — seu respeito à estrutura clássica e à mitologia original — também revela sua principal limitação: a ausência de ousadia criativa.

Desde que a Disney adquiriu a Lucasfilm em 2012, houve receios de que o estúdio imprimisse sua marca infantilizada à franquia, transformando-a em mais um produto plastificado de seu extenso catálogo. A crítica, embora previsível, não resiste a uma contradição: o próprio George Lucas já havia iniciado esse processo de diluição da essência da série ao revisar continuamente os filmes originais e lançar uma trilogia prelúdio repleta de efeitos digitais problemáticos e personagens caricatos.

Vale lembrar que a Disney, em suas outras aquisições, como a Pixar ou a Marvel Studios, costuma manter certa autonomia criativa para preservar a identidade das marcas. No caso da Pixar, inclusive, a qualidade narrativa frequentemente supera a das animações produzidas sob o selo Disney. Já a Marvel, mesmo com sinais de esgotamento narrativo nos últimos anos, consolidou um modelo comercial de sucesso indiscutível.

Se houver quem acuse o novo Guerra nas Estrelas de "excessivamente Disney", talvez esses espectadores tenham esquecido de como O Retorno de Jedi (1983) já flertava com soluções fáceis e personagens direcionados ao público infantil, algo intensificado em A Ameaça Fantasma (1999), onde a presença de Jar Jar Binks marcou um dos momentos mais controversos da saga. Assim, o argumento da “disneyficação” soa mais como um efeito psicológico da marca do que um traço real do novo filme.

As tentativas anteriores de George Lucas de revisitar sua obra-mestra na trilogia prelúdio foram notoriamente problemáticas. A estética plástica dos cenários digitais, os diálogos carregados de jargões pseudo-políticos e um elenco renomado mal conduzido — com atuações apagadas de Natalie Portman, Ewan McGregor e Liam Neeson — resultaram em filmes que, apesar do sucesso comercial, ficaram aquém das expectativas de um público que ansiava por profundidade e inovação.

Lucas, ao contrário de cineastas como Francis Ford Coppola, que segue experimentando em projetos autorais mesmo com resultados incertos, sempre alegou querer fazer "filmes pequenos", mas nunca o fez. Detentor de uma das maiores franquias da cultura pop, seguiu teimosamente no controle de sua criação, ignorando alertas de amigos e críticos. Sua insistência em manter Jar Jar Binks, mesmo após a rejeição quase unânime, é exemplo da sua relutância em admitir erros.

Com a aquisição da franquia, a Disney escolheu para a direção J.J. Abrams, cineasta que já havia demonstrado sua reverência ao cinema dos anos 1980 em Super 8, uma homenagem clara aos filmes de Steven Spielberg. Abrams também havia revitalizado Jornada nas Estrelas — uma franquia tradicionalmente mais cerebral e menos aventureira — aplicando uma dinâmica mais próxima de Guerra nas Estrelas, o que tornou sua escolha como diretor algo quase inevitável.

O novo Guerra nas Estrelas, portanto, carrega o peso da responsabilidade histórica: agradar a legiões de fãs, retomar a identidade perdida na trilogia prelúdio e ao mesmo tempo atrair uma nova geração de espectadores. O resultado? Um filme tecnicamente impecável, reverente ao cânone, emocionalmente eficiente — mas que, justamente por ser tão respeitoso, evita correr riscos reais. E talvez esse seja seu único e maior pecado.


O DESPERTAR DA FORÇA

Com o anúncio oficial do novo Guerra nas Estrelas, coube a J.J. Abrams — conhecido tanto por ressuscitar franquias quanto por ser um entusiasta declarado dos anos 80 — a missão de pilotar a espaçonave mais icônica do entretenimento contemporâneo. Para isso, ele não poupou esforços em acenar tanto aos veteranos quanto aos novos recrutas da saga.

Abrams convocou os pesos-pesados da trilogia original: Harrison Ford, Mark Hamill e Carrie Fisher, além dos eternos coadjuvantes Anthony Daniels (C-3PO) e Peter Mayhew (Chewbacca), compondo uma estratégia que misturava fan service com continuidade narrativa. Ao mesmo tempo, garantiu que usaria uma abordagem híbrida nos efeitos visuais — combinando cenários práticos e maquetes com CGI — em uma tentativa deliberada de resgatar a textura visual clássica dos primeiros filmes, enquanto ainda entregava um espetáculo tecnicamente compatível com as exigências do século XXI.

A narrativa se situa cerca de três décadas após os eventos de O Retorno de Jedi, o que justifica, sem maquiagem digital embaraçosa, o envelhecimento natural dos personagens originais. Luke Skywalker, agora uma lenda ausente, teria tentado reconstruir a Ordem Jedi treinando novos aprendizes, até ser traído por um deles — uma alusão deliberada e algo enigmática a uma queda para o Lado Sombrio. Dominado pela culpa, Skywalker desaparece, optando pelo autoexílio. Esse desaparecimento passa a ser o eixo da trama: tanto a Primeira Ordem — sucessora ideológica e bélica do antigo Império — quanto a Resistência (remodelação da Aliança Rebelde) buscam por ele com finalidades opostas.

Nesse universo onde a política galáctica parece repetir padrões conhecidos, a mensagem é sutil, mas presente: mudar nomes não transforma estruturas. O Império é agora Primeira Ordem, mas suas práticas continuam sombrias. Talvez soe familiar para certos setores que acreditam que, derrubando um líder político, o país florescerá como Naboo em dias de paz — quando, na verdade, a sombra do Império insiste em pairar sobre qualquer república, ficcional ou não.

O filme inicia com Poe Dameron, piloto da Resistência interpretado com carisma por Oscar Isaac, recebendo fragmentos de um mapa que indicaria o paradeiro de Luke Skywalker. A ação se passa em Jakku, planeta árido e arenoso que remete inevitavelmente a Tatooine, como uma espécie de reedição segura do ponto de partida mítico da saga. A nostalgia é calculada. A presença breve de Max von Sydow, mesmo em um papel pequeno, fornece à abertura uma aura de gravidade semelhante à que Alec Guinness trouxe à trilogia original.

Antes mesmo da entrada em cena de Han Solo e Chewbacca, já está claro que o filme sabe o território que pisa. Não se trata apenas de uma continuação, mas de uma retomada simbólica da mitologia espacial criada por George Lucas. E se a promessa era devolver a saga ao seu espírito original, Abrams consegue, ao menos neste primeiro momento, nos fazer sentir que — gostemos ou não dos rumos — estamos de volta para casa.



Se George Lucas parecia ter dificuldades em extrair grandes performances até mesmo de atores consagrados — basta lembrar do tom robótico de Natalie Portman ou da expressão estoica de Liam Neeson — J.J. Abrams mostra logo de início que sabe como conduzir emoções, mesmo quando seu ator principal está coberto da cabeça aos pés.

