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sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Um breve ensaio sobre os Correios


Não é exatamente novidade, mas a cada novo balanço negativo dos Correios, a pauta da privatização ressurge com a pontualidade de quem nunca resolveu o problema anterior. Apresentada como panaceia administrativa, a venda da estatal reaparece sempre embalada pelo mesmo discurso salvacionista, como se o fracasso de políticas anteriores fosse culpa exclusiva da existência do serviço público — e não de sua sabotagem crônica.

Convenientemente, esquece-se que os Correios não foram concebidos para dar lucro, mas para garantir um serviço de alcance nacional, inclusive onde o mercado jamais pisaria voluntariamente. Isso não significa aceitar prejuízos descontrolados ou gestões temerárias — significa apenas reconhecer que serviço público não se mede pelo mesmo régua de uma startup logística. Confundir essas duas coisas é ignorância conceitual ou má-fé estratégica. Muitas vezes, as duas.

Os defensores mais entusiasmados da privatização adoram citar plataformas como Mercado Livre e Magalu como prova de que o setor privado resolve tudo. O detalhe incômodo é que, fora do eixo Rio–São Paulo — e às vezes nem tão fora assim — essas mesmas empresas continuam dependendo dos Correios para fazer entregas minimamente viáveis. A famosa “logística eficiente” funciona muito bem onde há lucro garantido; no restante do país, ela simplesmente terceiriza o problema para o serviço público que se pretende extinguir.

O trunfo mais eficiente dessa narrativa, porém, está na engenharia social. Políticos e empresários aprenderam a jogar com a classe média, justamente a que mais depende dos serviços públicos — já que os mais pobres muitas vezes nem conseguem acessá-los plenamente. Ainda assim, é essa classe média que costuma ser mais facilmente convencida de que privatização é sinônimo de eficiência e modernidade. Reclama-se, com razão, de impostos sobre impostos, mas curiosamente o discurso muda quando surge a ideia de taxar grandes fortunas. Nesse momento, o ataque passa a ser tratado como algo pessoal, quase ofensivo — mesmo por quem, realisticamente, jamais terá mais do que uma casa, um carro novo e uma sequência interminável de parcelas a perder de vista.

Enquanto isso, serviços essenciais privatizados mostram suas fragilidades sem pudor. Basta olhar para o caos enfrentado por uma cidade como São Paulo com a Enel. Se uma metrópole rica, central e politicamente relevante sofre com interrupções, imagine o destino de pequenas cidades espalhadas por um país marcado por desigualdades brutais. O mercado não “esquece” essas regiões; ele simplesmente nunca se interessou por elas.

Ainda assim, qualquer defesa do caráter social dos Correios é rapidamente rotulada como “comunismo”. O fantasma segue sendo útil, sobretudo para quem não distingue comunismo, socialismo e políticas públicas básicas. O medo funciona melhor do que a informação. Curiosamente, muitos dos que alertam contra o risco de o Brasil “virar uma Venezuela” defendem, com fervor, práticas que ajudaram a empurrar a Venezuela para o colapso: ataques às instituições, enfraquecimento do Judiciário e isolamento econômico — o mesmo roteiro que transformou Cuba em um símbolo congelado no tempo, constantemente reciclado como ameaça retórica.

No fim, o debate sobre os Correios raramente é sobre eficiência, sustentabilidade ou modernização. Ele é, quase sempre, sobre quem paga a conta, quem fica sem serviço e quem lucra com a narrativa. E, nesse jogo, vender a ilusão da privatização como solução universal continua sendo um dos negócios mais rentáveis do país.

Afinal, adora-se repetir que quem paga o prejuízo dos Correios somos “nós”, os contribuintes, como se isso encerrasse automaticamente a discussão. O que raramente se menciona é que, na hipótese de uma venda, não seremos nós a receber nada em troca — muito menos os dividendos políticos e financeiros do negócio. O cidadão continua pagando, só que agora em tarifas mais altas, serviços seletivos e ausência total onde não há lucro. Já o bônus da privatização — esse sim — circula longe do caixa comum, em salas climatizadas, contratos opacos e relações que jamais passam pelos Correios… nem pelo CEP.



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