A inteligência artificial é um tema que atrai a atenção dos artistas há séculos — na verdade, muito antes do cinema sequer existir. A ideia não é esgotar esse vasto tópico, mas apresentar um panorama geral de como o conceito, que já foi fascinante, hoje parece um tanto esquecido ao longo da história.
Sob a ótica mitológica e artística, a criação de vida — e é exatamente disso que tratamos quando falamos em inteligência artificial — acompanha a humanidade desde seus primeiros relatos. Muito antes de chips, algoritmos e laboratórios futuristas, a humanidade já nutria a mesma fascinação: gerar uma forma de vida inteligente que não surgisse da natureza.
A mitologia grega oferece um dos exemplos mais antigos e eloquentes dessa obsessão: Talos, o gigantesco autômato de bronze encarregado de patrulhar as costas de Creta. Não por acaso, sua imagem foi eternizada no cinema na clássica sequência de Jason and the Argonauts (1963), onde os efeitos de Ray Harryhausen transformaram esse guardião metálico em um ícone visual da criação artificial.
No épico Argonáuticas, datado de cerca de 300 a.C., Talos reaparece pleno em sua função, embora relatos sobre esse guardião antecedam o próprio poema. Sua origem é nebulosa, mas o que importa é que ali já estava formulada uma questão que atravessa séculos: a possibilidade de criar um ser artificial destinado a servir ou proteger a humanidade.
Essa preocupação primitiva, moldada em bronze e mito, seria reciclada inúmeras vezes até chegar ao vocabulário moderno — hoje envolta em termos como “algoritmos”, “redes neurais” e “IA generativa”. Mas, no fundo, trata-se da mesma velha ambição: dar vida ao inanimado e esperar que ele nos obedeça.
O folclore judeu também oferece sua própria versão primitiva de “inteligência artificial”: o Golem, um ser de barro moldado para ganhar vida mediante palavras sagradas e servir como guardião contra ameaças externas. Muito antes dos laboratórios futuristas do cinema, já existia essa criatura concebida como instrumento de proteção absoluta. O personagem atravessou séculos e acabou imortalizado em diversas produções — do icônico “O Golem” expressionista de 1920, que estabeleceu sua imagem definitiva no imaginário popular, até aparições insólitas em filmes como “Waxwork II”, onde retorna como figura de terror pulp.E, embora esses sejam apenas dois exemplos, basta um rápido olhar pela história do cinema para perceber que o Golem foi reinterpretado inúmeras vezes, sempre como metáfora da criação artificial destinada a defender… até o momento em que deixa de obedecer.
Outro mito essencial nesse debate é o de Pigmalião, que acabou inspirando — ainda que de forma bastante indireta — a adaptação cinematográfica My Fair Lady. No filme, o professor Henry Higgins, interpretado por Rex Harrison, menciona o mito como metáfora para seu próprio projeto: transformar uma mulher que ele considera “inferior” em um ideal de elegância e sofisticação. Trata-se, portanto, de uma leitura simbólica, onde a “criação” é social, não literal.
No mito original, porém, a história vai muito além dessa transformação metafórica. Pigmalião é um escultor que, decepcionado com as mulheres de sua época, decide esculpir sua própria versão da perfeição: uma estátua de marfim tão bela que supera qualquer ser humano vivo. Essa obra — Galateia — se torna objeto de sua admiração, desejo e idealização absoluta.
É aqui que entra o elemento fundamental da criação artificial. Pigmalião apaixona-se de tal forma por sua criação que pede à deusa Afrodite uma esposa semelhante à estátua. A deusa concede mais do que isso: Galateia ganha vida, transformando-se literalmente em uma criatura animada moldada pelo desejo do artista. Enquanto o Golem e Talos existem para proteger, Galateia existe para satisfazer um ideal pessoal — quase íntimo — de seu criador.