Na abertura do filme, um stormtrooper, ainda sem identidade revelada, é mergulhado no horror de um massacre. Não há diálogos profundos, apenas planos fechados e linguagem corporal precisa que transmitem um desconforto crescente. Em meio a uniformes padronizados e capacetes que escondem expressões, Abrams já apresenta o que Lucas nunca conseguiu fazer em três episódios da trilogia prelúdio: um stormtrooper com empatia. É nesse momento também que o novo vilão, Kylo Ren, surge em cena com autoridade e imponência — assim como Darth Vader fazia em Uma Nova Esperança, sem rodeios ou construção gradual. A ameaça está ali desde o primeiro frame.

O roteiro introduz, de forma quase discreta, elementos que contradizem suposições populares formadas ao longo dos anos. Um exemplo é a ideia de que todos os stormtroopers são clones, herança das Guerras Clônicas. Um diálogo breve trata da possibilidade de retomar o uso de clones, indicando que os soldados atuais são, sim, humanos recrutados e condicionados. O detalhe é pequeno, mas significativo para os fãs atentos ao cânone expandido.

Em seguida, conhecemos a nova protagonista da franquia: Rey, introduzida de forma espelhada ao stormtrooper desertor, também sob uma máscara. O símbolo é forte. Mas, diferentemente de tantas personagens femininas anteriores, Rey logo descarta o acessório — e o papel passivo de "princesa em perigo" com ele. A heroína assume protagonismo sem precisar ser apresentada como tal em letras garrafais. O filme não é panfletário, mas entende os tempos em que vive: há espaço para uma mulher forte que não precisa ser salva, e que contesta, inclusive, esse impulso — como na cena em que é puxada pela mão por Finn e imediatamente o corrige. Um toque sutil, mas eficaz.

Ainda assim, essa nova centralidade pode causar desconforto a alguns espectadores menos afeitos à ideia de que personagens femininas também podem ser complexas e poderosas. Na luta final com Kylo Ren, Rey o enfrenta de igual para igual, o que para alguns poderá parecer inverossímil. Mas Abrams planta as pistas com cuidado: Kylo, embora poderoso, é desequilibrado e vulnerável, enquanto Rey, instintiva e centrada, mostra-se conectada à Força de maneira inesperada.

O antagonista, interpretado por Adam Driver, é um dos pontos altos do filme. Kylo Ren carrega em si um paradoxo: é ao mesmo tempo ameaçador e imaturo. Seu uso da máscara é revelador — não apenas como um item funcional, mas como símbolo de insegurança, quase um cosplay sombrio de seu ídolo Darth Vader. Abrams explora esse aspecto psicológico com inteligência. Em dois momentos cruciais — o confronto com Han Solo e o embate final com Rey — Kylo é despido de seu disfarce, literal e emocionalmente. Quando seu pai o confronta, dizendo “tire essa máscara, você não precisa disso”, há mais do que um apelo paternal: há o desmonte simbólico de sua persona artificial. E, sem a máscara, Ren jamais parece tão vulnerável.

Na batalha final, essa dualidade se intensifica. Ao ser desafiado por Rey, ele deixa de ser o vilão imponente para se tornar o jovem confuso que se esconde atrás de um capacete e uma linhagem. A cena — uma das mais bem coreografadas da franquia recente — tem peso dramático e visual, amparada por uma trilha sonora eficaz e montagem precisa. E se Rey for, como especula-se, parte da linhagem Skywalker, então temos aqui não apenas uma heroína à altura, mas possivelmente a mais poderosa da saga. Um detalhe que certamente fará muito fã conservador espumar nas redes sociais.

Em resumo, J.J. Abrams entrega um primeiro ato que compreende o universo em que está inserido, respeita seus símbolos, renova arquétipos e atualiza a narrativa sem desconstruí-la gratuitamente. E se alguns fãs mais resistentes sentirem urticária com as novas direções, talvez seja hora de lembrar que Guerra nas Estrelas sempre foi, acima de tudo, uma história de transformação — pessoal, política e mítica.



Ao optar por retornar às origens com maquetes, cenários físicos e efeitos visuais práticos, J.J. Abrams deixou claro que seu objetivo era resgatar o espírito da trilogia clássica de Guerra nas Estrelas. No entanto, é irônico que justamente o elemento mais artificial do novo episódio seja também o mais frágil visualmente: o Líder Supremo Snoke, personagem 100% digital e sem textura convincente. Interpretado por Andy Serkis — cada vez mais consolidado como uma espécie de "Johnny Depp da captura de movimento" — Snoke carece de peso dramático e presença estética. Sua aparência digitalizada remete mais a um vilão genérico de videogame do que ao comandante sombrio que deveria simbolizar a ameaça definitiva da Primeira Ordem.

Essa fragilidade é agravada por uma das sequências mais constrangedoras do filme: o discurso inflamado da Primeira Ordem, encenado com gestos coreografados e uma direção de arte que remete explicitamente à estética nazista. A tentativa de criar um paralelo visual com os regimes totalitários do século XX é compreensível, mas a execução escorrega no exagero. Domhnall Gleeson, como o General Hux, entrega uma performance histriônica que parece parodiar o estilo de Christoph Waltz — porém sem o refinamento cínico que fez do ator austríaco um mestre das palavras afiadas. O resultado soa teatral demais até mesmo para o universo hiperbólico de Guerra nas Estrelas.

Abrams entende o peso simbólico dos personagens clássicos e, ciente da expectativa do público, opta por reapresentá-los com parcimônia. O retorno de Han Solo, Chewbacca e da lendária Millennium Falcon é entregue em doses homeopáticas, cuidadosamente inseridas ao longo do segundo ato. Ainda que Harrison Ford e Carrie Fisher revelem certa canastrice — compreensível após décadas distantes desses personagens —, a presença deles carrega uma carga emocional legítima. O simples reencontro dos rostos familiares com os cenários icônicos já é o suficiente para arrancar um sorriso do público.

Contudo, a forma como a Millennium Falcon é reencontrada pelo novo trio protagonista e imediatamente retomada por Han e Chewie revela um roteiro pouco inspirado. A coincidência é forçada e o timing, artificial. Abrams tenta compensar com diálogos ágeis e piadas bem colocadas, e em parte consegue. A explicação posterior — quando Han comenta que, se eles acharam a nave tão rapidamente, a Primeira Ordem também poderia — é uma tentativa de justificar a coincidência dentro da lógica narrativa. Não convence plenamente, mas pelo menos tenta.

Há, no entanto, uma escolha acertada na construção dos personagens: trazer Han Solo e Chewbacca de volta às suas raízes como contrabandistas. É coerente com a trajetória do personagem e com a sua natureza escorregadia. Como diz o ditado, pau que nasce torto... E Solo, ao que tudo indica, manteve-se fiel a sua reputação de trambiqueiro com um coração imprevisível. Entre as entrelinhas do roteiro, é possível deduzir que sua relação familiar nos últimos 30 anos não foi exatamente exemplar — o que apenas reforça seu perfil tragicômico.

Outro acerto está na trilha de John Williams, utilizada de forma sutil e eficaz. Um exemplo notável é a cena do capacete derretido de Darth Vader: a música entra não para reforçar a ação, mas para ampliá-la emocionalmente. É um momento de reverência que estabelece o peso simbólico daquele objeto — e do legado que carrega.

