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A seguir, um breve guia pelas histórias inaugurais de Martin Mystère. Para esta primeira parte, concentro-me nas cinco aventuras que apresentam o personagem ao leitor — todas reunidas no volume 1 da nova edição brasileira, lançada recentemente pela Editora 85 e disponível neste link.
Mais do que um ponto de partida cronológico, esse conjunto inicial funciona como um retrato em formação: ali estão, ainda em estado bruto, os temas, obsessões e ambiguidades que definiriam o chamado “Detetive do Impossível”.
OS HOMENS DE NEGRO
A estreia do chamado “Detetive do Impossível” evita, de forma consciente, a cartilha tradicional das histórias de origem. Não há infância traumática, revelação fundadora ou momento solene de transformação. Em vez disso, a narrativa se abre com uma carta: de Kalabaka, na Grécia, o arqueólogo Edouard Morel — velho amigo de Martin — envia documentos encontrados em um antigo mosteiro, papéis capazes de desestabilizar versões confortáveis e oficiais da história da humanidade.Quando Martin Mystère finalmente surge em cena, ele já está em movimento. Ao lado de seu assistente Java — um homem de Neandertal deslocado no tempo e no mundo —, participa de uma expedição na costa italiana. Não se trata de apresentação, mas de constatação: Martin já é quem é. A aventura registra também a primeira aparição de Diana Lombard, sua namorada, ainda sem peso dramático real. Sua função, por ora, é menos narrativa do que simbólica: é através de seu ciúme que se delineia um traço essencial do protagonista, o de sedutor contumaz, quase displicente. Ao menos ao seu olhar.
É nessa mesma história que surgem os Homens de Negro, organização secreta destinada a se tornar presença constante na série. Aqui, sua missão é explícita e brutal: suprimir qualquer vestígio que ameace as versões oficiais sobre a evolução humana e o passado do planeta. Alfredo Castelli estabelece, assim, um dos eixos centrais de seu universo ficcional — a tensão permanente entre conhecimento proibido e história institucionalizada.
No Brasil, Os Homens de Negro já conheceu mais de uma encarnação editorial. Foi publicada originalmente na edição nº 1 da RGE — que, a partir do número seguinte, adotaria o nome Editora Globo — e reapareceu depois pela Editora Record, que, embora tenha mantido a numeração herdada da Globo, decidiu republicar justamente essa aventura inaugural. Para quem quiser se aprofundar em curiosidades e conexões desse início de série, vale ainda consultar o texto dedicado a Doc Robinson, disponível aqui mesmo no blog, neste link.
A VINGANÇA DE RÁ
Mais extensa que a aventura inaugural — e avançando até a edição nº 3 de Martin Mystère —, A Vingança de Rá ocupa uma posição curiosa na cronologia criativa da série. Concebida originalmente para ser a primeira história do personagem, acabou deslocada por decisão de Alfredo Castelli. Não se sabe ao certo o que motivou a mudança, mas o autor parece ter considerado que outra aventura seria mais adequada para apresentar Martin Mystère ao leitor. A trama não foi descartada; apenas mudou de lugar, tornando-se a segunda peça desse início de série.Aqui, Martin é procurado por Beverly Howard, filha do arqueólogo Sir Walter Howard, desaparecido na América Central, mais precisamente em Belmopan, no atual Belize. O motivo do sumiço é tão ambicioso quanto perigoso: a descoberta de evidências que sugerem uma ligação histórica entre as civilizações maia e egípcia — um daqueles temas que sintetizam com precisão a vocação da série para o cruzamento entre arqueologia, mito e história não oficial.
Beverly não é uma figura episódica. Ela retornaria em histórias posteriores, já na edição nº 4, em A Estirpe Maldita, e mais tarde na edição nº 57 da série italiana, em Magia Africana, publicada no Brasil pela Mythos na edição nº 16 da primeira série lançada pela editora, em 2003. Sua presença ajuda a dar continuidade e densidade a esse universo em formação, no qual personagens reaparecem como ecos de investigações mal resolvidas.
É também em A Vingança de Rá que surge, enfim, Sergej Orloff, o grande arqui-inimigo de Martin Mystère. Apenas citado de forma enigmática na história anterior, Orloff ganha aqui corpo e voz. Ao lado dos Homens de Negro, ele passa a integrar o núcleo duro de antagonistas da série — figuras que não apenas se opõem ao herói, mas encarnam forças organizadas contra a revelação do conhecimento, reforçando a sensação de que, no mundo de Martin Mystère, a verdade nunca está desprotegida, mas sempre sob cerco.