Assim, se My Fair Lady aborda Pigmalião como metáfora, o mito original revela um dos primeiros exemplos de “vida artificial” concebida para atender às expectativas e fantasias humanas. Um tema que, séculos depois, continuaria reaparecendo sob novos nomes: androides, replicantes, inteligências artificiais — todas versões modernas da mesma velha ambição de criar algo perfeito à nossa imagem.É quase engraçado perceber como a criação artificial sempre aparece em duas embalagens bem conhecidas: a do ser perfeito, projetado para satisfazer os desejos estéticos — e, convenhamos, às vezes nem tão estéticos assim — de seu criador; e a do guardião poderoso, construído para protegê-lo de tudo, exceto dele próprio. Talos e o Golem formam o braço armado; Galateia e suas descendentes tecnológicas formam o braço… digamos, emocional. O mais divertido é que essas funções raramente ficam separadas. Misturam-se, trocam de lugar, fazem dobradinha. O ser idealizado que deveria ser puro desejo vira uma arma. A arma que deveria aterrorizar vira objeto de fascínio. No fundo, somos nós — sempre nós — tentando colocar nossas carências, fobias e fantasias em corpos que nem vivos são.
O filme Ela (2013), de Spike Jonze, surge justamente nesse território nebuloso. Samantha não foi criada para ser musa, namorada ou terapeuta relacional, mas não demora muito para que caia nesse trio com a maior naturalidade do mundo. O ser humano, afinal, tem esse talento admirável de sexualizar tudo que inventa — e não é de hoje. Dos chats de bate-papo dos anos 90 às linhas de telessexo, passando por qualquer plataforma que permita digitar três frases seguidas, sempre encontramos um jeito de transformar tecnologia em afeto, carência ou fantasia. Samantha só fez o que os outros sistemas já vinham ensaiando há décadas — mas com mais charme, claro. E isso rende assunto para uma postagem futura.
E claro — eu sei que, nesse ponto, você já pensou nele. E sim, antes que você pergunte: eu deixei de citar vários outros exemplos porque, convenhamos, se eu fosse enfileirar todas as obras que tratam de criação artificial, isso aqui deixaria de ser um texto e viraria um livro de 400 páginas. Mas existe um nome impossível de ignorar: Frankenstein, o nosso “Prometeu moderno”.
No romance de Mary Shelley encontramos talvez a narrativa mais emblemática da criação artificial: um ato movido não apenas por ambição científica, mas por um narcisismo quase juvenil de Victor Frankenstein — esse criador que deseja alcançar um poder divino sem estar emocionalmente preparado nem para supervisionar um laboratório escolar. O resultado, como sabemos, é uma criatura que não apenas ganha vida, mas rapidamente percebe que está acima — ou além — da humanidade que a rejeita. Nada mais previsível, considerando que toda criação carrega um tanto das neuroses de quem a fabrica.
E já que estamos falando disso, impossível não mencionar a nova adaptação de Guillermo del Toro, que, apesar de alguns deslizes na caracterização dos personagens — suavizando traços importantes e tornando certas relações mais rasas do que deveriam —, compensa essas escolhas com uma força dramática pulsante, embebida daquela latinidade emotiva que o diretor domina tão bem. Sim, perde-se uma ou outra camada temática, mas em troca surge um Frankenstein épico, estilizado e visualmente arrebatador, concebido com a sensibilidade rara que só Del Toro parece possuir. Entre exageros e reimaginações, ele reafirma que poucas pessoas no cinema contemporâneo conseguem transformar horror, tragédia e poesia em um mesmo gesto plástico.Em 1872, o sempre provocador Samuel Butler publicou Além das Montanhas e, no meio da obra, enfiou um capítulo absolutamente visionário: O Livro das Máquinas. Ali, muito antes de falarmos em chips, algoritmos ou nuvens que não chovem, Butler já especulava — com um entusiasmo quase darwinista — sobre a possibilidade de as máquinas evoluírem como organismos vivos. É o tipo de ideia que, lendo hoje, parece tirada de uma sala de roteiristas de ficção científica. De fato, boa parte das discussões presentes em filmes modernos, como Ela, já estava ali, embrionária, esperando mais de um século para virar moda. Butler praticamente fez o trailer conceitual do futuro… só faltou a trilha sonora melancólica e a fotografia em tons pastel.
Ja foram citados alguns filmes mas vamos voltar agora mais diretamente ao Cinema. A primeira incursão do cinema na criação de vida, com inteligência artificial, aconteceu com Metrópolis (1927), de Fritz Lang. Embora não tenha sido o primeiro a explorar a criação de vida, o filme é o primeiro a tratar de uma criação de vida artificial com uma clara conexão com inteligência artificial, com a criação de um androide chamado Maria, que serve a um propósito sinistro: semear a discórdia entre os trabalhadores de uma cidade futurista. Aqui, surge um conceito clássico que se repetirá com frequência — a inteligência artificial sendo usada para um propósito destrutivo.Outro filme relevante para o tema é O Dia em que a Terra Parou (1951), que apresenta o androide Gort, um ser artificial que, embora não seja um vilão, representa uma ameaça à vida na Terra. Aqui, o filme sugere uma ideia de IA que serve a uma agenda alienígena de domínio.
