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Este texto corresponde à versão integral de uma matéria publicada anteriormente na revista Calafrio. Na edição impressa, a necessidade de cortes para adequação ao espaço acabou produzindo distorções indesejáveis. Ao reler o material publicado, tornou-se evidente que algumas supressões comprometeram o contexto e a precisão histórica — como no caso da impressão de que Frankenstein teria sido o primeiro filme de terror, o que simplesmente não corresponde aos fatos. Esta versão busca, portanto, restituir a progressão correta dos acontecimentos e o sentido original da análise.
O primeiro grande momento de consolidação do terror junto ao público ocorreria na década de 1930, com os chamados Monstros da Universal. Filmes como Drácula (1931) — que chegou a ter uma versão em espanhol filmada simultaneamente —, Frankenstein (1931), A Múmia (1932), O Homem Invisível (1933), recentemente revisitado em uma nova e competente versão, e O Lobisomem (1941) estabeleceram arquétipos que atravessariam gerações. Nomes como Bela Lugosi, Boris Karloff e Lon Chaney Jr. tornaram-se indissociáveis dessas criaturas, ajudando a fixar o terror como um gênero popular, reconhecível e duradouro.
O público, por sua vez, sempre demonstrou prazer em sentir medo no cinema. O terror funciona como uma válvula de escape para ansiedades cotidianas, oferecendo uma experiência controlada do pavor. Existe um pacto implícito entre filme e espectador: o susto pode ser intenso, o pesadelo pode parecer real, mas ao final as luzes se acendem e a segurança retorna. É justamente essa distância — essa consciência de que o horror é encenado — que torna o medo suportável e, paradoxalmente, desejável.
Esta introdução, que necessariamente deixa de fora inúmeros títulos e momentos relevantes, serve apenas como ponto de partida. A intenção aqui não é revisitar exaustivamente a história do cinema de terror, mas preparar o terreno para o verdadeiro foco desta matéria: o cinema slasher, talvez o subgênero mais popular, mais explorado e também mais controverso dentro do horror.
SLASHER
Definir o slasher nunca foi tarefa simples. Ainda assim, é possível identificar um conjunto recorrente de elementos: um assassino quase sempre marcado por deformidade física, deficiência ou trauma psicológico, movido por vingança ou por um impulso compulsivo; vítimas majoritariamente jovens; um espaço isolado que dificulta a fuga; armas brancas ou instrumentos improváveis elevados à condição de assinatura visual; autoridades ausentes, ineficazes ou incrédulas; e, por fim, a sobrevivência de uma jovem que, não por acaso, costuma se distinguir do grupo por sua contenção sexual. O roteiro, em geral, anuncia suas reviravoltas com antecedência suficiente para que o espectador as antecipe — o prazer está menos na surpresa do que na repetição ritual.
O surgimento desse modelo está diretamente ligado a uma mudança estrutural no cinema americano. No final dos anos 1960, o Código Hays havia sido abandonado, substituído pelo sistema de classificação indicativa que vigora até hoje. Filmes como Bonnie and Clyde (1967) sinalizavam uma nova permissividade estética e moral. Nos anos 1970, os Estados Unidos atravessavam a ressaca da Guerra do Vietnã, o trauma político do caso Watergate e um clima generalizado de desconfiança institucional. A chamada Nova Hollywood não apenas refletiu esse ambiente — em muitos aspectos, ajudou a intensificá-lo.
O cinema de terror sempre funcionou como um termômetro dos medos de seu tempo. Se, nas décadas de 1950 e 60, predominavam as ansiedades nucleares e científicas, o slasher desloca o foco para os temores da sociedade conservadora americana. O sexo passa a ser associado à punição, o prazer juvenil transforma-se em indício de culpa, e o uso de drogas surge como sentença antecipada. Não se trata de uma metáfora sutil: o pecado é literalmente castigado.
Curiosamente, embora esses filmes expressem o medo dos adultos diante de uma juventude que desafia regras morais, são justamente os jovens o público-alvo do gênero. A combinação de nudez, erotismo e violência gráfica é deliberadamente excessiva, a ponto de converter o choque em espetáculo. O sangue deixa de ser perturbador e passa a integrar a diversão — um jogo de exageros que aproxima o slasher mais de um entretenimento ritualizado do que do horror psicológico propriamente dito.
