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terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Pornotopia


 Quando Pornotopia, de Paul B. Preciado, foi publicado em 2008, Hugh Hefner ainda estava vivo — morreria apenas em 2017 — e a Playboy, embora em decadência evidente, insistia em sobreviver como revista impressa, sustentada mais pela obstinação de seu fundador do que por relevância cultural. O ecossistema digital ainda não havia se consolidado nos moldes atuais: o YouTube engatinhava, plataformas como Xvideos, OnlyFans ou Privacy não existiam tal como hoje, mas seus princípios já se anunciavam em experiências dispersas e embrionárias.

O que se desenhava naquele momento era uma transformação profunda na circulação das imagens e dos corpos. A internet, ao acelerar e multiplicar fluxos visuais, inaugurava uma tecnologia pornográfica global que tornava a Playboyum artefato anacrônico — lento, institucionalizado, quase constrangido diante de um consumo sexual cada vez mais direto e desintermediado. Não se trata apenas de pornografia: há algo estrutural na relação entre tecnologia e sexualidade. Toda inovação técnica, da imprensa ao telefone, acabou encontrando sua tradução erótica. O digital — assim como as inteligências artificiais — não inaugura uma exceção, mas repete um padrão recorrente: toda tecnologia, cedo ou tarde, acaba atravessada por usos eróticos. Vide o filme "Ela" do Spike Jonze.

No posfácio da edição brasileira, Preciado observa que “a Pornotopia Playboy está morrendo, mas somos todos necrófilos”. A frase funciona menos como provocação do que como diagnóstico. O desaparecimento da Playboy não significa o fim da lógica que ela ajudou a instaurar. Ao contrário: o que se assiste hoje é a radicalização de seus pressupostos sob novas formas — mais fragmentadas, mais vigilantes e paradoxalmente mais moralizadas.

O cancelamento tampouco se mostra eficaz quando dirigido a figuras públicas como Jair Bolsonaro, que não se constrangem diante de acusações de machismo ou racismo e não moldam sua atuação a partir desse tipo de reprovação. Nesses casos, a denúncia moral é inócua. Sua força aparece em outro lugar: no interior do próprio campo progressista. É ali que a punição simbólica funciona, atingindo indivíduos que dependem de reconhecimento social, redes profissionais e vínculos afetivos — justamente aqueles para quem a exclusão tem custo real.

Embora a direita também recorra à difamação e ao ataque pessoal, tende a fazê-lo contra adversários externos, raramente voltando seus métodos contra os seus. Já no progressismo, a sanção opera como instrumento de disciplina interna, voltado a garantir alinhamento e reduzir dissenso. O efeito não é a persuasão, mas a conformidade.

A consequência direta desse ambiente é a retração do discurso. Muitos deixam de se manifestar não por coerção institucional, mas por receio de isolamento e perda de capital simbólico. Assuntos passam a ser evitados, questionamentos são abandonados antes de formulados e a circulação de ideias se estreita. O debate se empobrece e cede lugar a posições repetidas mais por segurança do que por convicção.

Pornotopia ajuda a compreender esse cenário ao rastrear as origens do consumo contemporâneo da intimidade. Dos reality shows à exposição constante nas redes sociais, da monetização do cotidiano à figura do influenciador digital, tudo parece herdeiro direto de um modelo inaugurado pela Playboy a partir de 1953. Em poucos anos, a revista se tornaria o periódico de maior circulação nos Estados Unidos, não apenas por suas imagens, mas pelo modo de vida que promovia.

Ao incorporar arquitetura, design, moda, música e literatura, a Playboy ofereceu aos homens do pós-guerra uma pedagogia da masculinidade moderna. Um projeto cultural que hoje se encontra sob ataque, mas raramente enfrentado em seus próprios termos. Preciado demonstra como a revista não era apenas um produto editorial, mas um dispositivo político que reorganizava a relação entre espaço doméstico, desejo e identidade masculina.

No início dos anos 1950, os Estados Unidos ainda operavam sob um regime de vigilância moral severa. A vida cultural urbana era estreita, fragmentada, e qualquer desvio dos códigos de decoro era rapidamente enquadrado como ameaça à ordem. Fora de pequenos enclaves intelectuais, como alguns quarteirões do Greenwich Village, inexistia uma cena alternativa articulada. A literatura considerada “imprópria” circulava de forma semiclandestina, músicos que mais tarde simbolizariam ruptura ainda não haviam emergido, e a simples posse de certos livros podia resultar em estigmatização social ou intervenção policial. Nesse contexto, a Playboy não causou escândalo apenas por expor corpos, mas por deslocar o desejo para fora da intimidade, tornando visível aquilo que até então permanecia restrito ao espaço doméstico e à imaginação privada.Como lembrou Gay Talese, antes da Playboy muitos homens jamais tinham visto uma fotografia colorida de uma mulher nua. Comprar a revista era um gesto carregado de vergonha. Ainda assim, ela inaugurou novas formas de subjetividade masculina e de domesticidade pública que moldariam a cultura americana das décadas seguintes.

Longe de se reduzir à pornografia, o projeto da Playboy operava em um nível mais profundo. Ele partia de uma constatação silenciosa: no pós-guerra, o lar era um território codificado como feminino. A casa, sobretudo a casa suburbana, pertencia à mulher; o homem a atravessava, mas não a habitava plenamente. Seu espaço de realização simbólica permanecia fora — no trabalho, no bar, na rua, nos clubes masculinos. A Playboy intervém justamente nesse arranjo ao propor uma reconquista masculina do interior doméstico, não como retorno ao modelo familiar tradicional, mas como fundação de um novo tipo de moradia: o apartamento do solteiro urbano, pensado como extensão do mundo externo, equipado com tecnologia, design e dispositivos de prazer, e deliberadamente dissociado das normas conjugais.