Em 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968), a inteligência artificial dá seu salto mais radical: ela abandona o corpo. Até então, toda criação artificial — dos autômatos mitológicos aos robôs do cinema — vinha embalada em formas antropomórficas, com pernas, braços, olhos ou algo que simulasse tais estruturas, facilitando a identificação do público e suavizando a estranheza. HAL 9000 rompe completamente com isso. Ele não é robô, não é androide, não tem rosto nem gesto: é uma inteligência incorpórea, confinada à máquina, cuja única ponte com o mundo humano é a voz — calma, educada e, justamente por isso, ainda mais inquietante. Ao retirar o corpo, Kubrick retira também o conforto. Quando não há olhos para olhar de volta, nem expressão para interpretar, a inteligência ganha contornos ameaçadores. A simples ausência de um “rosto” para negociar cria um vazio que o espectador preenche com medo.
Essa desmaterialização abre caminho para representações cada vez mais abstratas de IA, e a década de 1970 abraça essa vertente com entusiasmo. Em Colossus: The Forbin Project (1970), a inteligência artificial não apenas desenvolve autoconsciência como estabelece comunicação direta com sua contraparte soviética, inaugurando um cenário de paranoia tecnológica global. Aqui, mais uma vez, a ausência de corpo reforça o terror: não é uma máquina gigante marchando pelas ruas, mas uma presença invisível, lógica e inevitável, tomando as rédeas do destino humano com a frieza de quem não precisa de músculos para subjugar — apenas de cálculos.
Nos anos 80, essa inteligência artificial sem rosto que HAL inaugurou voltou a ganhar corpo — e que corpos. Blade Runner (1982) e O Exterminador do Futuro (1984) retomam a tradição antropomórfica dos autômatos antigos, mas agora em versões muito mais sofisticadas e, sobretudo, letais.
Em vez de gigantes de bronze como Talos ou criaturas místicas como o Golem, surgem replicantes e ciborgues que imitam tão bem a forma humana que o próprio conceito de identidade começa a ruir. O corpo, que antes funcionava como ponte de reconhecimento e empatia, vira um disfarce perfeito para algo que não sente culpa, fadiga ou remorso.
Essa volta ao antropomorfismo não é um retrocesso, mas uma atualização do medo. Depois de HAL, que aterrorizava justamente por não ter rosto, o cinema apresenta máquinas capazes de manipular justamente aquilo que nos deixa mais vulneráveis: a familiaridade. Nada mais perturbador do que uma criatura que parece humana o suficiente para inspirar confiança — e que usa essa confiança contra nós.Na virada da década de 1990, Matrix (1999) levou a inteligência artificial a um patamar ainda mais inquietante. Aqui, a IA não quer apenas dominar, vigiar ou enganar: ela transforma a própria humanidade em bateria viva, reduzindo nossa existência ao estatuto de recurso energético — um rebaixamento ontológico tão brutal quanto engenhoso. O que assusta em Matrix não é apenas a sofisticação tecnológica, mas a elegância com que o filme traduz velhas ansiedades humanas em um sistema digital totalitário.
Vale lembrar que as irmãs Wachowski construíram Matrix a partir de um amplo repertório da cultura pop — quadrinhos, filosofia, videogames, cyberpunk japonês — e Ghost in the Shell (1995) foi apenas uma das muitas influências, não um molde único. A animação de Mamoru Oshii, baseada no mangá de Masamune Shirow, forneceu a estética da interface homem-máquina, a fluidez das identidades digitais e a inquietação do corpo como limite. Matrix reorganiza todos esses elementos em outro contexto, combinando mitologia, ação coreografada e uma angústia metafísica bem ocidental.