O sabre de luz, que pertenceu a Luke e antes a Anakin, surge misteriosamente em um porão, remetendo diretamente à cena onírica de O Império Contra-Ataca, quando Luke enfrenta sua própria imagem sob a máscara de Vader. Aqui, o roteiro propõe uma rima temática clara, mas evita explicações fáceis. Quem guardou o sabre? Por que ele está ali? E, principalmente, quem é Maz Kanata — a personagem digital interpretada por Lupita Nyong’o — que faz as vezes de guia espiritual, quase como uma nova versão de Yoda? São perguntas que ficam em aberto, provavelmente a serem desenvolvidas nas continuações, ou, como é praxe na atual lógica transmídia de Hollywood, em romances e HQs canônicas.

Com O Despertar da Força, J.J. Abrams cria uma ponte entre a nostalgia da trilogia original e a necessidade de renovação. Os tropeços existem — alguns digitais, outros narrativos — mas o saldo geral é de um capítulo digno, que compreende a mitologia que carrega e se compromete a honrá-la com seriedade, mesmo que de vez em quando escorregue na reverência excessiva.



  A conexão entre Rey e Luke Skywalker — ainda envolta em mistério no desfecho de O Despertar da Força — soa, à primeira vista, como uma saída narrativa confortável demais. A ideia de que ela possa ser filha (ou até sobrinha) do último Jedi remanescente insere o filme em um território já conhecido e, por isso mesmo, previsível. O incômodo não está apenas na repetição de um elo genealógico, mas na redução de uma galáxia inteira a um punhado de personagens interligados — um problema que lembra o roteiro de O Espetacular Homem-Aranha, onde todos os envolvidos na trama parecem parte de uma mesma árvore genealógica mal disfarçada. Se essa coincidência já soa preguiçosa no contexto de Manhattan, imagine então em uma galáxia “muito, muito distante”.

Ainda assim, é importante lembrar: Guerra nas Estrelas sempre foi, fundamentalmente, a saga da família Skywalker. A história pessoal se confunde com a política galáctica, e os dilemas familiares atravessam os séculos e impérios. Se Rey realmente fizer parte dessa linhagem, isso pode fazer sentido dentro do arco macro da narrativa — ainda que a execução desse vínculo mereça mais sutileza nos capítulos seguintes.

O roteiro deixa muitas perguntas em aberto — e isso não é necessariamente um defeito. Existe uma tendência comum entre espectadores de confundir complexidade com falha narrativa. Só porque uma obra não explica tudo de imediato não significa que ela é mal escrita. A expectativa de respostas imediatas, potencializada pela lógica dos blockbusters modernos, pode atrapalhar a apreciação de uma obra pensada como o primeiro ato de uma nova trilogia.

De fato, o roteiro de O Despertar da Força pode, em uma leitura superficial, parecer derivativo. Há paralelos evidentes com os episódios IV (Uma Nova Esperança) e V (O Império Contra-Ataca): planeta desértico, herói órfão, robô com informação vital, mentor misterioso, nova Estrela da Morte, etc. Porém, J.J. Abrams é hábil o suficiente para transformar essas rimas visuais e narrativas em uma homenagem respeitosa ao legado da série. E, consciente da responsabilidade, convidou ninguém menos que Lawrence Kasdan — coautor de O Império Contra-Ataca e Os Caçadores da Arca Perdida— para colaborar na estrutura dramática. O resultado é um roteiro que equilibra reverência e reinvenção, com diálogos ágeis, humor bem distribuído entre os personagens e uma dinâmica que mantém o ritmo sem atropelar as emoções.

O aspecto técnico reforça essa construção cuidadosa. Os efeitos visuais são bem dosados, sem o excesso digital que prejudicou a trilogia anterior. A direção de arte respeita o legado estético da série e a fotografia encontra equilíbrio entre a novidade e o tradicional. Há espaço para a emoção, para o senso de aventura e, sobretudo, para o encantamento que a série sempre soube despertar.

Ainda assim, é impossível ignorar o maior elefante no set: uma nova Estrela da Morte. A arma planetária da Primeira Ordem — agora com outro nome, mas a mesma função narrativa — surge como um recurso reciclado, sem a mesma tensão que acompanhou as duas versões anteriores. A destruição de mundos já não causa o impacto emocional esperado, e a ausência de desenvolvimento dramático desses alvos transforma o clímax em um espetáculo vazio. É um gesto que parece mais voltado ao “fan service” do que à evolução do universo narrativo.

Apesar disso, o saldo final é positivo. O filme funciona tanto para os fãs veteranos quanto para novos espectadores. Para aqueles que conhecem apenas os filmes e não mergulharam no extenso Universo Expandido, algumas lacunas podem parecer desconcertantes, mas não comprometem a experiência. Já para quem nunca viu um capítulo da saga, O Despertar da Força oferece uma porta de entrada eficiente, clara e envolvente.

Abrams entrega, enfim, um episódio consistente, que respeita o passado sem ignorar as demandas do presente. Pode não ser revolucionário como O Império Contra-Ataca, mas talvez seja o mais equilibrado desde então. Se os novos fãs têm sorte, é porque agora têm um ponto de partida digno — e, com sorte, a saga poderá continuar crescendo com eles.


 NOTA 8

O QUE ESPERAR

Uma das vantagens narrativas da nova trilogia de Guerra nas Estrelas é, ironicamente, a liberdade. Ao contrário da trilogia-prelúdio (episódios I a III), marcada por uma rigidez estrutural previsível — todos já sabiam que Anakin Skywalker acabaria se tornando Darth Vader, que Padmé precisaria morrer, que os gêmeos seriam separados, e que Obi-Wan e Yoda terminariam exilados — a nova fase da saga oferece possibilidades mais abertas e imprevisíveis. Em tese, tudo pode acontecer.

No entanto, O Despertar da Força, ao invés de abraçar essa liberdade criativa, optou por andar de mãos dadas com a trilogia clássica, reverberando cenas, estruturas e até conflitos quase como uma simulação reverente. A decisão, embora compreensível do ponto de vista mercadológico — reconquistar o público nostálgico, acalmar os críticos das prequels e reacender a chama da Força nos fãs —, acaba por limitar o frescor que a nova história poderia oferecer.

Se por um lado o filme acerta ao apresentar novos protagonistas carismáticos e delinear um vilão com camadas psicológicas interessantes, por outro, falha em ousar na trama. O excesso de paralelismos com o episódio IV enfraquece a originalidade e deixa a impressão de que o roteiro, embora sólido, ainda estava preso a uma espécie de "muleta emocional" dos filmes anteriores.

Mas nem tudo está perdido — pelo contrário. O segundo capítulo dessa nova trilogia tem, em suas mãos, a missão (e a oportunidade) de expandir de fato esse universo, de aprofundar as motivações dos personagens e de levar a saga para territórios inesperados. Se O Despertar da Força foi a introdução nostálgica, a sequência pode (e deve) ser o ponto de ruptura. O episódio VIII, à época ainda sem título, carrega consigo a responsabilidade de provar que a Disney não está apenas reciclando o passado, mas investindo na renovação real da franquia.