Esse gesto implicava uma tensão delicada. Para ocupar um espaço culturalmente identificado com o feminino, a revista precisava redefinir seus códigos. Práticas como o cuidado estético do ambiente, o investimento em mobiliário e a atenção ao design, até então vistas como atributos da mulher, são reclassificadas como expressões de uma masculinidade moderna e sofisticada. A nudez feminina recorrente cumpre aí uma função estratégica: atua como selo de garantia heterossexual, neutralizando qualquer suspeita de ambiguidade e reafirmando, mês após mês, que aquele novo habitat doméstico continuava sendo um espaço de desejo masculino normativo.

Nesse movimento, Pornotopia evidencia uma contradição central do projeto Playboy. Ao mesmo tempo em que a revista desmontava a associação automática entre espaço doméstico e feminilidade, recusava enfrentar a crítica feminista à dominação masculina. Apropriava-se de certos gestos de ruptura — no campo dos costumes e da moral sexual — sem, contudo, colocar em questão as hierarquias de gênero que sustentavam esse mesmo sistema. O resultado foi a formulação de uma masculinidade que se afastava da rigidez vitoriana, mas que preservava intacta a lógica do poder masculino, reorganizando-a sob formas mais flexíveis e culturalmente aceitáveis.

Ao retomar esse percurso, Pornotopia ajuda a iluminar a genealogia de discursos que hoje se espalham com facilidade pelas redes, do universo redpill à proliferação de coaches de masculinidade que transformam frustração e ressentimento em produto. Não há aqui qualquer tentativa de reabilitar a Playboy ou de romantizar seu legado. O que se evidencia é como certos dispositivos culturais, apenas ensaiados naquele momento histórico, foram posteriormente potencializados e explorados em escala industrial, adaptando-se a um ambiente digital onde identidade, consumo e performance masculina se confundem.

TTalvez o paradoxo mais sintomático do momento atual esteja na relação com o corpo. O cinema comercial praticamente eliminou o sexo e a nudez, sobretudo quando se trata de atores e atrizes consagrados. Quando essas imagens reaparecem de forma pontual — como nos filmes recentes de Jennifer Lawrence — o efeito não é de naturalidade, mas de estranhamento. O desconforto revela menos uma ruptura cultural do que um retorno disfarçado ao pudor, agora administrado por uma geração que se afirma progressista, mas reage à exposição do corpo com reflexos quase vitorianos.

Nesse aspecto, há uma curiosa convergência entre campos ideológicos que se pretendem opostos. O progressista moralizado e o cristão conservador compartilham, ainda que por razões distintas, uma mesma aversão social à nudez. Ambos toleram o corpo apenas quando ele se submete a uma justificativa prévia — seja religiosa, seja política. A nudez deixa de ser um dado humano para se tornar um ato suspeito, que precisa ser explicado, contextualizado, autorizado.

O corpo nu, assim, só é admitido quando passa por um filtro moral. Não se trata mais de proibição aberta, mas de regulação simbólica. A nudez é aceita como discurso, como denúncia ou como pedagogia, nunca como presença direta. Quem a defende publicamente, muitas vezes o faz menos por convicção do que por conformidade com aquilo que o consenso do momento permite, evitando qualquer risco de dissenso ou ruído moral.

É nesse terreno que floresce a figura do esquerdomacho: alguém que não abandona a objetificação, apenas a reorganiza sob um léxico virtuoso. O desejo não desaparece, mas é cuidadosamente ocultado sob camadas de discurso ético, sempre atento ao medo do confronto e à vigilância dos pares. Mais do que romper com o imaginário da Playboy, o presente parece administrá-lo com cautela, trocando a franqueza explícita do passado por uma hipocrisia bem-comportada e socialmente aceitável.

Talvez o ponto mais desconfortável dessa discussão esteja justamente na sensação de retorno. Os Estados Unidos que deram origem à Playboy — moralistas, vigilantes, obcecados com decoro público e aterrorizados pela exposição do desejo — não desapareceram: reapareceram sob novas roupagens. A diferença é que, se nos anos 1950 a repressão vinha do Estado, da Igreja e das instituições formais, hoje ela se manifesta por meio de códigos morais difusos, impostos socialmente e reforçados por comunidades que se acreditam esclarecidas.

Playboy nasceu como reação a um país que confinava o sexo ao silêncio e ao espaço privado, transformando o corpo em ameaça moral. Setenta anos depois, o cenário parece curiosamente familiar. O discurso mudou, a linguagem se sofisticou, mas o impulso regulador permanece. O corpo continua sendo tolerado apenas quando se submete a uma função — política, pedagógica ou identitária. Fora disso, volta a ser visto como excesso.

Nesse sentido, o presente não representa uma superação daquele puritanismo, mas sua atualização. O progressismo disciplinador e o conservadorismo religioso, embora se enfrentem no vocabulário, convergem na prática: ambos desconfiam da nudez, ambos exigem justificativas, ambos tratam o desejo como algo que precisa ser controlado. O que muda não é a lógica, mas o selo de aprovação.

Ao ler Pornotopia hoje, o desconforto não vem apenas da anatomia do passado que o livro expõe, mas do espelho que ele oferece ao presente. A cultura que acreditava ter enterrado a moral vitoriana talvez apenas a tenha internalizado. E, nesse retorno silencioso aos anos 1950, o que se anuncia não é um avanço, mas uma recaída — agora mais elegante, mais bem articulada e, por isso mesmo, mais difícil de confrontar.

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