Como todo subgênero, o slasher comporta inúmeras variações e exceções, mas sua espinha dorsal permanece facilmente reconhecível. A pergunta que se impõe, portanto, não é apenas o que ele é, mas de onde ele vem. A resposta, como quase sempre no cinema, não aponta para um único título ou momento fundador, mas para uma confluência de filmes, tendências e obsessões que precisam ser examinadas com algum cuidado.
O CINEMA PRÉ-SLASHER
Nada como uma data redonda para organizar o raciocínio. Por isso, faz sentido começar em 1960, último ano da década de 1950, quando Alfred Hitchcock — então no auge de sua precisão narrativa — voltava a chocar plateias do mundo inteiro com Psicose, adaptação do romance homônimo de Robert Bloch, publicado no ano anterior e inspirado livremente nos crimes de Ed Gein. O livro é, convenhamos, bastante frágil. Mas Hitchcock sabia algo que o cinema comprovaria inúmeras vezes depois: romances baratos costumam render grandes filmes, desde que exista talento suficiente por trás da câmera.
Hoje, Psicose ocupa um lugar curioso no imaginário popular. É um daqueles filmes conhecidos até por quem jamais o assistiu, reduzido a imagens, sons e ideias que se tornaram parte da cultura geral. Durante os anos 1980, ainda geraria continuações — algo perfeitamente coerente com a lógica dos gêneros populares. Embora não seja um slasher em sentido estrito, suas contribuições para a formação do subgênero são evidentes. Estão ali a vítima isolada, o espaço inóspito, a faca como instrumento do crime e o assassino atormentado. Some-se a isso a trilha sonora cortante de Bernard Herrmann, que praticamente ensina ao espectador como sentir medo. Mais do que isso, Psicose traduz com clareza os fantasmas de uma sociedade conservadora: o sexo como desvio, a repressão transformada em patologia, a perversão deslocada para a figura materna.
Curiosamente, o mesmo ano de 1960 também viu o lançamento de A Tortura do Medo (Peeping Tom), produção britânica que, em muitos aspectos, vai ainda mais longe. O filme acompanha um homem obcecado em registrar o instante exato do terror no rosto de suas vítimas, assassinando mulheres enquanto as filma. Ao contrário de Psicose, que foi imediatamente reconhecido como marco, Peeping Tom provocou repulsa crítica e praticamente encerrou a carreira de seu diretor, Michael Powell, que jamais se recuperaria do ostracismo imposto pelo filme.
São duas obras distintas, mas fundamentais para aquilo que viria a se consolidar mais tarde como o cinema slasher. Antes de avançar nesse percurso, no entanto, é necessário fazer uma breve pausa e olhar para outro gênero igualmente decisivo nesse processo — um desvio lateral que merece, inclusive, uma análise própria.
GIALLO
Ao longo dos anos 1960, os gialli ainda se desenvolveram de forma irregular, ensaiando uma identidade própria. Foi apenas na década de 1970 que o gênero atingiu seu auge criativo e comercial, impulsionado por cineastas que levaram suas obsessões visuais e temáticas a um grau extremo de estilização. Nomes como Dario Argento (O Pássaro das Plumas de Cristal), Lucio Fulci (O Estranho Segredo do Bosque dos Sonhos), Umberto Lenzi (Sete Orquídeas Manchadas de Sangue), Massimo Dallamano (O Que Vocês Fizeram com Solange?), Sergio Martino (Torso), entre muitos outros, consolidaram um cinema de suspense violento, sensual e profundamente gráfico.
Apesar das variações de tom e abordagem, os gialli compartilham uma estrutura bastante reconhecível. O assassino quase sempre permanece oculto, identificado apenas por fragmentos — mãos enluvadas, lâminas reluzentes, movimentos calculados. A investigação costuma ser conduzida por um policial ou por um civil envolvido involuntariamente no crime, frequentemente ao lado de uma protagonista feminina. As vítimas, em sua maioria mulheres, habitam um universo em que a violência explícita e a nudez não funcionam como adornos ocasionais, mas como elementos constitutivos do espetáculo.
Entre todos esses títulos, um merece destaque especial. Em 1971, Mario Bava dirigiu Banho de Sangue. Nele, um grupo de jovens se reúne em um local isolado e passa a ser eliminado, um a um, por um assassino misterioso. As mortes, encenadas com criatividade e crueldade gráfica, exerceriam influência direta sobre o cinema slasher que surgiria pouco depois, em especial sobre um filme específico que será abordado mais adiante.