Claro, há o risco — sempre presente — de que o roteiro escorregue novamente em reverências desnecessárias. E convenhamos, ninguém quer ouvir Kylo Ren dizendo, entre suspiros sombrios, “Luke, eu sou o seu filho”.

Que a Força os mantenha criativos.







segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Bob Lester - O Contador de histórias




Confesso: até o dia de sua morte, nunca havia ouvido falar de Bob Lester. E mesmo assim, na ocasião, fiquei apenas com a manchete — não me dei ao trabalho de ler a matéria. Parecia mais um daqueles obituários protocolarmente generosos, em que um nome de outro tempo, que ninguém se lembra de fato, recebe um último tapinha nas costas da posteridade.

O curioso — e é sempre aí que a história melhora — é que, dias depois, descobri pela coluna de Ruy Castro, na Folha de S.Paulo, que a biografia de Lester era, digamos, pura coreografia. E das mais inventivas.

Segundo ele mesmo — e apenas ele — Bob havia sido músico e dançarino de Carmen Miranda, contracenado com Fred Astaire, Bob Hope e outros astros de uma Hollywood que só existe nos filmes da TCM. Deu entrevistas, apareceu no Programa do Jô, encantou jornalistas com uma lábia que nem precisava de coreografia. Uma busca rápida no Google nos leva a uma página robusta na Wikipédia — recheada, claro, de informações tão verossímeis quanto um musical da Metro (o autor desse texto na wikipedia também caiu no conto)

Ora, se Bob queria entrar para a história, entrou. Sua lenda tornou-se maior do que ele. E isso, no fundo, é a verdadeira glória de certos personagens: não serem verdadeiros, mas convincentes. O Brasil, esse país que adora um personagem (melhor ainda se for inventado), o acolheu como tal.

E pensar que bastava um jornalista — um só — ter se perguntado por que o nome de Lester jamais apareceu nos discos da Pequena Notável. Mas quem é que resiste a uma boa história, ainda que falsa?

Se Lester merece uma grande matéria nesse grande circo que é a mídia? Talvez. Ou talvez apenas esta notinha. Mas, por favor, com cortina vermelha, luz dramática e aplausos na coxia. Afinal, a lenda já está criada. Que não se atrapalhe agora com detalhes tão desnecessários como a verdade.



segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

OS MELHORES E PIORES FILMES DE 2014


Nem todos os filmes são desse ano, mas sim aqueles que eu vi esse ano. Com certeza algum ficou de fora, outros não entram na lista de melhores ou piores.


MELHORES DO ANO

The Normal Heart

 

Produzido pela HBO e dirigido por Ryan Murphy, The Normal Heart é mais do que um drama competente sobre os primeiros anos da epidemia de AIDS nos Estados Unidos — é um grito histórico que expõe, com coragem e sem suavizações, a negligência institucional e a fragmentação dentro da própria comunidade afetada.

Baseado na peça de Larry Kramer, o filme resgata o momento em que a doença ainda era cercada por silêncio, desinformação e estigma. O governo americano demorava a reconhecer a gravidade da situação, enquanto muitos homens gays enfrentavam sua própria dificuldade em organizar uma resposta diante de uma tragédia crescente — e invisível aos olhos da maioria.

Mark Ruffalo entrega uma atuação potente e contida, dando vida a um ativista tão apaixonado quanto politicamente errático. Sua performance é o eixo emocional do filme, sustentando com força a indignação que pulsa na narrativa. Julia Roberts, por sua vez, brilha como uma médica frustrada com a omissão das autoridades, em um papel que marca um de seus melhores momentos em anos.

Com um elenco sólido e comprometido (Matt Bomer, Jim Parsons e Alfred Molina também se destacam), o filme evita o melodrama barato e aposta numa mise-en-scène direta, mas eficiente, para expor a dor e a urgência de sua mensagem.

The Normal Heart não é uma experiência confortável — e nem deveria ser. Seu impacto reside justamente na crueza com que retrata uma página incômoda da história recente, ainda relevante em tempos de negacionismos e crises sanitárias. Uma obra essencial para compreender o preço do silêncio.


Ela 
Com "Ela", Spike Jonze alcança sua obra mais madura e emocionalmente complexa


Após se consolidar com filmes de forte apelo cult como Quero Ser John MalkovichAdaptação e Onde Vivem os Monstros, o cineasta Spike Jonze entrega, em Ela (Her, 2013), o que talvez seja seu trabalho mais coeso e emocionalmente profundo. Um filme que transcende os limites da ficção científica para explorar com sutileza temas como solidão, afeto e as formas contemporâneas de conexão humana.

No papel de Theodore Twombly, Joaquin Phoenix entrega uma atuação delicada e contida, possivelmente a mais poderosa de sua carreira até então. Carregando quase sozinho a narrativa, Phoenix constrói um personagem melancólico, vulnerável e surpreendentemente crível em sua relação com uma inteligência artificial.

Essa inteligência artificial é Samantha, sistema operacional com quem Theodore desenvolve uma relação romântica — e que ganha vida apenas por meio da voz envolvente de Scarlett Johansson. Mesmo sem aparecer em cena, Johansson consegue imprimir carisma, calor e nuances emocionais que tornam sua performance uma das mais marcantes do filme.

Ela é, acima de tudo, uma meditação sobre o amor em tempos de algoritmos — um retrato sensível e inquietante da fragilidade dos vínculos humanos diante da mediação tecnológica. Jonze, aqui, mostra total domínio de sua linguagem, evitando o cinismo fácil e entregando um filme que é, paradoxalmente, ao mesmo tempo distópico e esperançoso.


Sob a Pele



Dirigido por Jonathan Glazer, Sob a Pele (Under the Skin, 2013) é uma experiência cinematográfica que desafia classificações fáceis. O cineasta britânico — que já havia mostrado personalidade nos pouco lembrados Sexy Beast (2000) e Reencarnação (2004) — entrega aqui sua obra mais ousada, enigmática e, por que não, perturbadora.

Scarlett Johansson assume um papel incomum em sua carreira: o de uma predadora silenciosa que percorre as estradas da Escócia à caça de homens solitários. O filme nunca explica claramente quem — ou o que — ela é. Alienígena? Metáfora? Encarnada pulsão feminina num mundo masculino e hostil? Glazer não se interessa por respostas fáceis. E nisso reside a força do filme.

Baseado livremente no romance de Michel Faber, Sob a Pele opera num registro de imagens hipnóticas e sons dissonantes. Há momentos de puro desconforto, outros de beleza melancólica, sempre guiados por uma atmosfera fria e contemplativa. Johansson, em uma atuação minimalista e física, conduz o espectador por esse universo de tensão e ambiguidade — com coragem e distanciamento.