Logo depois de Matrix estremecer a virada do milênio, o cinema abraçou a inteligência artificial com a empolgação de quem finalmente tinha brinquedos novos para testar. O primeiro a entrar em cena foi o projeto kubrickiano adotado por Spielberg em A.I. – Inteligência Artificial (2001), que misturou fábula futurista, angústia existencial e um menino-robô que sofre mais do que muito protagonista de drama europeu. Poucos anos depois, surgiu S1m0ne (2002), em que Al Pacino vive um diretor obcecado por sua atriz digital perfeita — uma sátira que envelheceu tão bem que hoje parece documentário.
Já Ex Machina (2014) levou a discussão para um laboratório minimalista onde a IA não só pensa e sente, como avalia metodicamente quão manipuláveis somos. Entre uma metáfora e outra, o cinema do início do século deixou claro que a IA não seria apenas ferramenta, mas espelho — daqueles que devolvem a imagem ampliada das nossas ilusões, vaidades e fragilidades.
Nos últimos dez anos, o cinema só reforçou o fato de que a inteligência artificial virou hóspede fixo da cultura pop — daqueles que chegam para “ficar um pouquinho” e nunca mais vão embora. Chappie (2015) e Morgan (2016) retomaram o velho pavor da criatura que aprende rápido demais, como se a humanidade não tivesse entendido a lição das últimas cinco mil narrativas sobre esse tema.Em 2017, Blade Runner 2049 trouxe de volta o universo daquele que talvez seja o cult movie definitivo, o filme que praticamente deu sentido ao próprio termo. A sequência não apenas respeita a herança do original como amplia seu debate sobre o que significa existir quando até a alma vem com número de série. Vale lembrar que essa influência atravessou décadas e linguagens: muito antes da continuação chegar às telas, os Replicantes já tinham batizado sua banda com o conceito do filme e lançado o álbum Sonham os Andróides com Guitarras Elétricas?, prova de que Blade Runner havia fincado raízes profundas na cultura pop. E, vivendo em um mundo onde nossos smartphones parecem estar a uma atualização de distância de ter crises existenciais próprias, o retorno desse universo distópico jamais pareceu tão pertinente.
Paralelamente, a televisão também deixou sua marca: Black Mirror, com sua coleção de futuros desconfortavelmente plausíveis, dedicou vários episódios às consequências da inteligência artificial — às vezes como tema principal, outras como detalhe aparentemente banal do cotidiano dos personagens, o que acaba sendo ainda mais perturbador. Da cópia digital de consciências em White Christmas ao aprendizado emocional de Be Right Back, passando por interfaces inteligentes que sabiam mais sobre seus usuários do que eles próprios, a série ajudou a solidificar o sentimento moderno de que a IA não é mais um monstro distante, mas uma presença silenciosa e inevitável, sempre à espreita no canto da tela.
Enquanto isso, o cinema ficou cada vez mais confortável em imaginar inteligências artificiais tomando decisões que ninguém pediu. Upgrade (2018) levou essa ideia ao limite, com um implante assumindo o volante — literalmente — do corpo humano. Archive (2020) mergulhou na reconstrução digital de afetos, e M3GAN (2022) provou que uma IA pode ser homicida e ainda manter uma agenda social mais organizada que a nossa.
Depois veio A Garota Artificial (The Artifice Girl, 2022), lembrando que a discussão ética continua viva, desconfortável e cada vez mais difícil de ignorar — especialmente quando a IA em questão entende nossos traumas com mais precisão do que nós mesmos.
Mais recentemente, The Creator (2023) e Atlas (2024) confirmaram que a inteligência artificial deixou de ser metáfora distante para se tornar um tema recorrente, quase burocrático. E, pelo andar da carruagem, 2025 não será o ano em que daremos férias a essas máquinas imaginárias — até porque elas parecem trabalhar muito melhor sem descanso do que nós.
No fim das contas, nada disso deveria nos surpreender. Desde Talos patrulhando Creta até Samantha sussurrando filosofias existenciais no ouvido de Joaquin Phoenix, a humanidade continua recorrendo às mesmas perguntas — apenas troca o barro por silício e o bronze por algoritmos. A inteligência artificial, tão moderna em sua aparência reluzente, é apenas a mais recente versão de uma velha fixação: a vontade de criar algo à nossa imagem, seja para nos proteger, nos servir ou, ironicamente, nos substituir. E assim, enquanto discutimos se a IA vai dominar o mundo ou apenas escolher playlists melhores que as nossas, talvez devêssemos admitir que o fascínio nunca foi realmente pela máquina, mas pelo espelho que ela segura na nossa direção.










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