OUTROS PRE SLASHERS
O slasher é, em essência, um gênero americano. Ainda assim, qualquer tentativa consistente de mapear sua formação precisa atravessar a fronteira e considerar o canadense Noite do Terror (Black Christmas, 1974), dirigido pelo sempre interessante Bob Clark. O elenco ajuda a situar o filme num ponto de transição particularmente fértil: Keir Dullea, ainda fortemente associado a 2001: Uma Odisseia no Espaço; John Saxon, presença recorrente e familiar no cinema de gênero; e Margot Kidder, eternizada como Lois Lane, mas também figura marcante do terror dos anos 1970, em títulos como Irmãs Diabólicas (1972), de Brian De Palma, e Amityville (1979).
Mais do que um simples antecedente, Noite do Terror pode ser entendido como um verdadeiro laboratório do slasher. Estão ali vários de seus elementos centrais: o assassino traumatizado, o grupo de jovens como alvo preferencial e, sobretudo, a ambientação vinculada a uma data comemorativa — detalhe que o título original faz questão de sublinhar. Há ainda uma inversão significativa daquilo que se tornaria regra no gênero: a final girl não corresponde ao arquétipo virginal e moralmente “correto”. Ao contrário, a personagem considera seriamente a possibilidade de abortar, gesto que tensiona de forma direta os valores conservadores que o slasher, em muitos momentos, parece reafirmar.
Curiosamente, em sua estreia americana, o filme chegou a ser exibido com o título Silent Night, Evil Night. A mudança não foi casual. Bob Clark temia que o nome original fosse confundido com produções do ciclo blaxploitation, então em alta, e optou por um título que dialogasse mais diretamente com o terror natalino tradicional — uma decisão reveladora do funcionamento do mercado da época e de seus compartimentos ainda bastante rígidos.
Como ocorre com quase tudo no gênero, Noite do Terror acabaria sendo reciclado. Em 2006, ganhou uma refilmagem oportunista e pouco inspirada, típica da onda de reboots que varreu o terror naquele período. Mais recentemente, recebeu uma nova versão, lançada no Brasil como Natal Sangrento — título que exige alguma atenção para não ser confundido com o filme homônimo de 1984 e suas continuações. Essa versão mais recente traz Imogen Poots (Extermínio 2), atriz que, curiosamente, também esteve na refilmagem malfadada de A Hora do Espanto (2011). Apesar das reservas, trata-se de uma releitura até interessante, que procura se afastar da simples repetição e merece ser vista sem o preconceito automático que costuma acompanhar refilmagens do gênero.
Em 1974, Tobe Hooper realizou aquele que se tornaria um dos filmes mais influentes do terror moderno: O Massacre da Serra Elétrica. Trata-se de mais um caso exemplar de obra conhecida até mesmo por quem jamais a assistiu, tamanha a força e a persistência de seu imaginário. O título brasileiro, no entanto, cria uma expectativa enganosa. Não é a serra elétrica que estrutura o massacre propriamente dito; a motosserra surge sobretudo como instrumento de perseguição e intimidação, mais associada ao pânico e ao descontrole do que à execução direta das vítimas.
Ainda assim, o filme reúne elementos decisivos para a consolidação do slasher. Um grupo de jovens é isolado em um espaço hostil, distante de qualquer possibilidade de auxílio, e passa a ser caçado por uma figura assassina marcada por um detalhe visual profundamente perturbador: a máscara confeccionada com pele humana. Leatherface rapidamente se tornaria um ícone do gênero, menos por qualquer complexidade psicológica do que por sua presença física bruta e desumanizada. A partir dele, o terror doméstico ganha uma forma definitiva, gerando uma longa série de continuações e refilmagens ao longo das décadas — incluindo uma das mais recentes, lançada em 2017, que leva seu nome no título.
Dois anos antes, em 1972, Wes Craven já havia empurrado o cinema de horror para um território ainda mais incômodo com The Last House on the Left. O título original, com evidente ressonância dos gialli italianos, foi transformado no Brasil em Aniversário Macabro, uma escolha que aproxima o filme do imaginário slasher que se consolidaria pouco depois. Produzido por Sean S. Cunningham — que mais tarde dirigiria Sexta-Feira 13 e produziria toda a franquia —, o longa acompanha um grupo de sádicos liderados pelo cruel Krug (nome que merece ser retido), responsáveis por aterrorizar brutalmente uma família em um local isolado.