É também um filme que se abre a múltiplas leituras. Uma fábula feminista sobre o corpo e o desejo, uma crítica à objetificação, ou mesmo um comentário existencial sobre identidade e empatia. Mas nada é entregue de bandeja. A narrativa, quase sem diálogos, exige atenção e sensibilidade.

Sob a Pele é um dos raros exemplos de ficção científica autoral no cinema contemporâneo. Incômodo, atmosférico e inquietante, é um filme que permanece sob a pele do espectador muito tempo depois de sua última imagem escura e silenciosa.


O Lobo atrás da Porta


nspirado livremente no infame "Caso Fera da Penha", ocorrido no Rio de Janeiro nos anos 1960, O Lobo Atrás da Portamarca uma estreia vigorosa do diretor Fernando Coimbra no longa-metragem de ficção. Com ecos de uma canção sombria do Radiohead (que inspira o título) e uma pegada de thriller psicológico, o filme reconstrói, com tensão crescente, um episódio real de ciúme, desejo e violência que continua a reverberar em pleno século XXI.

A trama se desenvolve como uma investigação policial, mas seu verdadeiro foco é a dissecação das relações humanas — e, sobretudo, da estrutura da mentira cotidiana. Bernardo (Milhem Cortaz) é chamado à delegacia após o desaparecimento da filha pequena. Aos poucos, entre versões truncadas e olhares desconfiados, surge Rosa (Leandra Leal), sua amante, cuja presença muda o eixo do que está em jogo. O roteiro, também assinado por Coimbra, evita maniqueísmos e conduz o espectador por uma montanha-russa emocional que oscila entre o patético e o trágico, o cômico e o brutal.

Leandra Leal entrega uma atuação notável, cheia de nuances, alternando vulnerabilidade, sedução e fúria com precisão. Milhem Cortaz, por sua vez, constrói com naturalidade o típico homem comum, atolado em contradições, enquanto Fabiula Nascimento, como a esposa traída, tem menos espaço, mas cumpre bem seu papel.

O filme se beneficia de uma ambientação crua e sem glamour, com fotografia despojada e trilha sonora quase ausente — o que intensifica a tensão psicológica em cada cena. Ao misturar tons de humor amargo com momentos de violência emocional, O Lobo Atrás da Porta se revela não apenas um suspense eficiente, mas também um retrato perturbador das dinâmicas de gênero, poder e possessividade.

Mais do que recontar um crime, Coimbra entrega um estudo sobre o lado sombrio do amor e da obsessão. O resultado é um filme que prende pela força de sua narrativa e pelo desconforto que provoca — como todo bom thriller deve ser.

A Garota Exemplar


Após o desempenho morno de Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres, David Fincher retorna à sua melhor forma em A Garota Exemplar (Gone Girl, 2014), um thriller de aparências enganosas, manipulações afiadas e veneno conjugal, adaptado do best-seller homônimo de Gillian Flynn — que também assina o roteiro com notável precisão.

Fracasso de bilheteria no Brasil, mas sucesso de crítica internacional, o filme é daqueles cuja experiência depende da surpresa. Quanto menos se souber, melhor. Tudo começa com o desaparecimento de Amy Dunne (Rosamund Pike) em circunstâncias suspeitas e com a pressão da mídia rapidamente recaindo sobre seu marido, Nick (Ben Affleck), um sujeito ambíguo o bastante para levantar todas as dúvidas — inclusive em quem assiste.

Fincher constrói um filme cínico e meticulosamente calculado, onde a verdade é um jogo de versões. Com sua habitual estética fria, cortes secos e ritmo hipnótico, o diretor expõe as fissuras de um casamento aparentemente perfeito — e por tabela, das relações amorosas contemporâneas.

Rosamund Pike, até então vista como presença discreta, oferece aqui a performance de sua carreira: complexa, inquietante e profundamente desconcertante. Uma virada que não apenas a reposiciona em Hollywood, mas lhe rendeu uma merecida indicação ao Oscar. Já Ben Affleck, com sua habitual canastrice, revela-se ironicamente ideal para o papel de um marido indecifrável — aquele tipo de homem cuja expressão vazia pode esconder tanto culpa quanto puro desprezo.

A Garota Exemplar é um filme sobre as máscaras do amor, da mídia e da moral. Se Fincher nunca foi um cineasta romântico — como atestam as fragilidades de O Curioso Caso de Benjamin Button — aqui ele entrega sua visão mais cáustica e direta sobre o que pode existir por trás do “felizes para sempre”.

Perturbador, elegante e perversamente divertido, é um thriller que ainda reverbera depois da sessão. E que merece ser (re)descoberto, de preferência antes que algum spoiler acabe com o jogo.

 
 Olive Kitteridge
 
 
 
 

Baseada no romance vencedor do Pulitzer de Elizabeth Strout, Olive Kitteridge é mais um acerto dramático da HBO — desta vez em formato de minissérie, com quatro episódios que traçam, com rigor e delicadeza, um retrato nada idealizado da vida em uma pequena cidade americana. A direção precisa de Lisa Cholodenko e o roteiro de Jane Anderson dão forma à protagonista do título: uma professora de matemática amarga, sarcástica e profundamente melancólica.

Vivida com intensidade e contenção por Frances McDormand, Olive é uma dessas personagens que raramente ganham espaço em telas grandes ou pequenas. Complexa, desafiadora e muitas vezes difícil de gostar, ela é o tipo de figura que poderia facilmente cair na caricatura — não fosse a atuação magistral de McDormand, talvez a mais potente de sua carreira, o que não é dizer pouco para uma atriz que já carrega dois Oscars no currículo.

A série cobre três décadas na vida de Olive e de seus familiares e vizinhos, revelando aos poucos não só suas cicatrizes emocionais, mas também a fragilidade de uma existência construída em silêncios, ressentimentos e afetos mal resolvidos. Richard Jenkins, como o marido de Olive, é outro destaque, oferecendo um contraponto caloroso à frieza que ela parece cultivar como armadura.

Olive Kitteridge evita os clichês do melodrama e aposta num tom seco, por vezes sombrio, que exige atenção do espectador. Não há reviravoltas grandiosas, nem revelações catárticas. Há apenas a vida — com suas pequenas violências, momentos de ternura e longos períodos de solidão.

Mais do que uma boa minissérie, é uma rara demonstração de maturidade narrativa, ancorada em grandes interpretações e em uma aposta corajosa na sutileza.


 
Relatos Selvagens



Engraçado e chocante, Relatos Selvagens se confirma como uma das grandes surpresas do ano no cinema latino-americano. O filme, estruturado em episódios independentes, é um raro exemplo de antologia em que todas as histórias funcionam com força e intensidade.

Destaque especial para o segmento do casamento, um verdadeiro desfile de tensões e absurdos que eleva a narrativa a outro patamar. A mistura de humor negro com situações extremas lembra um encontro improvável entre Quentin Tarantino e Pedro Almodóvar — uma comparação óbvia, mas que não diminui a originalidade e o impacto da obra.

Com roteiro afiado e direção precisa, o filme de Damián Szifron provoca risadas desconfortáveis enquanto expõe as contradições e irracionalidades da natureza humana, fazendo do público cúmplice dessas pequenas revoluções cotidianas que todos, em algum momento, gostariam de protagonizar.