PERAÇÃO ARCA
Ao prestar auxílio a um homem que se apresenta como Simon Berger, perseguido pelos Homens de Negro no Central Park, Martin Mystère se vê, mais uma vez, arrastado para uma investigação que começa de forma casual e rapidamente se revela extraordinária. Berger — na verdade um milionário texano — não fugia por acaso: ele vinha tentando localizar o próprio Mystère após reunir indícios da existência da Arca de Noé, supostamente preservada sob o gelo do Monte Ararat, na Turquia.A revelação não representa uma ruptura, mas um desdobramento natural do que já vinha sendo sugerido nas histórias anteriores. Mais uma vez, um grande mito civilizatório surge não como crença, mas como problema a ser investigado, inserindo Martin em um território onde arqueologia, hipótese e conspiração caminham lado a lado — ainda de maneira experimental, mas já reconhecível.
Operação Arca é uma história relativamente breve, com cerca de 70 páginas, e ocupa a parte final da edição nº 3 da série. As primeiras trinta páginas do volume ainda são dedicadas ao desfecho de A Vingança de Rá, fazendo desta aventura uma espécie de epílogo veloz, quase um intervalo narrativo, que encerra esse primeiro ciclo de apresentações do universo criado por Alfredo Castelli.
ESTIRPE MALDITA
A edição 4 se inicia, mais uma vez, com uma história curta. Martin Mystère está na Itália, acompanhado de Java e Diana, quando é abordado por figuras suspeitas interessadas em contrabandear para os Estados Unidos uma série de peças etruscas de procedência duvidosa. Quase simultaneamente, o detetive do impossível descobre que Beverly Howard — personagem já apresentada em A Vingança de Rá — também se encontra no país.Ao lado dela e de Franco Sazzani, especialista na civilização etrusca, o grupo parte para a região da grande macchia, território que as lendas apontam como um núcleo mágico da antiga Etrúria. O objetivo da expedição é localizar Geri, um saqueador de túmulos que não apenas se diz descendente direto dos etruscos, mas vive como tal: veste-se segundo antigos rituais, utiliza termos etruscos em sua fala e habita uma construção inspirada nas moradias funerárias dessa civilização extinta.
A edição se encerra com o prólogo de uma aventura de fôlego maior, “Terror em Providence”, que se desenvolve plenamente no número seguinte, ampliando o escopo da série e sinalizando um mergulho ainda mais profundo no território onde mito, história e horror se confundem.
TERROR EM PROVIDENCE / A CASA NOS CONFINS DO MUNDO
Iniciada na edição 4, Terror em Providence é uma história que, vista hoje, parece antecipar o universo de Dylan Dog. Como o Detetive do Pesadelo só seria criado cerca de cinco anos depois, cabe a Martin Mystère assumir aqui o papel de mediador entre o real e o horror, conduzindo uma investigação que se afasta progressivamente da lógica policial convencional.O ponto de partida é um enigma perturbador: Carlos Agreda, um ladrão de pouca importância, surge inexplicavelmente em uma estação de Nova York logo após assassinar Sanford, morador de uma casa isolada em Providence — crime cometido durante uma tentativa de roubo. O problema é geográfico e factual: Providence fica a pelo menos cinco horas de viagem da cidade de Nova York e não há qualquer indício de deslocamento por avião ou outro meio plausível.
Diante do impasse, Martin Mystère é contratado pela polícia para esclarecer como Agreda poderia estar em dois lugares tão distantes em um intervalo de tempo incompatível com as leis conhecidas.
A segunda parte da história, publicada na edição 5, acompanha Martin e Java já em Providence, onde a investigação se concentra na estranha casa em que o assassinato ocorreu. É ali que a narrativa abandona definitivamente o terreno do mistério racional e revela uma ligação inquietante com um dos mais ilustres habitantes da cidade: H. P. Lovecraft. A partir desse ponto, Terror em Providence assume plenamente sua vocação: não apenas resolver um crime, mas explorar os limites entre espaço, tempo e horror cósmico.
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Reunidas neste primeiro volume de Martin Mystère, lançado recentemente no Brasil pela Editora 85, essas histórias não apenas apresentam o Detetive do Impossível, mas delimitam o campo em que a série passaria a operar: um território onde investigação racional, mitologia antiga e horror se contaminam mutuamente. O volume traz ainda, como extra, a primeira versão de “Os Homens de Negro”, peça quase arqueológica que revela a série em estado bruto e ajuda a entender como suas obsessões narrativas se consolidariam ao longo do tempo (mais detalhes nesse link).






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