Mesmo passadas décadas, Aniversário Macabro continua sendo um filme difícil de suportar. Sua violência é direta, desprovida de qualquer estilização redentora, e a recusa em oferecer conforto moral ao espectador ainda hoje provoca desconforto. Não há catarse nem punição exemplar capaz de aliviar a experiência. Talvez por isso o filme tenha permanecido como uma referência incômoda dentro do gênero e, como tantos outros títulos daquele período, tenha acabado por receber uma refilmagem em 2009 — uma tentativa de reapresentar a história a um novo público, embora já sem a aspereza que tornava o original tão perturbador.
Se o filme anterior já havia gerado controvérsia, em 1977 Wes Craven realizou o hoje cultuado Quadrilha de Sádicos (The Hills Have Eyes), obra que apresenta evidentes afinidades com O Massacre da Serra Elétrica. A semelhança, no entanto, não implica derivação mecânica. Não se trata de uma cópia, mas de Wes Craven em plena forma. No filme, uma família atravessa o deserto americano e acaba sendo atacada por outra família, formada por habitantes locais tão hostis quanto perturbadores. A obra ganhou uma continuação em 1985, dirigida pelo próprio Craven, e uma refilmagem em 2006, lançada no Brasil como Viagem Maldita. Dirigido pelo competente Alexandre Aja, o remake não acrescenta nada de substancial, mas tampouco compromete o material original — até porque filmes não têm o poder mágico de apagar obras anteriores, salvo para quem insiste em tratar a própria nostalgia como patrimônio histórico ameaçado.
Um ano antes, em 1976, Comunhão (Alice, Sweet Alice) também merece menção. Assim como em O Massacre da Serra Elétrica, o assassino surge utilizando uma máscara peculiar, elemento visual que se tornaria central para o subgênero. O filme costuma ser vendido como um título “de Brooke Shields”, embora sua participação seja mínima — um caso claro de exploração publicitária baseada em seu estrelato posterior. Longe de alcançar reconhecimento imediato, o longa foi um fracasso de bilheteria à época, mas acabaria sendo redescoberto com o passar dos anos, consolidando-se como um filme cult.
Há ainda uma série de obras que, embora não se enquadrem exatamente como slashers, merecem ser citadas por sua influência e proximidade temática. Entre elas, a estreia de Abel Ferrara com o surreal e experimental O Assassino da Furadeira (1979); o australiano Night of Fear (1972), clássico da ozploitation; o britânico Inverno de Sangue em Veneza(1972) — que pede, inclusive, uma sessão dupla com Comunhão —; e Sob o Domínio do Medo (1971), de outro mestre da sétima arte, Sam Peckinpah (Meu Ódio Será Sua Herança). Não são, em sentido estrito, filmes slasher, mas funcionam como referências fundamentais para a consolidação do gênero.
O SUCESSO
Bem, já falamos sobre os precursores e os elementos do slasher. Não cabe aqui entrar em distinções conceituais entre terror, horror ou suspense — que, neste contexto, funcionam como variações de um mesmo campo — nem estabelecer fronteiras rígidas com outros subgêneros, como splatter, exploitation ou nomenclaturas afins.
O elenco contribuiu de forma decisiva para a consolidação do filme. Jamie Lee Curtis, então em início de carreira, interpreta a babá Laurie Strode e acabaria se tornando uma das mais importantes final girls da história do cinema de terror, frequentemente associada ao título de “rainha do gênero”. Donald Pleasence, por sua vez, dá vida ao Dr. Sam Loomis, médico obcecado por capturar Myers, personagem que se tornaria inseparável da mitologia da franquia. Neste primeiro filme, Laurie não possui qualquer vínculo familiar com Michael Myers — elemento que só seria introduzido em sequências posteriores.
O ano de 1979 ainda foi relativamente tímido para o slasher. Além do já citado O Assassino da Furadeira, houve o menos conhecido, mas interessante Sombra no Escuro (The Silent Scream), dirigido por Denny Harris. Lançado no mesmo período em que o gênero ainda ensaiava sua forma definitiva, o filme deixa clara sua inspiração em Psicose, perceptível tanto na condução da trilha sonora quanto em uma cena ambientada no porão que remete diretamente ao clássico de Alfred Hitchcock.