Ida


Ida é um drama belo e comovente, que conquista pela fotografia que enche os olhos e por uma história profundamente arrebatadora. Sem dúvida, um dos grandes filmes do ano, merecedor dos mais importantes prêmios.

Nas palavras do próprio diretor, a proposta foi criar um filme mais abstrato e expressivo, que convide à reflexão. A escolha por uma composição visual que foge ao clássico, com imagens que parecem até um pouco aleatórias, remete ao funcionamento das próprias lembranças — fragmentadas, vagas e intensas.

O resultado é uma obra que se destaca não só pela narrativa, mas pela sensibilidade com que trata temas universais, deixando o espectador impactado muito tempo após os créditos finais.


Mesmo que nada der certo


John Carney, conhecido pelo cult Once, entrega mais um trabalho musical primoroso em Mesmo que Nada Dê Certo. O filme se apoia em uma trama simples, mas eficaz, que gira em torno de um produtor musical fracassado — interpretado com sensibilidade por Mark Ruffalo — que encontra uma nova chance ao conhecer a talentosa compositora vivida pela cativante Kiera Knightley.

A direção de Carney aposta em uma comédia musical sutil, sem grandes artifícios, voltada claramente para um público adulto, que valoriza histórias sobre recomeços e segundas chances. Por sua temática e ritmo, o filme não é recomendável para adolescentes ou jovens adultos — se é que isso ainda pode ser definido com clareza — mas certamente agrada aos que buscam uma narrativa musical menos óbvia e mais humana.


Alabama Monroe



Felix Van Groeningen, diretor de Os Infelizes, retorna com Alabama Monroe, um dos grandes filmes do ano — embora seja de 2012, só agora tive a chance de assistir a este belo drama musical. A história envolve e emociona sem jamais apelar para o sentimentalismo fácil.

No centro do filme, um casal improvável: um cantor de bluegrass e uma tatuadora, cuja relação delicada e cheia de vida conquista o espectador. Prepare-se para se comover e, muito provavelmente, para usar muitos lenços ao longo da projeção.


Azul é a Cor mais quente


Sem dúvida, Azul é a Cor Mais Quente é uma das grandes obras do ano — para quem consegue passar por cima do burburinho e das críticas acaloradas que o filme provoca. Para provar que adaptação de HQ não precisa ser sinônimo de filme descartável, ele entrega uma história sensível e dura sobre dor, perda, preconceito e sofrimento.

As atuações das protagonistas são sólidas, a fotografia é exemplar, captando todas as sutilezas das emoções do casal, e o uso do formato de tela é absolutamente preciso, uma assinatura do diretor que não se repete à toa.

Claro, é cinema para gente grande — ou seja, não espere um romance açucarado ou um conto leve para passar o tempo. E justamente por isso, incomoda muita gente. Mas, se estiver disposto a encarar, o filme recompensa.


O Grande Hotel Budapeste


Wes Anderson mantém seu universo visual e narrativo, cheio de referências aos filmes clássicos, em O Grande Hotel Budapeste, uma aventura que se mostra mais acessível ao grande público do que seus trabalhos anteriores. Não é algo totalmente inesperado — Moonrise Kingdom já indicava essa direção —, mas este filme consolida a capacidade de Anderson de equilibrar seu estilo único com uma narrativa que agrada além do círculo dos fãs mais fiéis. O resultado é um trabalho que não decepciona, trazendo toda a excentricidade do diretor com uma leveza e charme que conquistam facilmente.

O Lobo de Wall Street


É realmente um deleite ver um diretor do calibre de Martin Scorsese se aventurar nessa comédia audaciosa que deu o que falar — e não é para menos. Sem qualquer pudor, ele expõe a vertiginosa ascensão e queda de um dos maiores canalhas do final do século, uma figura que, apesar de tudo, consegue ser até cativante. Maluf que o diga. Scorsese entrega aqui seu melhor trabalho desde Os Bons Companheiros, enquanto Hugo fica para trás como uma obra à parte — ou melhor, um intervalo para esse show de excessos e cinismo.

Que estranho chamar-se Federico



O que dizer de um documentário sobre Fellini dirigido por Ettore Scola? Se só os nomes desses dois gigantes não bastam para te convencer a assistir, então talvez você deva correr para os cinemas ver Êxodo do Ridley Scott — quem sabe essa seja mais a sua praia.

E para quem quer um olhar menos reverente e mais desconstruído sobre Fellini, Que Estranho Chamar-se Federico é a pedida certa: um documentário que mistura homenagem e ironia, trazendo uma visão diferente do mito, sem perder o charme que só o cineasta italiano tem. Uma boa contraposição para quem quer sair do lugar-comum.



O Homem Duplicado


O Homem Duplicado talvez seja um dos filmes mais controversos do ano — e, sem surpresa, um dos mais odiados por quem realmente o viu. Adaptando a obra de José Saramago, a trama acompanha Adam Bell (Jake Gyllenhaal), um professor cuja vida medíocre é subitamente virada do avesso ao encontrar alguém idêntico a ele. Pouquíssimos assistiram, menos ainda compreenderam, e quase ninguém gostou. Mas, honestamente, isso pouco importa. Denis Villeneuve, que já vinha mostrando talento com Incêndios (2010) e Prisioners (2013), confirma seu lugar entre os grandes diretores do cinema contemporâneo — mesmo que seu trabalho exija paciência e uma boa dose de interpretação.

Uma vida comum


Qual o interesse de acompanhar a trajetória de um homem cuja rotina é buscar parentes de indigentes falecidos? Pode parecer uma premissa árida, mas Uma Vida Comum, dirigido por Umberto Pasolini (sim, parente do Pasolini famoso), revela-se um filme surpreendente e sensível. Sem glamour ou grandes artifícios, o longa convida o espectador a refletir sobre memória, solidão e a inevitabilidade do esquecimento — temas que ecoam muito além da tela. Um filme que merece ser descoberto, mesmo para quem não teme ser esquecido depois da morte.

Viva a Liberdade


Mais um filme estrelado pelo excepcional Toni Servillo, conhecido pelo brilhante A Grande Beleza — ambos lançados no ano passado, mas que só tive a chance de ver este ano. Em Viva a Liberdade, a política italiana ganha uma camada de humor e entretenimento que, convenhamos, falta nas eleições brasileiras recentes. É um alívio assistir a uma trama onde o jogo político diverte e instiga, ainda que a amarga realidade da política real permaneça tão insatisfatória quanto sempre.

Inside Llewyn Davis


Mais um grande trabalho dos irmãos Coen, Inside Llewyn Davis narra a vida do talentoso — e arrogante — cantor de folk Llewyn Davis. Pela primeira vez, parece que os diretores demonstram certa compaixão pelo seu personagem, mostrando com delicadeza como a integridade artística pode ser um obstáculo para alcançar objetivos pessoais. Melancólico e pontuado por momentos de humor sutil, o filme é um prato cheio para fãs dos Coen e, claro, dos admiradores de Bob Dylan.

