Há 15 anos, escrevi sobre o lançamento de Bandarra (LEIA AQUI) a estreia solo de Tibério Azul, à época conhecido como vocalista da folclórica Mula Manca e da excepcional Seu Chico, que também trazia outro prodígio das artes, o pianista Vitor Araújo, juntando Chico Buarque com Radiohead numa precisão cirúrgica (Mais sobre a Seu Chico no blog aqui)
Hoje, Bandarra está sendo lançado em LP pela primeira vez. O que me assusta é o fato de já terem se passado 15 anos. Ainda estou me acostumando com o tempo. Para quem acha Nirvana uma banda nova, isso às vezes assusta mais do que devia.
Lembro do comecinho dos anos 90, quando eu estava no início da adolescência e o Rock in Rio voltava, depois de seis anos, para sua segunda edição. O Led Zeppelin tinha acabado havia pouco mais de 10 anos quando Robert Plant cancelou suas apresentações naquele Rock in Rio, e O Poderoso Chefão fechava sua trilogia quase 20 anos depois do primeiro filme. O fato é que, naquela época, tudo isso parecia muito mais distante do que realmente era. Afinal, para quem só tinha 15 anos e, como qualquer adolescente, sentia que já era muito experiente e vivido, seis anos eram uma vida. Quem dirá 20.Mas agora perceber que já se passaram 15 anos de uma coisa que aconteceu logo ontem às vezes tira o chão. A pandemia, embora eterna enquanto durou, já ficou para trás há inacreditáveis seis anos, embora o mesmo desgoverno ainda insista em nos ameaçar.
Reouvi Bandarra hoje. Confesso que fazia tempo que não o fazia, embora o tempo aqui seja relativo. E sua poesia retornou com força. Há poesia nas letras de Tibério. O mistério das letras, harmonicamente desconexas. Uma frase recortada, um verso incompleto que fica martelando na cabeça porque traz, acima de tudo, uma verdade que você reconhece. A infinidade de sonoridades que te levam no tempo. Um álbum que abraça o passado mesmo sendo futuro.“Leio a Banca de Revista” hoje soa como uma distopia dos novos tempos. Distopia que, tratada no embora irregular O Último Azul, a estreia muito promissora de Tibério como roteirista, hoje se faz mais presente do que nunca. Mas distopia nunca foi sobre o futuro. Ela é presente.Talvez seja esse o jogo mais cruel do tempo: transformar exageros em constatações e absurdos em rotina. O que antes precisava da ficção para existir hoje cabe numa terça-feira qualquer. E a arte, quando sobrevive ao seu próprio tempo, ganha esse estranho poder de mudar sem que uma única palavra tenha sido alterada. Somos nós que chegamos diferentes até ela.
Mas, como já dizia Tibério em seu disco posterior, “a vida pede mais abraço que razão”. Por onde começar o que não termina?
Que venha mais poesia.




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