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quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Doc Robinson


E aqui estamos novamente diante de uma matéria sobre Doc Robinson — ou deveríamos dizer Martin Mystère?

Para entender essa confusão de identidades, é preciso retornar ao ponto de partida. Em meados da década de 1970, Alfredo Castelli concebeu uma série cujo protagonista seria um arqueólogo inglês chamado Allan Quatermann, apresentado como descendente direto do herói de As Minas do Rei Salomão. Ao seu lado, surgia um parceiro inusitado: Java, um homem primitivo. Quatermann ainda empunhava uma arma de raios proveniente de uma civilização desconhecida, reforçando o tom de aventura com pitadas de ficção científica que Castelli pretendia explorar.

A proposta inicial previa episódios curtos, moldados ao formato típico das revistas semanais europeias, como Tintin e Spirou. O projeto foi oferecido à revista Il Giornalino, que o recusou. Apenas em 1979 a série veria alguma luz, publicada pela Supergulp — e mesmo assim de maneira incompleta, já que a revista foi cancelada após lançar apenas dois dos quatro episódios planejados. Castelli ainda tentou emplacar a ideia na revista Zack, desta vez com o protagonista rebatizado provisoriamente de Martin Mystère, mas novamente não obteve sucesso.


Diante das recusas, Castelli reformulou profundamente o projeto. Abandonou o formato de episódios curtos, transferiu a arte para o desenhista Giancarlo Alessandrini e apresentou a nova proposta à Sergio Bonelli Editore. Embora o padrão editorial da Bonelli fosse trabalhar com histórias de 96 páginas, Castelli pretendia algo mais conciso, com apenas 64. Como solução intermediária, escreveu uma aventura de 128 páginas, estruturada em duas partes, batizada de “A Vingança de Rá”.

Em 1981, com o projeto finalmente aprovado e próximo de chegar ao público, Castelli decidiu alterar novamente o nome do protagonista. Considerava Martin Mystère apenas provisório e, segundo ele, difícil de pronunciar. A escolha recaiu sobre Doc Robinson, com “Doc” funcionando como uma homenagem direta a Doc Savage. Foi sob esse nome que a série começou a ser divulgada em revistas especializadas e chegou inclusive a ganhar uma prévia na feira de quadrinhos de Balerna, na Suíça.

Em mais uma reviravolta criativa, Castelli decidiu colocar “A Vingança de Rá” em segundo plano e elaborar uma nova história que serviria como verdadeira apresentação de Doc Robinson ao público. Durante esse processo, abandonou-se definitivamente a ideia inicial das 64 páginas, adotando-se o formato tradicional de 96 páginas da Bonelli. As 32 páginas adicionais foram distribuídas ao longo da narrativa para ajustar o ritmo e reforçar a introdução do personagem. Outra mudança relevante dizia respeito ao cenário: se na concepção original o herói era um inglês baseado em Londres, agora ele se tornava um nova-iorquino, deslocando o eixo da aventura para os Estados Unidos.

Às vésperas do lançamento, um imprevisto editorial quase frustrou a nova identidade do herói: foi lançada na Itália uma revista de quadrinhos denominada, ironicamente, “Robinson”. Diante da coincidência desconfortável, os autores decidiram abandonar o nome recém-escolhido e retornar ao título anterior. Assim, em abril de 1982, a edição de estreia finalmente chegou às bancas italianas sob o nome de Martin Mystère.

A primeira aventura, “Os Homens de Negro”, seria posteriormente republicada diversas vezes. Além da edição original de 1982 — conhecida no Brasil pela publicação da Editora Globo nos anos 1980 e pela versão mais recente da Editora 85 (que pode ser adquirida nesse link) —, a história ganhou ainda uma reimpressão na coleção Tutto Mystère, lançada aqui pela Editora Record em 1991.

As alterações entre as versões não são profundas, mas chamam atenção. Na reedição da coleção Tutto Mystere, alguns letreiramentos e balões foram modificados e determinados quadros foram redesenhados. Um exemplo curioso é a cena em que Martin usa o computador: na edição original aparece algo semelhante a um CD, enquanto na versão revista o objeto é substituído por um disquete de 3 ¼, tecnologia mais condizente com a época da reimpressão. Outro caso é o acesso ao mosteiro: originalmente feito por meio de um cesto içado, ele se transforma numa grande escadaria na versão de Tutto Mystere.

Quanto à terceira versão, publicada na edição de bolso “Oscar Mondadori: Os Mundos Perdidos de Martin Mystère”, não há muita clareza sobre todas as alterações. Por se tratar de um formato compacto, é provável que a história tenha sido reorganizada para se adequar às exigências editoriais desse tipo de publicação. Sabe-se, ao menos, que uma longa sequência foi redesenhada.

A versão original de Doc Robinson, concebida com 64 páginas, acabou se perdendo ao longo do tempo. No entanto, graças a um antigo roteiro e a algumas fotocópias remanescentes, foi possível reorganizar a obra. Nessa reconstrução, Castelli removeu as 32 páginas que haviam sido acrescentadas posteriormente e restaurou elementos da concepção inicial, incluindo a volta do cenário para Londres em vez de Nova Iorque. A primeira encarnação de Doc Robinson também contava com uma capa distinta, descartada na época por ser considerada excessivamente macabra (!)

Essa nova versão foi publicada no número 320 da edição italiana de Martin Mystère, em abril de 2012, e permanece como um objeto bastante curioso dentro da longa trajetória do personagem. Não acrescenta elementos inéditos à cronologia — e, na verdade, essa nunca foi sua finalidade. Trata-se antes de um exercício de estilo, uma reconstrução arqueológica de um momento embrionário da série, revelando como Castelli imaginava seu herói antes de todas as transformações que o tornariam o “Detetive do Impossível”. Na edição nº 1 da nova coleção da Editora 85, que organiza as aventuras em ordem estritamente cronológica, essa história aparece deslocada no tempo, incluída como extra nas páginas finais: uma peça de bastidor que, embora não mude nada no cânone, enriquece o entendimento do processo criativo por trás de Martin Mystère.

De certa forma, essa reconstrução tardia funciona quase como as célebres — e às vezes infames — director’s cuts do cinema. Não porque traga cenas inéditas capazes de transformar a narrativa, mas justamente pelo contrário: ao resgatar um estágio preliminar da criação, ela expõe o processo mais do que o produto final. Assim como versões alternativas de filmes que surgem décadas depois apenas para revelar intenções originais, hesitações criativas ou caminhos abandonados, este “Doc Robinson” recuperado não pretende substituir nada; apenas convida o leitor a enxergar o personagem por um prisma diferente. É um lembrete de que até o “Detetive do Impossível” nasceu de muitas tentativas — e que, às vezes, o que fica de fora da obra é tão revelador quanto o que chega ao público.

Como curiosidade, existe uma releitura da historia "Operação Arca" (Martin Mystère 3) feita por um fà clube do personagem. Detalhes podem ser encontrados aqui nesse link. Para mais Martin Mystere, abaixo o link de outros 2 textos recentes aqui no Blog:

Martin Mystère

Docteur Mystere 



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