 Talvez não ocupe lugar de destaque na filmografia da dupla, mas certamente será uma pequena joia para quem se aventurar a descobri-lo no futuro.

Nebraska


Alexander Payne retoma seu melhor momento com Nebraska, após o resultado frustrante de Os Descendentes. O filme é uma melancólica comédia on the road que combina simplicidade narrativa com uma profundidade emocional que poucos diretores conseguem equilibrar tão bem. A fotografia em preto e branco não é apenas um recurso estético, mas um elemento fundamental que reforça o tom nostálgico e introspectivo da obra, capturando com sensibilidade as paisagens áridas e os rostos marcados pela vida do interior dos Estados Unidos.

No centro da trama está Bruce Dern, em uma das melhores atuações de sua carreira, como um patriarca teimoso e falho que embarca numa viagem ao lado do filho para reivindicar um suposto prêmio de loteria. A relação entre pai e filho, cheia de conflitos, ressentimentos e momentos de ternura, é o coração pulsante do filme. Payne mostra, com humor sutil e um olhar sem julgamentos, as fragilidades e esperanças dos personagens, ao mesmo tempo em que faz uma crítica delicada à América profunda.

Nebraska não é um filme grandioso em escopo, mas sua força está justamente na intimidade e humanidade que revela, confirmando Payne como um mestre das histórias sobre relações familiares e sobre as contradições da vida simples. Uma obra que emociona e faz pensar, digna de ser descoberta por um público que valoriza o cinema autoral e contemplativo.


Boyhood


Embora não seja exatamente o fenômeno que muitos pintam, essa comédia que corre por fora na corrida do Oscar é mais uma prova do talento singular de Richard Linklater, cineasta que sabe capturar a beleza simples do tempo que passa. Não alcança a genialidade da trilogia iniciada com Antes do Amanhecer, aquela delicada poesia sobre encontros e desencontros, mas ainda assim é um prazer entrar nessa viagem pela vida comum de um garoto — filmada, literalmente, ao longo de muitos anos.

O filme é feito de pequenos momentos, dessas coisas quase invisíveis que compõem quem somos, como as conversas que se estendem ao entardecer, os silêncios compartilhados, as mudanças imperceptíveis que só o tempo pode revelar. Tem suas falhas — a atuação instável da irmã do protagonista, a duração que às vezes pesa, e fugas do roteiro que esfriam o calor das poucas catarse —, mas é justamente essa honestidade, essa mistura de pretensão e simplicidade, que torna a experiência verdadeira.

No fundo, é um convite para olhar com calma para as pequenas histórias da vida, para sentir que, mesmo no ordinário, há algo profundamente extraordinário. E isso, no cinema de Linklater, nunca deixa de ter seu valor.




Outros que podiam estar na minha lista:
Clube de Compra Dallas (um filme que ganha força mais pela atuação dos protagonistas
Mapa das Estrelas(Cronnenberg segue sua fase de doenças mentais)
Philomena (fazia tempo que não via um filme tão bom do Stephen Frears)
Still Alice (será que o Oscar vai lembrar de Julianne Moore finalmente)
O Expresso do Amanhã (outra rara boa adaptação de uma HQ e do sempre interessante Joon Ho-Bong)
Amantes Eternos (vampiros podem render bons filmes ainda mais se o diretor for alguém como o Jim Jarmusch)
 Boa Sorte (Deborah Secco mostrando que não é apenas um rostinho bonito)
 Planeta dos Macacos - O confronto (que prazer ver uma franquia dessas ainda render bons filmes e que sabe utilizar bem a linguagem cinematográfica)
O Hobbit (execrado por fãs radicais do escritor, o que só conta a favor)
Praia do Futuro (do sempre extraordinário Karin Ainouz)
Uma Viagem Extraordinária (mais uma viagem de Jean Pierre Jeunet)
O Teorema Zero (Terry Gilliam voltando a sua boa forma)
O Abutre (apesar de não ter o mesmo impacto depois de ver o Argentino Abutres),
Jersey Boys (o subestimado e interessante musical do Clint Eastwood)
The Babbadock (uma supresa nos filmes de Terror,  o único do gênero que salva no ano)
The Rover (não tão bom quanto o anterior Reino Animal mas um bom filme)
Hoje eu quero voltar sozinho (personagens convincentes fazem a diferença nessa refilmagem do curta do mesmo diretor)
 
E alguns outros que naturalmente não vieram a minha cabeça a tempo. Alguns outros como "Era uma vez em Nova Iorque" ainda não vi e espero que  o hype seja verdadeiro.


PIORES DO ANO

Ok, não assisti "Velozes e furiosos", "O Homem Aranha", "Jogos Vorazes", "Anjos da Lei 2","um milhão de maneiras de se pegar na pistola", "Transformers" (se bem que esse eu podia colocar na lista pois é do Michael Bay, mas vai que ele acertou. E não, não vou conferir), "Annabelle" e tantos outros por isso vou me concentrar naqueles que me propus a assistir por motivo ou outro. Infelizmente mesmo selecionando acabamos vendo algumas bombas, seja sem querer seja por um diretor que tenhamos um fio de esperança.

Tusk


Você poderia pensar que, depois do desastre monumental que foi The Red State, Kevin Smith teria finalmente tocado o fundo do poço — mas, acredite, Tusk cavou um buraco ainda mais profundo. Se The Red State era o pântano, Tusk é o lodaçal fedido onde ninguém devia botar os pés. A premissa? Um cara vira... uma morsa. Sim, você leu certo. Uma Morsa. É quase como se o roteiro tivesse sido escrito depois de uma noite muito, muito errada de Kevin Smith com uma dose extra de pavor nonsense.

Curiosamente, traz Haley Joel Osment — aquele gordinho que um dia “viu gente morta” — como um alívio cômico que não alivia nada, só faz a confusão aumentar. Johnny Depp, por sua vez, parece ter entrado na brincadeira só pra rir da própria carreira, entregando seu pior papel desde O Turista (que, pra falar a verdade, nem tive coragem de ver). É como se Depp tivesse feito um pacto: “Não importa o roteiro, eu vou fingir que tô numa festa do pijama e só sair quando o filme acabar.”

Assistir Tusk é quase um teste de resistência: você vai rir do absurdo, vai se perguntar “como alguém teve essa ideia?” e ainda sair se perguntando se Kevin Smith está tentando pregar uma peça ou se realmente perdeu o juízo. No final, resta só o questionamento — e aquele gostinho amargo de querer esquecer que você assistiu isso. E olha que eu tentei respeitar os velhos trabalhos do cara, mas aqui, meu amigo, o respeito foi pro espaço junto com qualquer senso de lógica.