A narrativa se inicia como um slasher relativamente convencional — embora, naquele momento, o próprio gênero ainda estivesse longe de se encontrar plenamente codificado —, acompanhando jovens que passam a ser ameaçados em um ambiente aparentemente seguro. No entanto, à medida que avança, o filme se afasta do caminho esperado e segue por uma direção distinta, menos previsível, que justifica sua redescoberta e torna a experiência mais interessante do que sua obscuridade poderia sugerir.
Não é apenas a trilha que dialoga de forma direta com o clássico de Hitchcock. A própria estrutura narrativa conduz a um plot twist fortemente inspirado em Psicose, o que dispensa maiores descrições — afinal, trata-se de uma trama amplamente conhecida. Vale destacar, no entanto, a contribuição decisiva de Tom Savini, cujo trabalho com maquiagem e efeitos especiais elevou significativamente o impacto do filme e ajudou a fixar o padrão gráfico que se tornaria regra no slasher dos anos 1980.
O elenco reúne, em sua maioria, atores pouco expressivos e que não teriam carreiras relevantes posteriormente. A exceção notável é Kevin Bacon, que seguiria trajetória sólida no cinema e que, aqui, protagoniza uma das mortes mais lembradas de toda a franquia — tanto pela engenhosidade quanto pela execução dos efeitos práticos.
Com Halloween e Sexta-Feira 13, o slasher se consolidava definitivamente como um gênero reconhecível e altamente rentável. A partir daí, seguir-se-ia uma avalanche de produções de baixo orçamento, muitas delas explorando títulos associados a datas comemorativas e ocasiões festivas variadas, numa tentativa de repetir a fórmula com o mínimo de risco possível.
A atriz voltaria ao papel de Laurie Strode em Halloween II (1981), continuação direta que retoma a narrativa exatamente do ponto em que o primeiro filme se encerra. Anos mais tarde, retornaria novamente em Halloween: H20 (1998), lançado vinte anos após o original e que reposiciona a personagem depois de tê-la dado como morta em capítulos anteriores da franquia. Laurie seria finalmente eliminada em Halloween: Ressurreição (2002), encerrando, ao menos naquele momento, sua trajetória dentro da série.
Como é habitual nesse tipo de franquia, a morte não seria definitiva. Jamie Lee Curtis retornaria mais uma vez ao papel em Halloween (2018), dirigido por David Gordon Green, filme que ignora deliberadamente todas as sequências anteriores e decide continuar apenas a partir do original de 1978. A manobra é apresentada como gesto de respeito, mas rapidamente se revela outra coisa: um diretor que cita Carpenter sem dominar seus princípios básicos. Falta precisão, falta economia, falta controle de atmosfera. O que deveria ser rigor formal vira encenação dispersa, e o que pretende soar como atualização crítica termina como repetição sem nervo. Ainda assim, o êxito comercial foi suficiente para garantir a continuidade imediata do projeto, com Halloween Kills já anunciado antes mesmo que o filme tivesse tempo de se sustentar por si — sinal claro de que, ali, o planejamento industrial falou mais alto do que qualquer convicção artística.
Como se sabe, o título revelou-se otimista demais. Embora Sexta-Feira 13 – O Capítulo Final (1984) tenha sido concebido com a intenção real de encerrar a história de Jason, a recepção comercial tornaria esse desfecho inviável. Após a rejeição do quinto filme, o personagem retornaria em Sexta-Feira 13 – Parte 6: Jason Vive, quando passa por uma transformação decisiva: deixa de ser apenas um psicopata humano para assumir traços abertamente sobrenaturais, aproximando-se da figura de um morto-vivo praticamente invencível — o Jason definitivo que se fixaria no imaginário popular.
A lista poderia facilmente se estender. Sozinho, 1981 comporta uma matéria inteira — e talvez explique melhor do que qualquer outro ano por que o slasher deixou de ser tendência para se tornar um modelo industrial plenamente estabelecido.
Longe de apostar apenas no choque ou na repetição mecânica, o filme desloca o foco para a tentativa de reinserção social de Norman Bates após anos de internação, explorando paranoia, culpa e ambiguidade moral. O resultado é um suspense sólido e surpreendentemente elegante, que evita o sensacionalismo fácil e funciona tanto como continuação quanto como comentário tardio sobre o legado do filme de 1960.
Esse caminho seria aprofundado em Psicose III (1986), desta vez dirigido pelo próprio Perkins. Mais próximo da estrutura do slasher dos anos 1980, o filme incorpora violência gráfica mais explícita e uma encenação mais agressiva, sem abandonar completamente o conflito psicológico do personagem. A direção de Perkins demonstra consciência das transformações do gênero naquele momento, ainda que o resultado seja mais irregular do que o do filme anterior.
A trajetória de Norman Bates seria encerrada em Psicose IV: O Começo, telefilme dirigido por Mick Garris, que opta por uma abordagem retrospectiva ao revisitar a juventude do personagem. Embora menos impactante, o filme completa de maneira coerente um ciclo que, em princípio, parecia desnecessário — mas que acabou produzindo continuidades melhores do que qualquer expectativa razoável permitiria supor.
Dentro desse mesmo universo, vale mencionar o pouco conhecido Bates Motel (1987), outro telefilme derivado da série, ambientado após a morte de Norman Bates. Aqui, o personagem é interpretado por Kurt Paul — ator que, curiosamente, havia participado anteriormente de Psicose IV em um papel diferente. Embora marginal dentro da franquia, o filme ilustra bem a tentativa de manter vivo o legado de Psicose em formatos paralelos, já distante de seu impacto original.
Com o distanciamento do tempo, o filme passou a despertar interesse retrospectivo, não apenas como curiosidade, mas como tentativa pioneira de adaptar o slasher a uma cinematografia que tradicionalmente privilegiou outros gêneros. Esse redescobrimento ganha peso quando observado à luz de produções mais recentes que voltaram a dialogar com o horror violento no Brasil, como Motorrad (2017), O Animal Cordial (2018) e Skull – A Máscara de Anhangá (2020), evidenciando que Shock ocupa hoje um lugar histórico menos pelo resultado artístico do que pelo gesto inaugural.
Por fim, já em tempos recentes, a série American Horror Story dedicou uma de suas temporadas ao universo dos slashers, ambientando-a explicitamente em 1984. A escolha do recorte temporal é significativa, já que aquele ano marca o auge e, ao mesmo tempo, o início da saturação do subgênero. O resultado, porém, expõe mais as limitações da série do que qualquer leitura consistente do slasher. Em vez de explorar suas tensões estéticas e históricas, a temporada se limita a acumular referências e clichês, tratando o gênero como um exercício de nostalgia automática. Falta rigor formal, falta progressão dramática e sobra autocomplacência. Ainda assim, o simples fato de 1984 ser escolhido como cenário confirma o peso simbólico duradouro daquele momento — mesmo quando revisitado de forma superficial e conceitualmente pobre.
DECADÊNCIA E RESSURREIÇÃO
Depois de tanta exploração por parte dos estúdios e diante da evidente falta de renovação criativa por trás das produções, ao chegar a 1986 já era natural que o slasher desse sinais claros de desgaste. Ainda assim, muitos filmes continuaram a ser realizados, impulsionados sobretudo pelo advento do VHS e pelos baixos custos de produção, que mantiveram o gênero economicamente viável mesmo em sua fase mais cansada. Nesse cenário de saturação, alguns poucos títulos ainda conseguiram se destacar.
Ainda em 1986, Tobe Hooper retorna ao universo que lhe deu projeção internacional com O Massacre da Serra Elétrica 2 (The Texas Chainsaw Massacre 2). Consciente de que seria impossível repetir o impacto seco, cru e quase documental do original de 1974 — filme profundamente ligado a um contexto histórico e cultural irrepetível —, Hooper opta por não competir com a própria obra. Em vez disso, subverte expectativas e radicaliza em outra direção: transforma o terror em excesso, o desconforto em grotesco e a violência em espetáculo ruidoso, flertando abertamente com a caricatura e o humor negro.
Soavi, que havia trabalhado como assistente de Dario Argento, demonstra aqui pleno domínio da encenação e da atmosfera, equilibrando estilização, violência gráfica e senso de espetáculo. O assassino, mais próximo de uma figura simbólica do que de um personagem psicológico, reforça essa transição entre gêneros, funcionando como mais um exemplo de como o slasher foi absorvido e reinterpretado fora do eixo anglo-americano.
Pouco depois, o diretor realizaria Pelo Amor e pela Morte (Dellamorte Dellamore, 1994), um dos grandes cults do terror europeu, baseado em obra de Tiziano Sclavi. Embora não seja um slasher, o filme compartilha com Deliria uma sensibilidade visual e temática muito particular e dialoga claramente com o universo de Dylan Dog, o personagem mais famoso de Sclavi. A menção se impõe não por proximidade genérica, mas pela coerência autoral: mesmo fora do slasher, Soavi permanece interessado na morte como espetáculo, na ironia macabra e na estilização extrema — marcas que ajudam a compreender seu lugar singular dentro do cinema de horror.