Interestelar


É triste — quase doloroso — ver um diretor que a gente admira entregar um trabalho tão fraco e desencontrado. Interestelar, em seus momentos mais inspirados, parece um patchwork de filmes clássicos como Sinais e 2001: Uma Odisséia no Espaço, mas sem a profundidade nem a sutileza dessas obras. Christopher Nolan, que já vinha com algumas escorregadas em roteiro, aqui entrega um produto relapso, que só sobrevive graças à boa vontade quase religiosa de seus fãs — que, convenhamos, são tão fervorosos e insistentes quanto os fãs de Legião Urbana e Los Hermanos na cena musical. E olha que isso é dizer muito.

O filme não é um desastre total, tem suas boas cenas, começa bem e mantém o interesse por boa parte do tempo. O meio do filme até oferece seu melhor momento — pena que tudo desande num final preguiçoso e arrastado, que te faz repensar várias escolhas questionáveis, como transformar o personagem principal num "grande astronauta" quando sua primeira missão, e única até ali, foi um fiasco; ou fazer com que ele, morando a poucos minutos da base da NASA, “por acaso” seja o único capaz de aceitar a missão espacial. Conveniência demais para um roteiro que já é bastante carente de frescor.

Anne Hathaway parece ter entrado só para justificar a presença feminina, pois, se você tirar a personagem dela do filme, não vai fazer a menor falta. Michael Caine, por sua vez, está lá porque, bem, é filme do Nolan — tipo um selo de qualidade automático, mesmo que o papel dele seja praticamente um fantasma.

E, claro, não poderia faltar aquele vício clássico de Nolan: a necessidade compulsiva de explicar para o público o que está acontecendo, com diálogos expositivos dignos de didáticos — como aquela cena em que um personagem explica para outro o buraco de minhoca, sendo que o outro claramente já sabe do que se trata. Essa obsessão já havia marcado A Origem e O Grande Truque, mas aqui atinge seu ápice de preguiça narrativa.

No fim das contas, Interestelar é uma decepção dolorosa para quem gosta do diretor — e, para constar, eu gosto de Legião Urbana, Los Hermanos e, principalmente, do Christopher Nolan. Só que desta vez, o filme não merece essa defesa.


Guardiões da Galaxia


Relutei muito antes de colocar Guardiões da Galáxia nesta lista, afinal só consegui aguentar uma hora do filme — e olha que tentei. Visual confuso, ritmo acelerado e piadinhas que, sinceramente, mais cansam do que divertem. Claro, foi um sucesso estrondoso nas bilheterias, prova de que hoje em dia humor fácil e efeitos estonteantes são suficientes para lotar cinemas.

A trilha sonora? Ah, essa até poderia ser um destaque, se não fosse aquela sensação de déjà vu: já ouvimos essas músicas muito melhor usadas em Cães de Aluguel e Quase Famosos. E cá entre nós, montar uma playlist boa com tantos clássicos por aí não é exatamente um feito notável — até porque ser Tarantino, com seu talento para casar música e cena, não é pra qualquer um.

No fim, Guardiões pode ser um espetáculo visual para muitos, mas para quem busca algo além de barulho e nostalgia reciclada, é difícil não se sentir meio perdido nesse turbilhão. Para Quarentões que vivem a adolescência plena.


Ninfomaníaca 


Mais um caso triste de um diretor que admiro e que resolveu me dar uma boa dose de frustração: Lars von Trier gastou cinco horas e meia para contar uma história que caberia facilmente em duas. Ninfomaníaca tem seus bons momentos — aqueles flashes de genialidade e descontrole que só ele sabe fazer — mas, no geral, é um exercício arrastado de paciência.

E olha, não é nada fácil aguentar o Shia LaBeouf como o interesse amoroso da protagonista — uma espécie de contraponto estranho ao desejo desenfreado da heroína. Dá até pra pensar que o masoquismo do espectador faz parte do plano do diretor, que sabe muito bem como provocar desconforto, seja ele físico ou erótico.

Entre cenas que flertam com o sublime e outras que se perdem em divagações intermináveis, o filme acaba parecendo mais uma maratona erótica-cerebral do que uma provocação sedutora de verdade. Ou seja, se Von Trier queria nos fazer refletir sobre o sexo, a solidão e o prazer, o tiro saiu meio torto — mas pelo menos, foi longa a jornada.


Virginia


Fiz uma retrospectiva Coppola neste fim de ano — só não me arrisquei a rever Jack nem O Homem que Fazia Chover, porque, convenhamos, masoquismo tem limite. É louvável que um diretor do calibre de Coppola, nesta altura da carreira, ainda queira experimentar e ousar, mas infelizmente Virginia se perde em um filme B de terror que pouco acrescenta à sua filmografia.

Desde Apocalypse Now, dá para perceber uma certa falta de interesse e cuidado do diretor em seus trabalhos, que depois navegaram entre o mediano e o esquecível — com exceção de Drácula e do final da trilogia do Padrinho, que continuam sendo casos à parte, quase milagres de seu talento.

Virginia é preguiçoso, frustrante e mais um daqueles projetos que parecem feitos só para preencher um currículo, e não para emocionar ou surpreender. Melhor ficar com os vinhos que Coppola produz, ainda que, sinceramente, eu aguarde ansioso pelo dia em que Megalopolis finalmente veja a luz do dia — talvez aí o velho Francis volte a mostrar o que realmente sabe fazer.


Transcendence


Nada salva essa bomba chamada Transcendence, produzida por Christopher Nolan — que, junto com Interstellar, parece estar escorregando ladeira abaixo na indústria. Hollywood costuma engolir essas sucessões de fracassos com uma paciência quase milagrosa (Shyamalan que o diga), mas não dá para fingir que esse é um filme decente.

Espero estar errado, mas os e-mails vazados da Sony deixam claro o que os executivos realmente pensam sobre o projeto: um desastre completo. Se esse é o futuro do cinema “pensante” de Nolan, prepare-se para um longo e tortuoso caminho.


OLDBOY


O que foi isso Spike Lee ? Sem comentários.

Spike Lee é, sem dúvida, um dos grandes nomes do cinema contemporâneo, conhecido por sua voz autoral forte e engajada. Mas sua refilmagem de Oldboy é um passo fora do seu universo habitual — claramente um filme de encomenda, onde se percebe a luta do diretor para encontrar sua própria assinatura (Ou melhor, ele nem luta, fica no chão). O resultado é um trabalho morno, sem a intensidade e o frescor do original sul-coreano, que acaba se tornando uma experiência pouco memorável, longe do melhor que Lee pode oferecer.


Outros:
Caçadores de obras primas (George Clooney errou desta vez mas nada que o desabone, apenas chato e superficial)
 Lucy (não há estilo que resista a esse roteiro, embora louvável os franceses fazerem o que os americanos deveriam há tempos: salvo Angelina Jolie não colocar mulheres como heroínas principais)
Refens da Paixão e Homens Mulheres e Filhos (duas bolas fora do Jason Reitman)
O Juiz (Robert Downey Jr interpretando Robert Downey Jr e daqui a pouco disponível no Supercine)
Isolados (filme de terror psicologico meia boca e mal filmado)
Sexy Tape (Comédia americana já é duro, ainda mais uma que não salva nada)
O conselheiro do Crime (tentei gostar mas depois de um tempo vê-se que não salva muito)