O divertido Matadouro (Slaughterhouse, 1987) é mais um exemplar independente claramente inspirado em O Massacre da Serra Elétrica. Lançado diretamente para o mercado de vídeo, o filme aposta sem disfarces na ambientação rural degradada, na figura do assassino brutal e no gosto pelo excesso gráfico. Sem ambições formais maiores e sustentado por um orçamento modesto, Matadouro encontrou seu público justamente nesse circuito doméstico, onde acabou acumulando um número fiel de admiradores e garantindo seu lugar no subterrâneo do slasher oitentista
Prefácios da Morte (I, Madman, 1989) retoma o flerte do slasher com o sobrenatural sob a direção de Tibor Takács, o mesmo de O Portão (The Gate), e o faz por um caminho menos óbvio do que o adotado por franquias mais populares do período. O filme parte de uma ideia particularmente criativa ao fundir literatura pulp e horror, transformando um assassino fictício — personagem de romances baratos de banca — em uma ameaça concreta que atravessa a fronteira entre ficção e realidade. Essa dinâmica sustenta um jogo constante entre imaginação, paranoia e desejo, em que a leitura se torna ato perigoso e o escapismo cultural assume contornos literalmente mortais.
Sem ambições realistas, o filme assume sua natureza fantasiosa com convicção e aposta mais na atmosfera, na estilização e na força da ideia central do que em excessos gráficos, garantindo-lhe um lugar particular entre os títulos mais inventivos do final dos anos 1980.
Popcorn ocupa um lugar singular na história do slasher justamente por surgir quando o gênero parecia exaurido. Ambientado em um cinema que promove uma maratona de filmes de terror, o longa assume uma postura abertamente autoconsciente, refletindo sobre os próprios códigos do horror enquanto os coloca em cena. O assassino, os dispositivos de encenação e a própria estrutura dos crimes dialogam com a memória do cinema de gênero, criando um jogo constante entre homenagem e comentário. Ainda distante da sofisticação e do impacto que Pânico alcançaria poucos anos depois, Popcorn antecipa esse movimento ao tratar o slasher como espetáculo e encenação, mais interessado em brincar com suas convenções do que em reproduzi-las mecanicamente. Passou quase despercebido em seu lançamento, mas foi conquistado status cult com o tempo, funcionando hoje como uma ponte clara entre o colapso do slasher clássico e sua futura reinvenção metalinguística.
Inspirado no conto The Forbidden, de Clive Barker, O Mistério de Candyman (Candyman, 1992) conquistou rapidamente o público do horror. Com uma forte inclinação sobrenatural, o filme nunca alcançou a popularidade massiva de outros ícones do slasher, mas deixou uma marca profunda em quem o viu — muito em função da presença e da caracterização perturbadora de Tony Todd no papel-título. Candyman é um personagem que dispensa onipresença cultural: basta um encontro para não ser esquecido. O sucesso rendeu continuações ao longo dos anos e manteve a figura viva o suficiente para justificar novos retornos, sempre associados à imagem de Todd, elemento central da identidade do filme.
Há ainda um diferencial importante que ajuda a explicar a permanência de Candyman: sua relação direta com o espaço urbano e com tensões raciais raramente exploradas com seriedade pelo slasher tradicional. Ambientado em conjuntos habitacionais marginalizados de Chicago, o filme desloca o horror do subúrbio branco para um território marcado por desigualdade, abandono institucional e violência estrutural. O mito do assassino nasce ali menos como punição moral e mais como lenda transmitida, alimentada pelo medo coletivo e pela repetição da violência. Sem transformar isso em discurso explícito, Candyman amplia o campo simbólico do gênero e antecipa, ainda que de forma isolada, caminhos que o terror só passaria a explorar com mais frequência muitos anos depois.
As continuações lançadas ao longo dos anos jamais alcançaram o impacto do filme original, alternando entre tentativas tímidas de expandir a mitologia e soluções claramente enfraquecidas. Ainda assim, Tony Todd permaneceu como o principal elo de continuidade da série, retornando sempre que possível ao papel que marcou sua carreira. Pouco antes de sua morte, o personagem ainda ganharia uma reimaginação em Candyman (2021), que buscou atualizar o mito para um novo contexto social sem romper totalmente com sua origem. A morte de Todd encerra, de forma concreta, a participação do ator que definiu o personagem, mas não impede que o universo continue a ser revisitado — apenas reforça o quanto sua presença foi determinante para que Candyman se mantivesse distinto dentro do panteão do slasher.
O infame e essencialmente inclassificável O Duende (Leprechaun, 1993) pertence àquela linhagem de filmes de terror barato que sobrevivem menos pela qualidade do que pelo descaramento. Tosco, mal-acabado e frequentemente constrangedor, o filme se sustenta hoje quase como curiosidade histórica — sobretudo por marcar o início da carreira de Jennifer Aniston, ainda muito distante de qualquer aura de estrelato. Nesse sentido, entra para o mesmo arquivo curioso que inclui George Clooney em O Ataque dos Tomates Assassinos 2, Brad Pitt em produções televisivas e filmes de gênero esquecíveis, ou mesmo Leonardo DiCaprio em Critters 3, feito antes de qualquer cálculo de carreira, que nenhum deles faz questão de reivindicar. Aqui, não há a construção de um grande ícone do slasher, apenas um vilão caricato esticado até o limite, que acabaria rendendo uma franquia inteira justamente por assumir o ridículo como identidade. Um produto menor, mas revelador de como o terror de baixo orçamento funcionou, durante anos, como porta de entrada para futuros astros — ainda que, no caso de Leprechaun, o legado seja mais de anedota do que de influência real.
Quando o slasher parecia esgotado e relegado quase exclusivamente aos aficionados do gênero, Wes Craven retorna em grande estilo com Pânico (Scream, 1996), um sucesso inesperado que recolocou o subgênero no centro da cultura pop. Ao mesmo tempo em que homenageia suas convenções, o filme as desmonta com ironia, operando como sátira interna sem jamais abandonar a eficácia narrativa. O assassino mascarado — com visual inspirado no quadro O Grito, de Edvard Munch — sintetiza bem essa ambiguidade: é, simultaneamente, comentário e continuidade. O impacto foi imediato. Pânico levou o slasher de volta ao grande público e apresentou o roteirista Kevin Williamson, que rapidamente se tornaria um dos nomes centrais dessa retomada, vindo depois a dirigir Tentação Fatal (Teaching Mrs. Tingle, 1999).
Olhando em retrospecto, a quantidade de produções surgidas nessa esteira não é tão grande quanto a memória afetiva costuma sugerir, mas o alcance foi considerável. Esses filmes dialogaram com um público que tradicionalmente desprezava o slasher, reembalando o gênero com verniz pop, elencos televisivos e uma autoconsciência que, para muitos fãs antigos, soava como traição — gerando uma reação previsível de resistência, ciúme e desconfiança.
Um dos títulos mais emblemáticos desse momento surge já no ano seguinte, novamente com roteiro de Kevin Williamson: Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado (I Know What You Did Last Summer, 1997). O título ecoa deliberadamente Eu Vi o Que Você Fez e Sei Quem Você É (I Saw What You Did, 1965), de William Castle — filme que ganhara uma refilmagem televisiva em 1988 bastante popular na época. Aqui, o slasher abandona o jogo metalinguístico de Pânico e aposta em uma estrutura mais clássica, centrada em culpa, segredo e punição. O sucesso comercial garantiu uma continuação imediata, Eu Ainda Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado (I Still Know What You Did Last Summer, 1998), e, anos depois, uma derivação tardia e já irrelevante lançada diretamente em vídeo, Eu Sempre Vou Saber o Que Vocês Fizeram no Verão Passado (I’ll Always Know What You Did Last Summer, 2006), quando o ciclo já havia perdido força e interesse.
Outro representante dessa fase é Lenda Urbana (Urban Legend, 1998), que se sustenta menos pela originalidade e mais pelo jogo de referências a mitos contemporâneos e pela presença de figuras emblemáticas do terror, como Brad Dourif — eternamente associado a Brinquedo Assassino — e Robert Englund, o Freddy Krueger de A Hora do Pesadelo. Um filme sintomático de um período em que o slasher tentava se legitimar tanto pelo reconhecimento de seu passado quanto pela tentativa de dialogar com uma nova geração de espectadores.
A ERA DAS REFILMAGENS

























































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